Construir Resistência
Foto: Arquivo pessoal

Escravismo

Por Virgilio Almansur

MP1045, UM TRANSTORNO, UM SIMULACRO SENZALÊZ INSENSÍVEL E PERIGOSO

Sem horizonte, um trabalhador padece. Padece com ele o seu entorno. Trabalhadores sem horizontes, configuram-se contidos, amarrados, cerceados, impedidos de projetos, submetidos às grades e catracas chancelárias da chegada e da ida, desse tempo-limite que oprime — e quanto mais longo… infelicita. Sim! Machuca! Prisão semi aberta. Trabalho sem contra partida diletante ou festiva é terreno fértil aos transtornos psíquicos dos mais amplos, dos mais superficiais até àqueles comprometedores da higidez mental resultando em sofrimento crônico.

Trabalho sob exigências que transponham segurança, os mínimos direitos — e submetido à cobranças elásticas —, impede o porvir recreativo e é palco às tristezas em graus variáveis. Desde as alterações nas centenas de artigos na incompreendida CLT, o homem a ela submetido ou dela “liberto” por próprio estatuto, mas ainda sob reflexos de leis trabalhistas, entristeceu. Foratemer, um capacho transilvânico do mundo das sombras e perfil excessivamente nosferático, introduziu-nos num cenário crepuscular, onde a classe mais dependente das consolidações trabalhistas se encurvou, perdeu perspectivas e veio se adoecendo.

Nossos trabalhadores estão tristes. Abalados — e com a limitação maior dessa medida provisória pouco discutida, projetada para oprimir, quase uma lei opressora que veio tendo implicações prévias, agora recepcionada e à espera da aprovação do senado —, esses irmãos trabalhadores já não conseguem dormir, precarizando, outrossim, a tão esperada e exigida produtividade. Pró-atividade então!? Balela de gerente-capataz sem qualquer empatia, figurando como capitão do mato. Sem férias, a tristeza aumentará! Marca característica que se impôs, tenderá a se reproduzir nas frações depressivas.

No golpe implantado em 16, a interinidade do vice gerou, até 31/08/16, inúmeras reações a que os trabalhadores incorporaram, reproduzindo angústia generalizada mas com alguma esperança de que o modelo trabalhista, cantado em prosa e verso (diga-se, até pela esquerda liberal…), auguraria esplendor e chances de melhores colocações com trabalhos e salários também mais alvissareiros.

De falácia em falácia chegamos ao desastre; a tese de que o poder parece mesmo requerer corpos tristes assim como a implantação da tristeza como método de domínio e subjugação, não tem paradeiro. Não interessa aos nossos responsáveis, na condução da política econômica, qualquer semblante leve, descontraído, alegre. A alegria é a manifestação de um afeto que resiste, que não se rende e parte para as lutas necessárias às conquistas que o depressivo não o faz. Se não busca, não luta, também não alcança…

As chances de equilíbrio e justiça social aos infinitos vulneráveis, muitos hipossuficientes, outrora voando, terão que se submeter ao jugo de uma economia desigual, predadora às conquistas desses insuficientes tão somente suficientes para irem a Cachoeiro de Itapemirim mas jamais a Miami. Não poderão sonhar, item proibido e proibitivo, como jamais ingressar numa faculdade.

Escrevo mexido, incomodado com as repercussões. O telefone não para e antevejo ansiedade, angústia, depressão. Impossível calarmos e asistirmos a essa derrocada e na esteira sofrimentos e sofrimentos sem esperança, nem para uma ajuda que se verá supérflua. Todo hiato necessário às reparações e recomposição narcísica, advêm desse tempo lânguido onde possa surgir impulso — e volição às mesmas ou novas tarefas que o cotidiano do labor reclama.

Sem férias, não há família, não há amigos, não há alteridade, não há dignidade, humanidade. A marca deixada pelo Congresso é de perfil escravagista, na mesma proposta que instalou casa grande e senzala, exigida sob os cânones que uma certa propriedade é exercida sobre outrem.

 

Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor.

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