Construir Resistência
Presos federal

Direitos humanos para humanos golpistas

Faz tempo que não nos falamos. Desde que decidiram se aventurar num golpe de Estado para um político para quem direitos humanos é “esterco da vagabundagem”, ficou difícil nosso diálogo. É até compreensível que, agora que a coisa ficou branca (se preta tivesse ficado, a polícia já teria confundido a sua bandeira do Brasil com fuzil), vocês lembrem que existimos. Sem ressentimentos. Veja: o problema do “bandido bom é bandido morto” é que fica mais difícil apoiar o adágio quando o bandido é você.

Quando é você no Complexo Penitenciário da Papuda fica mais difícil defender que a PM entre, execute 111 patriotas e depois o presidente da República os perdoe por indulto. Quando é você o alvo do Judiciário fica mais difícil defender que a imprensa não exista, ou pior sair por aí defendendo regime que esquarteja jornalistas. Quando você é o terrorista da vez, fica difícil criticar a esquerda por retirar da lei de terrorismo atos por motivação política.

Foi a nossa turma, a dos direitos humanos, que inventou que vulneráveis não devem ser detidos (600 idosos, mulheres e crianças foram liberados pela PF); que prisão incomunicável, prática da ditadura militar, é ilegal e, por isso, o seu nome está em listas para que familiares e advogados o encontre; que em até 24 horas você deve passar por uma audiência para ver se há sinais de tortura; que crianças e adolescentes devem ser protegidos pelo Conselho Tutelar (como 23 deles o foram); e que até o Alexandre de Moraes tem que seguir o rito legal. Inventamos tudo isso. De nada, viu?

Thiago Amparo
Thiago Amparo é advogado, professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos e discriminação.

 

 

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Matérias Relacionadas

Rolar para cima