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Ciro saiu do PDS, mas o PDS nunca saiu dele

Por Fernando Castilho

Quando Ciro Gomes convidou Gregório Duvivier para um debate em seu canal, qualquer um que acompanha minimamente o destemperado candidato já poderia prever o que iria acontecer.

Ciro é oriundo do PDS, a antiga Arena, o partido que deu sustentação à ditadura militar, utilizado apenas para dar aos olhos do mundo e de brasileiros incautos, a ilusão de democracia comandada por um regime cruel e sangrento.

Ao ter a ideia do debate Ciro deve ter pensado que Duvivier seria mais um a ser jantado.

A expressão vem sendo usada por admiradores sempre que ele utiliza de seu estilo autoritário para tentar anular ou desqualificar o outro, numa evidente faceta fascistóide que carrega desde sempre.

Mas o coronel não costuma jantar quem o bajula, como é o caso do ator Pedro Cardoso que, no mesmo canal, Ciro Games, só lhe rendeu elogios, merecendo o tempo que quisesse para se expressar.

Duvivier o tempo todo se queixava de que Ciro não o deixava falar, ao que espertamente o cearense, que não nasceu no Ceará, prometia que lhe daria voz. E não dava.

O coronel tinha fome de janta, já tinha até colocado seu babador, mas de repente imaginou que o debate também serviria bem para dar um up em sua campanha estacionada nos 8 ou 9%, afinal, seria visto por muitos milhares de espectadores (ao escrever este texto, o canal já tinha 750 mil visualizações!), entre eles, muitos petistas e muitos “nem nem”, admiradores de Duvivier.

Por isso, passou a desfilar um rosário de ataques a Lula, a maioria eivados de injúrias, calúnias e difamações.

Lula até agora tem se mantido com foco de sua candidatura, com proposições para restaurar o que foi subtraído do país em termos de civilização e economia, mas também não se furtando às críticas contra Bolsonaro, o verdadeiro inimigo da democracia e do povo brasileiro, aquele de fato precisa ser combatido. É improvável que acione o tagarela na justiça.

Talvez Lula ainda alimente uma esperança, ainda que tênue, de poder contar com Ciro no segundo turno, já que parece impossível um apoio no primeiro.

Mas o que é de fato muito estranho é um candidato que está em terceiro lugar nas pesquisas, lutando para se classificar para a segunda volta, atacar o candidato mais bem colocado. Seu foco deveria ser o capitão, até porque seria mais fácil. Ele deseja (exige?) um debate com o ex-presidente, e não com o capitão, a quem seria muito mais fácil vencer, caso este comparecesse.

Incompreensível também, se considerarmos o coronel um candidato de esquerda, não se unir a Lula neste momento para juntos, derrotarem a extrema-direita.

A conclusão é que Ciro Gomes, na realidade, pretende duas coisas:

1 – derrotar Lula porque gostaria muito de ser Lula, mas nunca poderia sê-lo. Está numa batalha pessoal na qual luta sozinho porque o ex-presidente o ignora;

2 – não está nem aí para o Brasil, sua democracia e seu povo desempregado e faminto.

Para Ciro, derrotar Bolsonaro e seu autoritarismo não está no horizonte porque ele próprio é autoritário e só está num partido tido como de esquerda por conveniência, a mesma conveniência que o fez membro de várias agremiações ao longo de 40 anos de vida pública, a começar pelo velho PDS.

Na verdade, Ciro saiu do PDS, mas o PDS nunca saiu dele.

 

Fernando Castilho é arquiteto e professor. Criador do blog Análise e Opinião

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