Construir Resistência
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Eu vi a morte de perto após o massacre no Carandiru

Por Luiz Galvão

Minha sorte foi que o cinegrafista, Décio Ciappine,  com um olho no visor da câmera e outro no ambiente, evitou que eu fosse assassinado

 

“Eu vou te matar. Eu quero te matar. Vou me vingar de você, repórter safado,  canalha, fdp.” Foi o que ouvi aos berros de um sobrevivente do massacre do Carandiru, em 1992. Quase fui morto. Isso aconteceu na semana seguinte à carnificina realizada pela tropa de Choque. O governo do Estado por fim resolveu “liberar” para a imprensa a entrada no Pavilhão Nove, onde mais de 111 presos foram chacinados e assim poder registrar o que “restou” entre  sobreviventes e do local.  Eu trabalhava como repórter da TV Record.
Os andares ainda estavam molhados porque a direção da Casa de Detenção tentou, a todo custo, “apagar” as manchas de sangue. O que vi foi estarrecedor.  Um punhado de presos perambulando desesperados e com medo, tentando contar o que tinha acontecido e haviam sobrevivido.
Havia buracos de balas de metralhadoras por todo canto, nas paredes e dentro das celas. Parecia um queijo suíço. Nos buracos maiores, feitos com tiros de escopetas, os presos colocaram tocos de velas acesas. Essa era a única iluminação. Nunca mais vou esquecer essa triste e desoladora lembrança.  Os repórteres se espalharam pelos andares do Pavilhão registrando tudo e ouvindo o relato apavorante dos sobreviventes. Em uma dessas entrevistas que fazia, não percebi que um preso estava me perseguindo o tempo todo.  

Inesperadamente e na covardia ele me atacou com uma faca. A intenção dele era cravar a arma no meu pescoço. A sorte minha foi o cinegrafista da equipe da TV Record, Décio Ciappine, ter percebido o ataque.  Com um olho no visor da câmera o outro no ambiente e quase  que por instinto ele me empurrou com força. Mesmo assim, o detento voltou em minha direção gritando com raiva palavras horríveis e me ameaçando de morte. Os agentes penitenciários que faziam a nossa segurança o agarraram a tempo. Nunca tinha sofrido uma ameaça e tentativa de morte na minha vida. Ainda contido, ele gritava: “Repórter canalha, sem vergonha, quero te matar, por sua causa peguei mais de dez anos de prisão”. Não entendi nada. Para mim, nunca tinha visto aquele sujeito. Porém foi ele quem me lembrou dizendo que eu  tinha “escrachado” a cara dele numa reportagem que fiz dois anos antes, quando foi preso por tentativa de assalto a um Flat residencial no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo.  Aí sim lembrei  do caso. 

Ele foi preso junto com outros acusados e os policiais disseram que ele fazia parte de uma facção criminosa do Rio de Janeiro que tentava ocupar a cidade. Eu não o entrevistei na ocasião, nem mesmo provas da tentativa de assalto eu tinha. Mas o cinegrafista que estava comigo, empolgado, fez as imagens dele entrando na viatura da polícia. Afinal, era da facção criminosa carioca e muito antes do PCC (Primeiro Comando da Capital) surgir no final da década de 90. Não editei a matéria. O editor colocou a cara dele e a matéria  foi ao ar com a informação da polícia. 

Algumas pessoas que assistiram o Jornal o viram na TV e se apresentaram na delegacia. No entanto, ele não era de nenhuma facção. Mesmo assim, juraram a participação dele em outros assaltos. Tudo bem, ele podia até estar pagando pelos crimes cometidos, mas o fato de ter participação na facção é o que chamou a atenção dos telespectadores. Ocorre que nunca gostei de colocar a imagem de quem é preso antes de ser condenado pela Justiça. Não por medo. Faz parte da minha ética profissional. 

E é exatamente por pensar e agir assim profissionalmente que sempre detestei  o  tipo de telejornalismo sensacionalista. Na época, o “Caqui Amora”, o Aqui Agora, que passava no SBT, com todo respeito aos colegas, já abusava desse tipo de jornalismo policial. Ou “policialesco”, como chamo. Foi o “embrião” do que vimos hoje em algumas emissoras.  O “Show Jornalismo”, “Jornalismo Canalha”, a notícia espetáculo, como bem define o estudioso José Arbex Jr. Uma profusão de imagens repetitivas, acusatórias, e por vezes mentirosas, especialmente quando mostra que a matéria é “exclusiva”, e não é verdade. “Âncoras messiânicos”  falam pelos cotovelos, sem ética e sem moral. O que importa é o lado sensacionalista, conseguir pontos  de qualquer maneira na audiência, mesmo que para isso se minta,  já condene. 

Aproveitam da sensibilidade, compaixão ou raiva do telespectador muitas vezes quase sem estudo, informação e mais vulnerável. O pior é um desses “âncora” cheio de retóricas e ambiciosos, se prestar a ser  candidato a presidente do Brasil. É o fim. Acredito que esse tipo de “cobertura” de casos policiais e também tragédias prestam um desserviço à sociedade. Em algumas coberturas que fiz, vi policiais espancarem o acusado para “se entregar e confessar um crime”. É por esse e outros motivos que sempre tive um pé atrás em divulgar sem critério jornalístico o que é apresentado. É necessário investigar melhor o caso. Claro que esses “telejornais” empregam muitos profissionais sérios do jornalismo, sem dúvida. A eles, o meu respeito.

 

Luiz Galvão é jornalista formado em com pós-graduação em mídias sociais. Já foi repórter, editor e chefe de reportagem nas principais emissoras de TV de São Paulo

 

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