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Dando nome aos bois…

Depoimento dos irmãos Miranda movimenta a sexta feira (25) na CPI da Covid

Por Sonia Castro Lopes

Deu o maior Ibope o novelão da CPI na tarde dessa última sexta feira (25). O Brasil inteiro parou para assistir o depoimento dos irmãos Miranda que prometia ser bombástico. De fato, o escândalo da Covaxin protagonizou o noticiário político da semana, pois, graças a ele, o ministro ‘balança, mas não cai’ acabou pedindo demissão. Poucas horas depois, outro ministro que andava desaparecido surgiu na TV e, descontrolado, desferiu ameaças aos irmãos que trouxeram à tona suspeitas gravíssimas de corrupção ou, pelo menos, prevaricação de um governo que enganou os eleitores falando em nome de Deus, da família e do combate à corrupção. Parece que dessa vez, a casa cai.

Foi uma tarde animada que entrou pela noite. Nunca se viu tanto político trabalhando numa sexta feira até altas horas. Um dos irmãos, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), totalmente performático, adentrou o prédio do Senado vestindo um colete à prova de balas sobre o terno. O outro, o servidor concursado do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, veio diretamente do aeroporto após uma longa viagem aos Estados Unidos de onde trouxe as vacinas Jansen doadas aos brasileiros pelo tio Biden. A tarde prometia…

Os dois confirmaram o que já haviam dito em entrevistas anteriores. Responsável pelo setor que aprova a importação de vacinas, Luis Ricardo Miranda, desconfiou do contrato para a compra da vacina indiana que, inclusive, tinha um alto custo e falta de registro na Anvisa. Havia faturas com sinais visíveis de irregularidades, já que exigiam o pagamento antecipado de U$45 milhões à empresa Madison. A negociação ainda envolvia uma empresa intermediária – Precisa Medicamentos – que em 2018 havia aplicado um calote no Ministério da Saúde vendendo remédios que nunca foram entregues, provocando um prejuízo de R$20 milhões aos cofres públicos.

Desconfiado, Luis Ricardo, relatou o caso ao irmão-deputado que marcou uma audiência urgente com o Presidente da República, ocasião em que lhe relatou a suspeita de irregularidades no contrato.  Obteve do presidente a promessa de que o caso seria encaminhado à Polícia Federal, o que nunca aconteceu. Nessa entrevista, o deputado ainda ouviu do presidente o nome do suposto responsável pela falcatrua, mas, inicialmente, em seu depoimento à CPI disse “não se lembrar do nome.” Confirmou, ainda, que o ministro Pazuello em conversa com ele, havia insinuado que não se manteria no cargo em razão de episódios de corrupção no ministério.

A essa altura, não apenas os membros da CPI, mas até mesmo alguns telespectadores mais antenados, já suspeitavam de que se tratava do ministro da saúde do governo Temer, investigado por improbidade administrativa por favorecimento à Global Saúde – sócia da Precisa – justamente a empresa que intermediava a venda de Covaxin ao governo.  Esse mesmo político, atual líder do governo na Câmara, já havia apresentado uma emenda ao projeto de lei incluindo a possibilidade de importação da Covaxin e intimidando a Anvisa para agilizar a liberação da vacina. Mas o deputado Luis Miranda insistia em não ‘se lembrar’ do nome do sujeito, embora outros ‘bois’ já tivessem sido nomeados, como o tenente-coronel Alex Lial Marinho, o coronel Marcelo Pires e Roberto Ferreira Dias,  os ‘superiores’ do servidor que exigiram sua anuência ao contrato e que, por isso, serão convidados a depor na CPI. Mas o importante na novela era saber ‘quem matou Odete Roitman.’

A sessão no Senado foi longa e tumultuada. Visivelmente, tratava-se de estratégia dos senadores governistas para não se chegar a lugar algum. Os depoentes foram intimidados e tratados como responsáveis por uma delação  mentirosa, apesar da robustez das provas apresentadas. Destacaram-se as acusações dos senadores Marcos Rogério (DEM-DF) e do líder do governo no Congresso, senador Fernando Bezerra (MDB-PE). Com textos visivelmente preparados pela assessoria, insistiam em interromper os depoimentos e  afirmar que o servidor do Ministério da Saúde deveria se reportar aos seus superiores, ao invés de procurar o presidente para relatar suas suspeitas. Os argumentos, entretanto, caíram por terra quando senadores de oposição lembraram que eram justamente os superiores que o pressionavam a autorizar o contrato espúrio. E o presidente da CPI voltava a insistir: Quem matou Odete Roitman?

Lá pelas tantas o deputado depoente, instado pela senadora Simone Tebet (MDB-MT), revelou, sem conter as lágrimas, o nome do principal vilão. Tratava-se do deputado Ricardo Barros (PP-PR), pule de dez nas apostas dos presentes e de grande parte da audiência do novelão. A senadora amealhou as glórias de ter sido a ‘indutora’ da confissão, concedeu entrevista à Globonews e o escambau. Outra que quer palanque. Vencida na última eleição para a presidência do Senado, deve estar se esforçando para conseguir destaque junto àquela turma que anda procurando, como agulha em palheiro, um nome para representar a ‘terceira via’ e acabar com a ‘polarização’ que se desenha para 2022.

Aguardemos os acontecimentos, pois os representantes do governo prometeram em nome de Deus ‘ não deixar barato’, como blasfemou Ônix Lorenzoni na noite da última quarta feira (23) quando acusou de caluniadores os irmãos Miranda, os mais novos mártires da sanha bolsonarista. Essa novela, pelos seus desdobramentos, ainda vira série da Netflix.  Sugestões para o título?

 

Crédito da Foto: AG Senado

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