Construir Resistência
Reprodução
Jornal O Globo.
11-3-21, p.4

Editoriais chapa-branca

Imprensa hegemônica insiste no perigo da polarização política

Por Sonia Castro Lopes

 

Constatar a forma como os Bonners, Catanhedes, Mervais e outros tantos funcionários das Organizações Globo narram e comentam as notícias sobre o ex-presidente Lula tem sido um exercício diário de resistência. Os editoriais de ‘O Globo’ e da ‘Folha de São Paulo’ nessa quinta feira (11) são peças dignas de serem examinadas sob a ótica da análise de discurso. Por favor, leitores da grande imprensa, tirem os Bardins das estantes e mergulhem na compreensão das entrelinhas, ditos, não ditos e interditos.

 

O editorial d’O Globo traz como título “Lula em plena campanha para voltar ao poder” advertindo no subtítulo que ‘seria bom se os erros do passado tivessem lhe ensinado algo. Pelo que se ouviu ontem, não aprendeu nada.’  Reconhecendo a verve e o incomparável talento para o palanque do ex-presidente, a matéria aponta uma série de contradições em seu pronunciamento. Na opinião do jornal, a Operação Lava-Jato teve o mérito de desvendar as relações promíscuas de Lula com os maiores empreiteiros do país. Sugere que a visão econômica do ex-presidente encontra-se totalmente defasada, uma vez que  demonstra  a mesma ignorância de Bolsonaro em relação ao funcionamento do mercado de combustíveis. Aliás, o editorial de ontem, quarta feira (10) já informava aos leitores que a suspeição de Moro não tornaria Lula inocente, admitindo que ele até poderia sair ileso  e candidatar-se em 2022, mas “a nódoa do maior esquema de corrupção já desmascarado no país continuará a manchar sua biografia.”

 

A comparação entre o atual e o ex-presidente faz parte de uma construção discursiva cujo objetivo é insinuar para os desinformados que no páreo da corrida presidencial só há no momento duas opções: o sujo e o mal lavado. Já bateram à vontade em Lula no passado e com isso ajudaram a eleger o insano que ocupa o mais alto cargo do país. Agora, simplesmente, não sabem como tirar o bode da sala. Com a possibilidade do retorno de Lula à cena política, o ex-presidente transformou-se na bola da vez.

 

Já a Folha argumenta que a anulação das condenações de Lula e uma possível decisão favorável sobre a parcialidade do ex-juiz Sérgio Moro constituiriam um “golpe contra a estabilidade jurídica” na medida em que outros réus poderiam se beneficiar da decisão e deitar por terra toda a contribuição da Lava-Jato para combater a corrupção no Brasil. E compara as decisões tomadas pelo STF ao plano do senador Romero Jucá que teria declarado em conversa com parceiros que seria “preciso estancar essa sangria, com Supremo, com tudo.” A ex-presidente Dilma Roussef manifestou-se publicamente nessa quinta feira (11)  acusando a Folha de ter cometido uma falsidade histórica ao comparar a declaração de Jucá com os julgamentos que tentaram reparar a injustiça cometida contra o ex-presidente Lula. Para Dilma, só a obsessão antipetista justificaria erro tão crasso.

 

O Primeiro Caderno de O Globo está recheado de matérias sobre o pronunciamento de Lula realizado na última quarta feira (10), críticas às decisões do STF e preocupação com os destinos da Lava-Jato, num total de oito páginas. E apesar de o número de mortos na pandemia dividir a primeira página com o pronunciamento de Lula, a essa reportagem só foi dedicada uma página.  O leitor há de convir que é muito pouco espaço para uma tragédia que nas últimas 24 horas ceifou a vida de 2349 brasileiros. Da mesma forma, apenas uma página foi reservada para descrever as tramóias e nomeações de bolsonaristas radicais para presidir comissões na Câmara Federal – caso da deputada Bia Kicis (PSL-DF) indicada para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Acrescente-se que essas duas reportagens só aparecem nas últimas páginas do Caderno demonstrando claramente que tais pautas passaram a ocupar um plano secundário na arena política. Bolsonaro agradece, penhorado.

 

O que na verdade desespera os tucanos, tanto os assumidos quanto os  enrustidos, é justamente a falta de um nome de peso para enfrentar o ‘sujo’ e o ‘mal lavado’. A Dória falta repercussão nacional, além disso, sua aliança oportunista com Bolsonaro em 2018 deixou-o mal na fita. Moro talvez consiga se eleger para um cargo no Congresso, mas lhe falta capital político para  aventurar-se em uma campanha presidencial. Sobra Luciano Huck – o queridinho de Fernando Henrique Cardoso – que já declarou que ‘figurinha repetida não completa álbum.’ Na entrevista coletiva à imprensa, Lula, com seu humor afiado, fez questão de responder ao animador global: ‘Depende da figurinha, meu caro. Se for carimbada, completa sim.’

 

 

 

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