Construir Resistência
Makarenko

Ideias pedagógicas na Rússia pós-revolucionária (1917-1939)

EDUCAÇÃO

Por Sonia Castro Lopes

A pedagogia marxista baseia-se, fundamentalmente, na relação entre educação e sociedade. Para Marx a transformação educativa deve ocorrer paralelamente à revolução social. Envolve sempre interesses ideológicos e postula um vínculo profundo com a política e a economia, já que a praxis pedagógica deve estar sempre articulada à ação política. Valoriza uma formação humanística e encara o homem como um ser multilateral, liberto de condições opressoras e alienantes.

Ainda no século 19, à época do surgimento da II Internacional socialista (1889), algumas vozes assumiram posições críticas em relação à educação burguesa clássica como, por exemplo, Clara Zetkin (1857-1933), professora, jornalista e política alemã que propunha a separação entre escola e Igreja, melhorias salariais para professores e fornecimento de material escolar para estudantes pobres.

Num segundo momento, após a dissolução da II Internacional (1916), Vladimir Ilich Lênin (1870-1924), líder da Revolução de outubro de 1917, passa a orientar a pedagogia soviética. Por atribuir grande importância à educação no processo de transformação social, ao assumir o controle do governo pôs em  prática a implantação das idéias socialistas na educação.

Lênin afirmava que seria interessante considerar todo o legado do passado cultural burguês, como a organização e a disciplina, notadamente no campo da ciência e da tecnologia. Advogava uma estreita relação entre educação e política (a escola nunca é neutra) e uma opção pela educação politécnica onde seria aplicado o conceito da “multilateralidade” concretizado na conjugação entre instrução e trabalho produtivo. A militância pedagógica soviética entre 1917 e 1924 valorizava a “escola do trabalho” que não distinguia o trabalho manual do intelectual e se afirmava como uma escola de cultura geral e politécnica. Iniciou-se, então, um combate ao ensino tradicional abolindo-se os conteúdos religiosos e nacionalistas e livros didáticos julgados ultrapassados Destacou-se nesse movimento pedagógico a própria mulher de Lenin, Nadeska Konstantinovna Krupskaia (1969-1939).

Para Lênin “só com a reelaboração do conhecimento da cultura criada por todo o desenvolvimento da humanidade se pode construir a cultura proletária (…) e só se pode chegar a ser comunista depois de ter enriquecido a memória com o conhecimento de todas as riquezas que a humanidade elaborou (…) não só se deve assimilá-lo [o conhecimento], mas assimilá-lo com espírito crítico” (1). Em sua opinião, a escola deveria dar aos jovens as bases desses saberes para fazer deles homens cultos e participantes na luta pela libertação em relação àqueles que os exploravam.

No contexto dos anos 1920 destacou-se um dos mais célebres nomes da pedagogia soviética o ucraniano Anton Semionovitch Makarenko (1888-1939) que elaborou uma proposta educacional comprometida com a construção da sociedade socialista. Filho de operários, Makarenko concluiu o curso de pedagogia em 1905 e passou a dar aulas em escolas populares e, em 1917, quando ocorreu a Revolução Bolchevique, ele dirigia uma escola de ferroviários, desenvolvendo um trabalho político-pedagógico junto àquela comunidade. Pouco tempo depois, foi convidado a criar uma escola para menores em situação de vulnerabilidade social.

O pensamento pedagógico de Makarenko parte, portanto, de uma base experimental que foi posta em prática na Colônia Gorki, onde, através de experiências educativas concretas, ele propôs ressocializar meninos abandonados. Disposto a formar um “novo homem”, publicou Poema Pedagógico onde listou as principais qualidades a serem adquiridas pelo cidadão soviético: o sentimento de compromisso, solidariedade e colaboração para com a sociedade; uma sólida formação política capaz de despertar o pensamento crítico e impedir a submissão aos interesses dos exploradores; a capacidade de atender aos interesses coletivos e (re)conhecer os verdadeiros inimigos do povo.

Avesso a dogmas, Makarenko apostava em uma pedagogia dialética que se pautava pelo princípio do trabalho coletivo, tendo a disciplina como alicerce para que este trabalho se tornasse produtivo. A consciência de perceber-se como um ser coletivo, de estar inserido e contribuir para o desenvolvimento da sociedade fazia com que os jovens participassem ativamente dos avanços conquistados no campo econômico. Portanto, o desenvolvimento das relações de cooperação na escola permitiria que o progresso individual contribuísse para o progresso da sociedade, transformando o homem que, por sua vez, poderia alterar o curso da história.

(1) LENIN, V. La instrucción publica. Moscou: Editora Progresso, 1981, p. 70

Imagem: Anton Semionovitch Makarenko. Universal History Archive.

 

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Matérias Relacionadas

Rolar para cima