Construir Resistência
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De volta a junho de 2013

Por Fernando Castilho

Nunca houve desmonte tão grande de nossos institutos de pesquisa como no atual governo.

Em 2019 o diretor do Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro por divulgar imagens dos desmatamentos ilegais na Amazônia.

De lá para cá vários outros pesquisadores deixaram o órgão, mas alguns outros continuaram a trabalhar em seus projetos.

Um deles, altamente secreto, propunha a construção de um dispositivo capaz de anular a 2ª Lei da Termodinâmica através do entrelaçamento quântico, ideia descoberta graças a um feliz acaso, como costuma acontecer na Ciência. Dessa forma, seria possível reverter a entropia e retornar a estados da matéria que já ficaram no passado.

Simplificando, utilizando certa quantidade limitada de energia, seria possível que uma pessoa voltasse a uma época não muito longínqua por curto intervalo de tempo.

Pois bem, como nossos cientistas aprenderam ao longo de muitos anos a trabalhar com parcos recursos, o projeto não sofreu descontinuidade e revelou-se possível de ser executado.

Assim, no começo desta semana, um dos cientistas serviu como cobaia retornando ao dia 8 de junho de 2013.

Como o protótipo ainda não possuía sintonia fina, não foi possível determinar com exatidão o local onde o cientista se materializaria. Por isso, ele tomou forma a partir do nada na mesa de um bar onde um grupo de petistas comemorava o resultado da então última pesquisa Datafolha que dava 65% de aprovação ao governo Dilma Rousseff.

Assustados, os petistas perguntaram o que estava acontecendo.

O pesquisador, então, tentando manter a calma entre os presentes, explicou de onde e de que tempo estava vindo.

Os integrantes da mesa, incrédulos, tomaram uma dose de cachaça e começaram uma espécie de sabatina ao cientista para se certificarem de que não se tratava de uma fraude.

A primeira pergunta feita por um militante barbudo e de cara redonda foi: quem é o presidente em 2022?

– Jair Bolsonaro.

– Como, aquele deputado do Rio, ligado às milícias e que defende a ditadura?

– Ele mesmo.

– Fraude!, exclamou um homem magro e cabeludoentornando um copo de cerveja.

A gargalhada foi geral.

Então, uma moça de cabelos cacheados, com um chale no pescoço, resolve perguntar: e a Dilma, o que aconteceu com ela depois que concluiu seu governo?

– Err… não concluiu, disse o cientista. Foi cassada por impeachment. Alegaram que cometeu crime de responsabilidade, mas que apesar disso é muito honesta, viu?

– Hua, hua, hahaha! Conta outra, riram todos. Mais um gole.

– É verdade, porra!, bradou o pesquisador. Desculpem o palavrão.

À essa altura, todos já estavam cochichando uns com os outros.

– Olha, mais uma, disse o homem do futuro. Lula era o favorito nas pesquisas em 2018, mas foi preso para não poder concorrer. Não havia nenhuma prova de crime contra ele, mas mesmo assim, um juiz até então desconhecido e irrelevante o condenou.

– Ah, vá!, bradou um companheiro já bem mais velho.Mais cachaça!

– Esse cara é um mentiroso contumaz! Ou então é louco! Imagine prender Lula sem provas!

– Bem, mas o povo deve ter reagido à essa injustiça, né? Todo mundo saiu às ruas pra protestar, né?, perguntou outra mulher, um pouco mais velha que a anterior.

– Pior que não, disse o pesquisador. Houve um início de resistência no início no sindicato dos Metalúrgicos do ABC em São Bernardo, mas depois o país voltou ao normal como se nada tivesse acontecido.

– Carácoles!, exclamaram dois em uníssono.

– Ah, e teve uma pandemia que matou quase 700 mil pessoas no Brasil!, disse o cientista.

Todos se entreolharam, assustados e incrédulos.

– E o presidente desdenhou da pandemia e boicotou a compra de vacinas…

– Agora já chega!, bradou o petista gordinho e barbudo. Chega de mentiras! Quer enganar a quem? Seu infiltrado!

– Não, não quero enganar ninguém! É a pura verdade! A inflação voltou, a fome voltou e não há emprego! Trouxe até um jornal pra mostrar!

Todos se juntaram em torno das manchetes do dia.

– Não é possível! Esse jornal deve ser falso!

– As eleições estão próximas, não estão? Acontecem em outubro, não? Então ele não se reelege, certo? Simples assim, disse o magrinho. Quem concorre com ele?

– Bem, não é bem assim. Lula está em primeiro lugar nas pesquisas e pode vencer já no primeiro turno!

– Ôpa! Aí sim! Mas, quem é o vice do Lula?, perguntou a jovem de cabelos cacheados.

– Err, bem… é, é o Alckmin…

– Não, não e não! Não é possível! Mentiroso! Vá enganar outros, seu tucano!

– Gente, é isso mesmo. Lula precisou colocar o Alckmin de vice para poder dialogar com a elite e os empresários. Ao mesmo tempo o afastou da candidatura a governador de São Paulo para abrir caminho ao Haddad que já está em primeiro lugar nas pesquisas.

À essa altura, todos já tinham bebido muito e permaneciam calados, taciturnos, talvez por medo de novas revelações do cientista.

Mas ele não desistiu.

– Tem mais! O presidente está armando um golpe para o 7 de setembro. Não pretende entregar o poder para Lula, caso este vença. Está afirmando que as urnas eletrônicas são fraudáveis.

– Mas ele não se elegeu várias vezes deputado através das urnas eletrônicas? Ele quer a volta do voto de papel?

– Isso!

– Olha, chega! Volte pro lugar de onde você veio, disse o mais velho com voz trêmula. Mais uma dessas e eu tenho um enfarte fulminante.

– O presidente quer filmar as pessoas votando nas cabines.

O petista mais velho caiu morto da cadeira.

A bateria do dispositivo já estava na reserva obrigando o cientista a voltar.

Os companheiros chamaram a ambulância, mas já era tarde.

Todos voltaram em silêncio para suas casas.

 

Fernando Castilho é arquiteto e professor. Criador do blog Análise & Opinião

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