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Economista, professor e tucano histórico vive em situação de rua

Por Carlos Ratton- Diario do Litoral 

José Tarcísio Florentino da Silva dividiu mesas com o ex-governador Mário Covas, o prefeito de SP Bruno Covas, e foi amigo de Edmur Mesquita e de Koyu Iha

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Foto: Igor de Paiva/DL

Ano passado, quando apoiou o Filme Colchão de Pedra, em parceria com a Universidade Santa Cecília (Unisanta), o Diário descobriu, por intermédio da coordenadora na Baixada Santista o Movimento Nacional de Luta em Defesa da População em Situação de Rua, Laura Dias, que a “rua é talentosa”. Ou seja, abriga profissionais talentosos e competentes, das mais variadas áreas de atuação, mas que, por um infortúnio da vida, foram viver ao relento, sem um teto, família e amigos.

Pois bem, por intermédio de uma fonte importante de Santos, a Reportagem descobriu que um tucano histórico da Cidade, praticamente fundador do PSDB, José Tarcísio Florentino da Silva, economista por formação e que já ocupou cargos importantes na Cidade, está em situação de rua e vem sendo amparado graças à sensibilidade dos profissionais do Serviço Social do Município.

José Tarcísio foi presidente, por dois mandatos, do Sindicato dos Conferentes do Porto de Santos, consultor técnico da Empresa Metropolitana de Transporte Urbanos (EMTU) e da Agência Metropolitana da Baixada Santista, entre outros órgãos regionais.

Dividiu mesas com autoridades importantes brasileiras, como o ex-governador Mário Covas, o ex-prefeito de São Paulo, Bruno Covas, foi amigo pessoal do ex-deputado Edmur Mesquita e o do ex-prefeito de São Vicente e ex-deputado Koyu Iha.

Hoje, está sendo assistido na Seção Abrigo para Adultos, Idosos e Famílias em Situação de Rua – Seabrigo-Aif Monsenhor João Joaquim Vicente Leite, na Rua Manoel Tourinho, 352 – Macuco, um dos quatro equipamentos mantidos pela Prefeitura de Santos.

Sensível e didático – pois também já foi professor universitário – José Tarcísio que já participou de discussões até no Senado Brasileiro, se aposentou, mas acabou se endividando na década de 90 (empréstimos consignados) e nunca mais conseguiu se reerguer.

Sem família, deixou o sindicalismo, segundo ele, por desavenças com oposicionistas por conta dos caminhos que a relação trabalhista entre os conferentes e as empresas portuárias estavam tomando, o tucano, que participou de lutas históricas, não esconde a frustração de perceber, aos 75 anos, o quanto a Região Metropolitana da Baixada Santista, que ele viu emergir, se encontra estagnada.

“Fomos pioneiros e tudo começou muito bem. No entanto, o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (Condesb) – formado por representantes das prefeituras e do Estado e a Agência Metropolitana da Baixada Santista (AGEM), braço operacional do Condesb, estão patinando há anos, estão inativos e não conseguem resolver ou minimizar problemas comuns entre os nove municípios da região”, afirma.

José Tarcísio revela que a falta de empregos, inclusive no Porto; de um transporte público mais ágil e barato; de vagas em hospitais, remédios e atendimentos de saúde humanizado, principalmente para as pessoas em situação de rua (como é seu caso) são resultado de falta de objetividade, compromisso, de senso comum dos executivos dos nove municípios há pelo menos duas décadas.

Ele, que participou de reuniões metropolitanas, percebeu o que muita gente vem falando há anos: decisões metropolitanas não saem do papel porque, ao deixar as mesas, cada prefeito ou prefeita adota procedimentos individuais.

EXEMPLO.

Um exemplo disso José Tarcísio revela que foi por conta justamente de sua atual situação. Ao abrigar-se no Albergue Municipal, notou que muitos moradores de rua não são de Santos.

“Isso acontece porque, embora ainda com problemas a resolver, como a falta de vagas, Santos é a única cidade que possui uma assistência para as pessoas em situação de rua razoavelmente eficiente. As demais, têm serviços, mas ainda muito precários, ineficazes. Isso poderia ser resolvido de forma metropolitana”, acredita.

Outro exemplo dado por ele refere-se à saúde. Após ser mordido por um cachorro de rua, José Tarcísio procurou assistência médica e descobriu que as únicas unidades que forneciam vacina para seu infortúnio em Santos estavam localizadas na área continental de Santos.

“Aí tem dois problemas metropolitanos: a má distribuição de medicamentos e a falta transporte gratuito para pessoas em vulnerabilidade social. Não tinha vacina nem no Ambulatório de Especialidades (Ambesp) de Santos. As prefeituras e o Estado deveriam estar trabalhando de forma sincronizada”, afirma.

Para o economista e professor, todas as decisões e investimentos teriam que ser feitos de forma conjunta, estrategicamente pensadas. “Eu ignorava essa questão e só fui perceber quando cheguei a situação de rua e passei a precisar totalmente do serviço público.

 

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