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Faça a sua parte

Por Roberto Garcia

 

Fato tem toda hora, milhões, bilhões, a cada segundo. Exemplos também. O que é que torna um fato importante? É a atítude que se toma depois dele. Tem unzinho que resolve fazer algo. E mais unzinho. Daí a pouco é uma multidão. E multidões são geralmente mais importantes que uma pessoa isolada. Já ouviu falar que a união faz a força?

Você viu que, ontem, assim como não quer nada, aconteceu um fato diferente. Um juri, no meio de tantos, lá nos confins de uma cidade chamada Minneapolis decidiu que um bandido uniformizado era culpado. Estamos cercados de bandidos, com e sem uniforme. Mas esse aí foi diferente. Foi raro. O tal do Derek Chauvin, o que apertou com o joelho o pescoço do George Floyd por nove minutos filmados até que ele morresse, foi considerado culpado. Nesse caso, a primeira diferença foi o filme. Uma jovem negra filmou o assassinio de um negro e meteu as imagens nas redes sociais.

Era só mais um fato. Isso tem toda hora. Policial batendo em negro? Mas eles merecem, não é? São negros. Já foram manchados pelo pecado original. Não sei onde diz isso na Bíblia. Ou se não disse, assim, claramente, devia dizer. Todo mundo sabe que negro não presta.

Você pode achar que estou exagerando. Este que vos escreve, ouviu exatamente essas palavras, do rapazinho filho do dono do jornal famoso em que eu trabalhava. Ele também me falou que em favela só tem bandido. Simplesmente assim. Vamos lá, continuemos.

Havia um clima em Minneapolis, cidade legal, perto de grandes lagos, numa das partes bonitas e boas de se morar lá naquele interessante país. Só quem não gosta muito do lugar é negro. Que lá respira ambiente opressor. Prá branco é bom. Prá negro, nem tanto. São lembrados toda hora que eles não são assim tão perfeitos. Eles sentem e, olhe lá, não me confunda, um grande número de branco também. Depois das imagens divulgadas, mais do que negros esperneando tinha também branco berrando. Isso também fez diferença. Em muitos casos, tem uma coisa chamada consciência, que às vezes, só ás vezes, gera solidariedade. Se em vez de negro generalizar, dizendo que branco também não presta, ele pode explicar, dizer que do jeito que está não está bom. Bem explicada, a maior parte entende. Surpreendentemente, isso também acontece.

Vamos lá ver se é mesmo. Veja só. As coisas tinham atingido o tipping point, a gota que bate no copo cheio e faz a água derramar. Só uma gota, um fato.

E daí não deu prá segurar. Nem cassetete adiantou. O pessoal foi prás ruas. Primeiro na região em volta do incidente. Depois no bairro, na cidade, na região. Nos dias seguintes, no país inteiro. E note a diferença importante, o que fez a diferença foram os brancos. Isso mostra, amiguinha, que se você depender só dos que pensam igualzinho a você as coisas não andam. Interrompo para um pequeno exemplo. Hoje, a deputada Joice Hasselman e o deputado Alexandre Frota disseram que podiam se reunir para tentar criar um superpedido de impeachment contra Jair Bolsonaro. Tá entendendo como se faz um movimento social? Já ouviu falar nessas duas figuras? Sabe onde elas estavam antes? Percebem onde chegaram agora? Com jeito, com uma gotinha…

Lá nos Estados Unidos, os jornais hoje estão falando na ponte de Selma, no Alabama, em 1965. Foi quando os negros da cidade, cansados da opressão, foram fazer uma manifestação. Quando atravessam uma ponte, sem ter prá onde correr, a policia baixou o pau. E aí, também, tinha fotógrafo, câmera de televisão. Em pouco tempo, também todo mundo viu. E foi aquele episódio isolado que acabou levando a uma mudança da legislação americana, a dos direitos civis. Botaram um pouco de regra naquela bagunça. E foi com aquelas regras que muita coisa mudou prá melhor. Perfeita, não está. Tanto que deu o joelho no pescoço do negro, a morte e a confusão. Mas não tenha ilusão: as coisas mudam devagar. Nem sempre pra frente. Prá ir pra frente precisa consciencia, cabeça fria, muita determinação.

