Por Walter Falceta Jr.
Primeiramente, antes de sorrisos, beijos e abraços, vamos à realidade histórica.
A sociedade patriarcal oprime e agride as mulheres. Em sua estrutura bestial, o sistema escravista e racista insulta a civilidade.
O preconceito no campo das orientações sexuais e afetivas é um murro na boca do estômago. A exploração econômica e a desigualdade constituem crimes hediondos contra a humanidade.
Nós, do lado de cá, sabemos disso, e lutamos pela transformação, ou seja, por um mundo que respeite e valorize as diferenças, que patrocine isonomias e que universalize direitos.
Em tese, é o que nos faz somar à esquerda. A direita busca fortalecer supremacias que garantam a conservação de privilégios. Nós, desde sempre, remamos na direção contrária.
Diante de tamanhas ofensas e agressões, realmente é difícil exigir gentileza dos oprimidos, dos famintos e dos excluídos.
Mas aí a gente se lembra de um sujeito argentino-cubano que ensinou o seguinte: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.
Sim, é preciso ter gana, coragem e garra, mas se cedemos aos costumes e condutas do bárbaros, que diferença, efetivamente, haverá entre nós e eles?
Luiz Gama é, na minha opinião, o maior dos paulistas, ainda que não tenha nascido aqui. É um herói poeta, craque no Direito, referência formidável da negritude.
Sua biografia, no entanto, revela um homem que combinava a fibra resistente à doçura solidária dos santos. Gama recebia homens brancos pobres em sua casa. Tratava-os com bondade e os auxiliava de graça em suas litigâncias jurídicas.
Francamente, eu queria ter amigos como Luiz Gama, um homem universal, de visão ampla, justo, amistoso e leal.
Carlos Marighella, meio sudanês, meio italiano, profundamente baiano e brasileiro, era outro poeta, de coração afável. Ria e fazia rir, zombando de si mesmo. Combinava o rigor da disciplina ao humor de incentivo. Gostava de crianças e de brincadeiras.
O nosso amigo de Nazaré, o carpinteiro, era igual. Pedia sempre que lhe mandassem as criancinhas, para participar de seus folguedos e traquinagens. Era também o viajante que adorava conversar com os estranhos, com os estigmatizados, como fez com a samaritana.
A rigor, na história, os maiores revolucionários foram criaturas amorosas. Suponho que praticavam a empatia simpática porque foram educados ou se educaram para fazer avançar o rito civilizatório.
Nosso Paulo Freire fala da importância da amorosidade na obra de conserto e aperfeiçoamento do mundo. E ele tem razão. Nada se faz de profundo e duradouro sem a tolerância, a compreensão e o colocar-se gracioso no lugar do outro.
Quando não somos educados, como explicava o professor, somos oprimidos que sonham com uma falsa redenção, na qual nos tornamos opressores, copiando nossos carrascos.
Essa brandura elegante é extremamente poderosa. Nós a vimos no querido reverendo Martin Luther King, Jr., na feminista negra Sojourner Truth, no metalúrgico Lula e, hoje, a encontramos fulgurante no Padre Julio Lancellotti.
Ontem, soube da passagem prematura de Dirce Koga, e assim me inspirei para redigir este texto. Assistente social e professora, a companheira era também fonte inesgotável de candura, capaz de animar os espíritos mais combalidos.
Sinceramente, creio na força imensa dessa rebelião do bem. Em um mundo de recriminações, perseguições, ressentimentos, egolatrias, bullying, abusos, estigmatizações e estupidez, mesmo dentro das trincheiras progressistas, é esse amor vasto, iluminado e contente que faz a verdadeira diferença.
Já dizia o poeta e profeta José Datrino, aquele que rabiscava suas ideias debaixo de pontes e viadutos: “gentileza gera gentileza”. Por que não tentar? Por quê?

Walter Falceta Jr. é jornalista e co-fundador do Coletivo Democracia Corinthiana (CDC)








