Dependências Químicas: perdas, ganhos, recaídas e sobriedade

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Por Beatriz Herkenhoff

Tudo começou quando por curiosidade eu decidi experimentar uma pequena dose de batida de pêssego. Achei a bebida atraente pela cor e rótulo. Ela me causou uma sensação diferente, senti paz. Algo tinha mudado. No outro dia trabalhei com a expectativa de voltar ao bar e tomar mais uma batida de pêssego. Daí pra frente só fui aumentando as doses. No princípio era bom, perdi a timidez, fiquei eufórico, conversava com todos. Migrei para bebidas mais fortes. Com o passar do tempo já não tinha mais domínio sobre a minha vida. Aquilo que era festa se transformou em tragédia. A alegria foi embora e deu lugar às lágrimas familiares. A tristeza foi tomando conta de mim porque eu não tinha forças para dizer não para a bebida.

 (Robson)

O consumo de bebidas alcóolicas (e outras drogas) está crescendo assustadoramente no período da #pandemia. Por isso, senti-me motivada a escrever sobre esse tema tão complexo. Solicitei que dois amigos (nomes fictícios) relatassem suas experiências: Aloízio está há 40 anos sem ingerir álcool e outras drogas e Robson há 36 anos. Em determinado momento de suas vidas, aceitaram ajuda. A abertura para o tratamento ocorreu quando perceberam que o consumo excessivo estava causando mais perdas do que ganhos e benefícios.

Esse é o eixo que irá conduzir essa crônica: perdas, aceitação, tratamento, manutenção da sobriedade e solidariedade.

Trabalhei 10 anos com dependências químicas (álcool e outras drogas), vivi a dor e o desespero de cada pessoa que atendia. Em muitos momentos sentia-me impotente e perdida sobre como ajudar.

Por isso, a equipe do Serviço Social, onde eu trabalhava, fez parte de capacitações para lidar com essa demanda. A abordagem adotada partia do princípio que a recuperação envolve a participação da família e exige a abstinência total.

Mas a família leva 10 anos para admitir que tem um dependente químico no seu lar. Age, em muitos momentos, como salvadora, facilitando a continuidade da ingestão do álcool e outras drogas. Quando se cansa por não obter resultados passa a perseguir e acusar. E, no final, coloca-se como vítima de uma dor atroz. As famílias sentem simultaneamente, raiva, rejeição, vergonha, julgamento, amor e desejo de ajudar.

O dependente químico nega a doença (bebo quando quero, paro quando quero), minimiza os acontecimentos. Projeta nos outros as razões para o beber excessivo e rejeita qualquer ajuda.

Uma estratégia para lidar com esses mecanismos de defesa é adotar uma metodologia que envolva assistentes sociais, psicólogos, médicos, supervisores, gerentes e familiares. Um trabalho coletivo em que todos utilizam uma linguagem comum e colocam limites de forma sintonizada.

Estudos mostram que 90% da população brasileira consome álcool. Entre esses, 80% são bebedores sociais e 10% dependentes químicos. O difícil é identificar o limite entre o beber excessivo e o momento em que se perde o controle sobre o consumo, conforme depoimento de Robson e Aloízio.

Com 15 anos comecei a beber e usar alguns tipos de drogas. Não tinha noção de que a dependência química era uma doença. No início usava as drogas como se fossem remédios para a timidez, para o medo excessivo, para o vazio que sentia dentro de mim, e depois fiquei doente do próprio “remédio”. Passei na UFF para o Curso de Farmácia, não conseguia concluir o curso. Mais tarde compreendi que era porque eu estava comprometido pela forma como bebia e usava outras drogas.

(Aloízio)

A dependência química é uma doença multifacetada. Envolve uma compulsão química (que gera perda de controle), com questões comportamentais, ambientais, psíquicas, emocionais, espirituais e familiares. O tratamento inclui um processo de desintoxicação, mas, também, terapia individual e familiar. Um novo olhar sobre sua história de vida, quando identifica: as perdas causadas pelo consumo descontrolado; as manipulações e mentiras usadas como mecanismo de defesa para não admitir a dependência; a busca por mudança de vida em todas as áreas e uma abertura para o outro.
Aceitação e tratamento

O alcoolismo foi avançando. Uma namorada me levou numa reunião do AA (Alcóolicos Anônimos). Fiz três tentativas de parar e recaí. Entendi que tinha que fazer uma reformulação de caráter, mudança de vida e de personalidade. Entendi os 12 passos do AA e que tinha que entregar minha vida nas mãos de um Poder Superior (como cada um o concebe). E já estou há 40 anos sem beber.

