Por Beatriz Herkenhoff
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão. Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel. Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão.
Cio da Terra é uma belíssima música composta por #MiltonNascimento, com letra de #ChicoBuarque.Fala do ciclo do trabalho agrário. Da arte de transformar a natureza (trigo) em cultura (pão). Cio da terra indica a fertilidade do solo e o momento adequado da colheita. Quando ouço a música, outros significados veem à tona.
Recordo as inúmeras vezes que espalhamos sementes de amor e de ternura por onde passamos. Que partilhamos o pão, o agasalho, a moradia e o direito ao trabalho.
Vislumbro homens e mulheres que fecundam a terra e o útero materno para gerar vidas em abundância. Famílias que estão atentas aos desejos da terra e cuidam de suas entranhas com amor . Povos indígenas que protegem nossas florestas e nos comprometem com causas que são da humanidade.
Com o desejo de fartura, aguçado pela música, ouso lambuzar o mundo de mel e de esperança em novos tempos. Sonhar com a dignidade humana, o respeito e a liberdade, com um mundo com menos ódio, violência e preconceito.
A letra dessa música coloca-me também em contato direto com o produtor agrícola, com o ciclo da produção, com sua história de cumplicidade com a terra, de sobrevivência às intempéries da natureza. De luta contra as agressões que estão afetando a sustentabilidade do planeta. A agricultura familiar é a atividade predominante no setor agrícola no ES, está presente em 75% das atividades rurais do Estado e oferta a maior diversidade de alimentos à sociedade capixaba.
Uma das grandes qualidades da agricultura familiar é a adoção de praticas ambientalmente corretas, economicamente viáveis e socialmente justas. Além de cultivar alimentos saudáveis, contribui na preservação dos recursos hídricos.
Ao ouvir Cio da Terra volto no tempo. Recordo que antes da #pandemia, ao frequentar as feiras orgânicas, eu estabelecia uma relação direta com os produtores agrícolas.
Sempre amei feira livre! Ir à feira aguça todos os meus sentidos.
A visão vibra com a beleza e harmonia das cores. As frutas, legumes, verduras e flores dialogam intensamente. Possibilitam metamorfoses quando chegam às cozinhas de nossas casas.
O meu olfato fica encantado com os mais diversos cheiros das flores, dos queijos, das ervas, dos bolos, dos pães e dos mariscos. O paladar não resiste e saboreia a deliciosa papa de milho, a pamonha, os pastéis e o caldo de cana.
A audição alegra-se com as conversas amigas. Com a forma carinhosa e simpática como os produtores nos acolhem e recebem. O tato faz a festa ao escolher o que levar, ao tocar em cada produto, sentir as diferentes texturas e imaginar como irão transformar e renovar a minha energia de luz.
No entanto, essas vivências foram interrompidas. Durante a pandemia passei a fazer compras on line. Tive que renunciar a experiências tão ricas de prazer e alegria, quando saia de casa sem pressa porque queria desfrutar da magia do encontro entre a cidade e o campo.
Com a expansão da vacinação, volto a sonhar com as feiras, com os amigos que encontro naquele espaço. Muitos abraços guardados e saudades acumuladas! Muitas conversas para colocar em dia. Ouvir também os produtores sobre as dificuldades vividas nesse período.
Ao circular pela feira predomina o sentimento de gratidão e de celebração. E também de desejo de que todos tenham pão à sua mesa.
Desejo de fartura para nossa população pobre. Desejo de um mundo mais justo.
Não recebi o dom de cozinhar, mas, sempre amei receber amigos e familiares para um café gostoso, um happy hour e comemorações de aniversários. Por isso, sempre valorizei as pessoas que trabalharam em minha casa e possibilitaram encontros marcantes em torno da mesa.
A comida tem o poder de nos unir, aproximar, nutrir, revigorar, energizar e alegrar. A comida estimula a arte do amor, da gratidão, do cuidado, da doação e da abertura para o outro.
A alquimia dos alimentos nos convida a partilhar a vida com simplicidade e desprendimento. Ficamos mais propensos para contar histórias engraçadas, relembrar viagens, fatos da infância e juventude, conquistas e superações.
As comidas gostosas servidas pelos nossos avós ficam para sempre em nossas memórias. O cuidado dos nossos pais com uma alimentação saudável marca o nosso caminhar e decisões que tomamos ao longo da vida.
Ao lembrar de tanto carinho e amor recebidos, que possamos incluir, em nossa mesa, todos que não têm acesso ao mínimo necessário para sua sobrevivência.
Num momento de dor, de perdas, de impotência e de incertezas, o alimento nos acalenta e fortalece.
Mas, a fartura oferecida pela mãe terra não está sendo dividida de forma igualitária. Nos últimos anos, aumentou em 3 milhões o número de pessoas com privação severa de alimentos (IBGE, 2019). A produção alimentar no Brasil é realizada pela agricultura familiar, mas, essa produção fica invisível pelo monopólio na distribuição dos alimentos por grandes corporações.
Com o aumento da fome, desde o início da pandemia os movimentos sociais do campo e da cidade têm realizado ações de solidariedade nos 24 Estados do Brasil. Distribuem toneladas de alimentos que saciam a fome do nosso povo. Integram as duas campanhas mais amplas de solidariedade realizadas no Brasil.
Que possamos voltar a frequentar as feiras, que a riqueza produzida pela agricultura familiar, pelos assentamentos e acampamentos dos sem terra se tornem visíveis e fortalecidas. Que a nossa indiferença seja quebrada!
Que o cio da terra fecunde, brilhe e seus frutos sejam partilhados com generosidade.
Que possamos nos envolver cada vez mais em campanhas de solidariedade.

Desejo de fartura num mundo justo.
Só esse título já seria suficiente para levar-nos a uma reflexão profunda. Mas todo conteúdo é muito bom.
Explorou muito bem a riqueza da letra da musica Cio da terra.
Ela a fez divagar do campo à cidade, das feiras livres às gestantes, da fartyra e da fome.
Muito bom haver pessoas como vc conseguem explorar o outro lado das coisas!
Gratidão Elias. Que o desejo de fartura num mundo justo nos inquiete a cada amanhecer.