Cuba dos meus amores

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Por Adriana do Amaral

A #pandemia chegou a Cuba, mas a ameaça mesmo é humana e vem de longe

Nunca escrevi sobre a minha viagem para #Cuba, mas acho que vivemos o momento certo para eu contar um pouco do que vi, vivi e trouxe comigo da ilha. Isso porque o país está sendo exposto atualmente. Sobrevivendo à #pandemia à própria sorte, resistindo ao embargo econômico e sendo ameaçada politicamente.

Existem várias Cubas no imaginário popular. A comunista e a revolucionária, no bom e pior sentido. Uma Cuba soberana que é atingida novamente pelos interesses do capital externo enquanto a população sobrevive e tenta resistir à Covid-19. Um país que tem a melhor saúde pública do mundo, a partir da medicina própria, que desenvolveu a sua vacina e a atenção médica de qualidade, mas não tem insumos para aplicá-las.

Não era Cuba libre, mas Piña Colada

Embarquei num dos primeiro voos autorizados para Cuba no ano de 1989. Fretado, com poucos passageiros, inclusive alguns jornalistas como eu. Todos em férias.

Fazia muito frio na capital paulista. Acompanhada de três amigas, viajamos no voo noturno, imersas na aventura de conhecer a ilha proibida. Doze horas de viagem, sem nenhum luxo a bordo.

Ao desembarcarmos no Aeroporto Internacional José Marti, a orientação era não olhar nos olhos e falar o menos possível para os homens da imigração. Seria perigoso. Tínhamos de ser discretas. É claro, bateu uma insegurança, vivenciada novamente em 2019, ao desembarcar em Israel. Afinal, o medo reside no desconhecido, não é mesmo?

Havana

Que surpresa. Parece que havia feito uma viagem ao tempo. Lá fora parecia que o mundo havia parado. Dentro do hotel, também. Chico Buarque cantava nas rádios com a mesma frequência dos cantores bregas brasileiros.

Pelas ruas de Cuba eu vivi o passado e o futuro pós revolucionário. A arquitetura do lugar, os carros da década de 1950.

Em todos os cantos vivenciamos a cultura e a trajetória política. Como eu procurei Fidel Castro pelas ruas, sem encontrar… Mas a imagem de Che Guevara estava preservada como grande herói nacional.

Na capital da ilha eu mantinha os olhos atentos a tudo e todos. A sorveteria gigantesca em praça pública, os centros culturais diurnos, os espetáculos noturnos: de dia, manifestações culturais públicas e gratuitas, à noite ballet e dança para turista ver.

Estrangeiros que residiam no local ao mesmo tempo revelaram a alegria e agruras do lugar. Todos muito satisfeitos, porém críticos. Era impressionante quando diziam que médicos e executivos não podiam recebê-los em casa por falta de espaço ou mantimentos, mas evidenciavam as suas competências comparando aos talentos de seus países.

Tivemos o privilégio de contar com uma guia local, que “contrabandeamos” para dentro do nosso hotel e passou alguns dias com a gente. Secretária executiva trilíngue, competentíssima, mas que dividia uma casa quarto e sala com a mãe, irmão e filho. Relatou-nos como viviam a escassez, mas nunca reclamou. Pelo contrário, orgulhava-se das conquistas de povo liberto.

Graças a ela vivemos a Cuba que poucos turistas viram, então: a festa local, os pescadores na praia, o bar frequentado apenas por moradores e tanto mais. Com ela, também podíamos andar nos taxis destinados aos não turistas, quando tive a oportunidade de conversar com trabalhadores.

Descobri Hemingway em Cuba. Sentei no el malecon, o paredão que protege a cidade do mar em Havana. Pelas ruas um novo modo de vida era revelado…

Da capital pegamos o avião local rumo a duas cidades locais. Uma aeronave comercial, estatal, que mais parecia um teco-teco e iria despedaçar pelo caminho. Os comandantes nos tranquilizavam dizendo que os assentos podiam estar quebrados, mas que a viagem seria segura.

Em Varadero fomos recebidos com honra. A recepção remetia ao seriado Ilha da Fantasia. Lá, convivi com iguanas gigantes, caranguejos soltos na praia, luaus e mergulho (confesso que não tive coragem). Descobri o sabor da Piña Colada, aquela surpreendente bebida feita de rum, coco e abacaxi. Não sou de beber, mas confesso que não resisti.

Em Cayo Largo tive a exata dimensão de estar num paraíso. Uma ilha dentro da ilha. Mesmo vivendo no Brasil, com suas praia magnificas, nada se compara aos azuis do céu e mar e o por do sol noturno. Foi ali que eu comi lagosta pela primeira vez na vida.

A viagem foi longo e deu tempo para voltar e aproveitar Havana, quando intensifiquei as conversas com os moradores. As crianças, principalmente, muito receptivas.

Cada canto da capital cubana contava uma história, em cada conversa um testemunho. A maioria das pessoas que encontrei não esconderam as dificuldades do dia a dia, sobretudo em conseguir suprimentos e bens de consumo, mas quanto orgulho tinham das próprias jornadas.

Principalmente da educação cubana, onde todas as crianças frequentam a escola, uniformizadas e com material escolar. A medicina era outro orgulho nacional e um dos motivos da nossa ida à Cuba, buscar tratamento para vitiligo.

Só lamento um passeio que não aconteceu. Exatamente a ida para o campus da cidade universitária, por uma limitação da agenda nossa guia. Ela teve de escolher entre a visita e a consulta médica para uma de nós.

Deixei Cuba com uma certeza: a comida era ruim. No Brasil descobri o motivo. Na verdade, estava vivendo as primeiras semanas de gestação, do meu primeiro filho, em Cuba. Eram os primeiros enjoos da maternidade.

Cuba nunca saiu da minha mente. Aquelas experiências estão vivas em mim. Lamento não ter escrito um diário de viagem, na época.

No Brasil, tive a oportunidade de conversar com vários médicos que vieram, ao longo da década de 1990, estudar ou através de intercâmbio de colaboração. Aqui, as histórias eram outras, reflexo do choque cultural, mas sempre com o orgulho da origem e do que foi conquistado pelo povo cubano.

Cuba de Fidel, Cuba de Raul, Cuba de Boavista Social Club, Cuba de Karen, nossa guia.

Ameaças sem fim

Hoje, os moradores de Cuba vivem o drama de viver numa ilha que o mundo virou às costas. Na segunda e terça-feira (12 e 13), protestos pró e contra (em menor número) denunciaram o caos na ilha. Há muitos interesses escusos, ideologias contraditórias, mas não será o capitalismo a salvação de Cuba, mas sim o respeito pela história revolucionária do seu povo que, com um pouco mais de respeito e apoio internacional teria muito a oferecer ao mundo.

#EliminaElBloqueio #CubaNãoEstasSola

Nota da Autora:

Cuba foi a minha primeira viagem internacional, numa época que viajar começou a ser democratizada, no Brasil. Antes, apenas os muito ricos tinham o privilégio de um passaporte.

Eu acredito na revolução cubana e por isso que decidi escrever este relato. É preciso contar as boas histórias da ilha para preservar o presente que nasceu num sonho de liberdade e que tem de ser aprimorado e perpetuado.

 

 

 

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