(Aloízio)

Robson também aceitou o tratamento quando percebeu o descontrole e as perdas.

Comecei a sentir febres, mas, não queria ir ao médico porque ele ia me mandar parar de beber. Ao fazer a radiografia descobri que estava com mais de 60% do pulmão direito tomado pela tuberculose. Fiquei seis meses sem colocar bebida alcóolica na boca. Mas, quando recebi alta, achei que ia recomeçar a ingestão do álcool como das primeiras vezes, sentindo alegria e prazer de beber socialmente. Mas, pelo contrário, recomecei de onde parei. Os problemas foram aumentando e se agravando. Sabia que tinha que parar, mas, não tinha força. Um dia Deus abriu minha visão, vi que tinha que soltar o grito de socorro que estava preso à garganta. Na empresa tinha um Serviço Social muito bom. Procurei ajuda.

(Robson)

Dei dois passos importantes; primeiro parei de beber e depois reaprendi a viver. Como uma criança que precisa que alguém segure em sua mão quando começa a andar, eu precisava de mãos para aprender a viver novamente. Deus moveu mãos de pessoas importantes: minha família, minha esposa que foi maravilhosa (e continua sendo). Na empresa participei de um Grupo de Apoio onde aprendi tudo sobre o alcoolismo. Senti que juntos iríamos reaprender a viver. Só por hoje eu não bebo há 36 anos.

(Robson)

Na abordagem sobre dependência química é fundamental considerar a subjetividade, particularidade e singularidade de cada um. Não se pode padronizar e generalizar o tratamento. Cada ser é único e vai ter sua especificidade ao estabelecer o vínculo e aceitar ajuda. A sobriedade é um processo difícil e sujeito a recaídas. Por isso o tratamento é permanente. Para não correrem o risco de recair, Robson e Aloízio participam de programas de autoajuda. Buscam apoio terapêutico e espiritual. Também dedicam suas vidas para ajudar outras pessoas com problemas semelhantes.

Nesse processo de caminhada temos que olhar para frente, manter o foco. Mas, qual é o foco? Só olhar para frente? Se esqueço de olhar para o lado, passo por centenas de pessoas a margem do caminho, que estão precisando de ajuda e eu não enxergo. Como as pessoas estenderam as mãos para mim, passei a ajudar pessoas que chegaram a um nível de dependência alcóolica que já não têm forças para pedir ajuda. Quando olho para os lados e para trás, lembro-me de onde saí. Vejo que tem pessoas precisando dar o primeiro passo, que merecem recomeçar sua vida. E assim vou fortalecendo o propósito de não beber só por hoje e caminhar de mãos dadas com aqueles que precisam de ajuda.

(Robson)

Formei-me em farmácia, fiz psicologia e depois que passei por um processo de recuperação passei a trabalhar como Conselheiro em Dependências Químicas. Participo de programas do Alcóolicos Anônimos (AA), Narcóticos Anônimos (AA), Neuróticos Anônimos. Nesses espaços ajudo e sou ajudado.

(Aloízio)

Foram inúmeras as dificuldades enfrentadas por mim, como assistente social. Muitas recaídas, não aceitação do tratamento, mortes precoces. Mas, muitas foram as conquistas. Um número significativo de pessoas aceitou tratamento e teve suas vidas completamente transformadas. A esperança venceu. Elas mudaram e eu mais ainda. Ninguém sai o mesmo ao se envolver no tratamento com dependentes químicos.

Se você se sentiu tocado por essa narrativa, busque ajuda hoje. Não deixe para amanhã.

Recomendo a série This is us,  da #AmazonPrime. Ela aborda, com profundidade, a história familiar de dependência química. Mostra como a dependência é reproduzida entre as gerações. Vale a pena conferir.

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

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3 respostas

  1. Perfeita essa abordagem sobre um tema tão sério,porque abordar dois pontos importantes: o dependente e a família. É muito importante a conscientização da família e essa crônica traz informações importantes.

  2. Maravilhosa abordagem. Vivemos em uma sociedade adoecida! É preciso pedir socorro! Obrigada pelas luzes com foco neste problema que tanto nos aflige!

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