A condenação, agora, resultou de uma série de fatos. A pandemia foi importante. Ela chamou atenção para as desigualdades sociais, para o sofrimento de uma imensa quantidade de gente que está morrendo mais que os outros. Quer outro exemplo? A Folha de São Paulo, a que o Paulo Henrique Amorim chamava de A Falha, ostenta agora em sua manchete principal um fato: Sem renda e sem home office, os pobres são aos que morrem mais. Veja só, manchete no jornal. Aqui e lá se percebe que as coisas estão muito injustas. Isso é bom.

A morte do George Floyd veio na série que incluiu outros casos famosos, como os de Eric Garner, Laquan McDonald, Michael Brown e Breonna Taylor. Eram fatos isolados mas que se foram juntando. E aí podem dar na tal gota.

Desde então, la nos States, em dezenas de estados mudaram as leis sobre comportamento policial. O segredo de corporação, igual ao da omertá da mafia, que faz todo mundo que sabe calar a boca, anda mudando. Empresas privadas anunciaram programas para estimular , oportunidades para negros, botaram bilhão de dolar nisso. Aqui, a Luisa Trajano, do Magazine Luisa, anunciou um programa que ajuda negros. A associação dos times de futebol americano decidiu que não vai mais punir os atletas que, na hora da premiação, quando todas as atençoes e as câmeras estão voltadas prá eles, fazem um gesto de protesto. Isso também registra na cabeça de muita gente. Diante de um gesto desses atletas, o Donald Trump soltou uma expressão que também ficou marcada: filhos da puta. Não foi visto como simpático.
E houve também um movimento para reduzir as verbas das corporações policiais. A mensagem é clara: não se comporta, cortamos a sua grana. Isso pode calar mais que regulamento e lei.

O silêncio, mesmo estímulo, ao banditismo policial, está sendo reconsiderado. Chefes de polícia reconhecem que algo tem que mudar. E falam em treinamento de seus soldados, para que entendam melhor o papel que eles devem empenhar. E os levantamentos de opinião pública estão revelando que um número maior de americanos começam a apoiar o movimento Black Lives Matter, as vidas negras importam. Essa frase simples está prenhe de significado. Outro levantamento demonstrou que mais de um americano em cada dez tinha participado das marchas de protesto contra a morte de George Floyd.

Lembra-se do apoio imediato que o governador de São Paulo, João Dória, deu aos policiais quando bateram negros que estavam fazendo barulho num baile funk? Ele começou mandando policial cair de sarrafo na cracolândia. Achou que fazia bonito. Não pegou bem.

Isso é coisa de violência policial, igualzinho a Minneapolis. O Dória, que quer se passar de avançado — olhe as vacinas — mas não passa de um oportunista vulgar, até ele teve que mudar.

Sociedades complexas são como enormes navios. Prá mudar um pouquinho de diração leva tempo. Diferente da bicicleta, da moto, que basta virar o guidon. Se quiser mudança instantanea vai ficar frustrado. Num mundo em que quase todo mundo acompanha as redes sociais, fica mais fácil perceber as mudanças. Não só dos que querem avançar. Não esqueça que também é muito importante o grupo que quer atrasar. É muita contradição. Mas é com elas que tambem se avança. Se não houvesse contradição estaríamos já esmagados.

Nos Estados Unidos, um grupo de jovens com educação de nível universitário perceberam as iniquidades do sistema e foram importantes para tirar Trump e instalar Biden na cadeira presidencial. Aqui, as igrejas serão importantes para espalhar a idéia de que é necessária a reconciliação. Malafaia não pode continuar falando em nome de todas elas.

Queremos todos mudar o mundo para melhor. Tem muito fato ajudando. Cadê o seu gesto, a sua gotinha?

 

Roberto Garcia é jornalista.

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