Construir Resistência
Fieis

Como uma igreja explora seus fiéis

Por Patrícia Melo

 

Tempos atrás, tive uma funcionária que, numa segunda-feira, chegou para trabalhar sem os óculos que habitualmente usava.

Como eu jamais a vira sem eles, perguntei o que havia ocorrido, e ela me contou que os havia doado para a igreja evangélica que frequentava, numa ação que ela descreveu como sendo uma prova de fogo da sua fé, o momento em que o fiel era motivado a entregar tudo de valor que possuía para contribuir com uma das obras da igreja.

Quando perguntei sobre a falta que fariam seus óculos, ela rebateu que em eventos semelhantes, fiéis doavam terrenos, carros e até mesmo as casas em que viviam.

Não vejo muita diferença entre a exploração que ela sofreu e os golpes de pirâmides financeiras que são denunciados aqui e ali.

A Teologia da Prosperidade que está na base dessas igrejas faz o fiel acreditar fervorosamente nas conquistas que seu investimento pode proporcionar. Doar bens, economias ou o dinheiro que seria usado para comprar alimentos ou pagar o aluguel é “semear a prosperidade”. Os pastores garantem: os frutos virão como retribuição divina.

Fora da igreja, golpistas da mesma laia têm que prestar contas quando suas promessas não se realizam. Por que então a sociedade é tão tolerante com pastores e igrejas desonestos?

Na época do ocorrido, meados década de 90, a igreja católica perdia cerca de 600 mil fiéis por ano para as igrejas evangélicas.

Hoje as diversas denominações evangélicas agregam 31% da população brasileira. O Brasil é o país onde há o maior crescimento da população evangélica do mundo.

Claro que há muitas denominações evangélicas idôneas. Mas a exploração que sofreu minha antiga funcionária está longe de ser um caso isolado. É muita gente sendo enganada para que a sociedade simplesmente feche os olhos para este tipo de falcatrua só porque ela acontece em espaços “sagrados”.

Li nesta semana o livro “Os bastidores do Reino”, de Mário Justino. Nele, o autor dá seu testemunho sobre os onze anos em que trabalhou na Igreja Universal, primeiro como obreiro e depois como pastor. É chocante ver o percurso de um adolescente cheio de fé, que é tragado, explorado, moído e cuspido pela igreja de Edir Macedo, da maneira mais desumana e abjeta que se pode imaginar.

Mário Justino escancara o sistema de exploração dos fiéis, mostrando como Macedo conseguiu criar uma máquina eficientíssima de lhes arrancar dinheiro, como os pastores são preparados para esta missão, e como são premiados ou punidos, de acordo com suas performances.

Mostra ainda o cinismo, a falta de compaixão por parte dos dirigentes da igreja, que vivem no luxo e desprezam seus seguidores.

Claro que o assunto não é novidade. Mas ver o esquema por dentro é realmente um soco no estômago.

“Nos bastidores do Reino” foi lançado em 1995. Antes de sua publicação – lemos no posfácio da atual edição: “um advogado chamado Glauco Schmiegelow visitou várias vezes a editora, onde, primeiro, quis comprar os direitos do livro (para engavetar). Recusada a proposta pelo autor e pela editora, ofereceu R$ 1 milhão de dólares (quase R$ 6 milhões, hoje) para o livro não ser publicado e assim permanecer até o autor morrer, uma vez que era portador de doença, segundo ele mesmo, “incurável”. A editora recusou mais uma vez a proposta, denunciou o fato e Schmiegelow, ouvido pelos jornais, confirmou a oferta, mas afirmando que a fizera “em caráter pessoal”, sem envolvimento da “igreja”. Depois, disse ter sido “enganado”, pois haviam lhe oferecido R$ 50 mil para ele “fazer o serviço” e não teriam honrado o combinado.”

O livro foi proibido 22 dias após sua publicação e só foi liberado dois anos depois. Vendeu seis mil cópias e agora a editora Geração o traz de volta.

O jornalista Luiz Fernando Emediato vai transformá-lo em filme, a ser dirigido por José Eduardo Belmonte, com Mateus Nachtergale no papel de Edir Macedo.

Que o sucesso do relançamento do livro e o filme nos tragam a urgência de discutir com profundidade essa temática!

 

Patrícia Melo é escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica

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