Construir Resistência
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Chibata

Por Virgílio Almansur

Chibata. Vara fina e flexível usada para bater em pessoas ou animais; vergasta. Por extensão, tira fina de couro usada para fustigar, para castigar; chicote. Figurativamente, castigo corporal aplicado com chibatadas; circunstância de quem se encontra oprimido, privado da sua liberdade, especialmente em sofrimento ou sob castigos: “queria sair daquela vida de chibata”.

No Rio, enquanto regionalismo, golpe violento de capoeira em que um dos pés é lançado, sendo que a mão permanece apoiada no chão e a outra perna levantada. No Nordeste é designação vulgar do órgão genital masculino; pênis; pinto.
A botânica premia planta gramínea brasileira usada como bengala. Etimologicamente, a origem da palavra chibata é indicada pelo feminino de chibato, vista também como cabritinho de seis meses e um pouco mais…
No entanto, essa palavra parece derivar do francês antigo chicot, “ponta de corda de navio” e podia servir também para corrigir condutas. Verbalmente, conjuga-se chibatar, verbo transitivo direto, que sugere “eu chibato” para dar chibatadas ou chibatar alguém.
Poyszé…
Num espaço de duas semanas vimos revelações interessantes, onde capitães do mato da era digital usaram seus chicotes. Apesar de suas vozes ecoarem para milhões, muitos milhões já os viram nesses últimos 350 anos, sob algozes a chibatarem os “não-entes”, os “não-ontológicos” ou os “não-ser” que perderam suas origens e vieram aprender uma língua estranha sob império exterior e se submeteram às vilanices, ultrajes e humilhações transitivas e intransitivas que assistimos deslocadamente.
Refiro-me a um vídeo postado no interior da Bahia. O Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou um inquérito para investigar um possível assédio eleitoral em Luis Eduardo Magalhães (o nome antecipa aquele que teve seu coração retirado para ser entregue ao pai, ACM, o “toninho malvadeza”), cidade d’oeste da Bahia.
Em um vídeo postado nas redes sociais, uma empresária do agronegócio orienta que agricultores “demitam sem dó” os funcionários que votarem em um candidato à presidência e outro ao governo do estado.
A mulher foi identificada como Roseli Vitória Martelli D’Agostini Lins. Na rede social ela se apresenta como “aposentada, conservadora, avó de dois meninos maravilhosos, entusiasta pelos rumos que o Brasil está trilhando”. Credo…
Em uma das postagens, Roseli orienta os colegas ruralistas: “Façam um levantamento. Quem for votar no Lula, demitam, e demitam sem dó, porque não é uma questão de política, é uma questão de sobrevivência. E você que trabalha com o agro e que defende o Lula, faça o favor, saia também”.
A ideologia, sempre dominante — e só sobrevive porque tal… —, dá as caras sem nenhum constrangimento. A humilhação do empregado, mesmo inaparente, quase indeterminado, encontra-se com o lombo assado, marcado sob chibatas. Nós não conseguimos nem imaginar… Mas aquele que está apanhando com toda certeza o saberá… São milhares, milhões!
“Demitir sem dó” é poderio que, contraposto àquele considerado hipossuficiente (parece tão somente avançar porque palavra bonitinha, mas ordinária), está no ordenamento. Na ponte para o futuro que ficou pretérita e ceifou trabalhadores hoje na linha miserê quase irreversível (fome, ausência de trabalho, falta de perspectivas, humilhações, desesperos, famílias decompostas em quase 7 anos) não se encontram mais resultados; desastre irrecuperável!
O lombo arruinado não é e nunca será o da madame-vovó Roseli. Ela, ao invocar necessidade, sobrevivência, entra na lógica do senhor e do escravo e parece estar em 14/05/1888 gritando como madame Fidalga da estirpe dos Junqueira de Cataguases, Leopoldina e demais pelo interior de S. Paulo: “… E eu??? E eu??? E eu??? E eu???”.
Viram? Sobrevivência! A mesma que faz hospitais, com aval do STF, impedir um piso salarial à enfermagem! Esta nesma que se imolou na pandemia quando nenhum recurso havia para sustar mortes. Deram a cara à tapa! Mas a sobrevivência da empresa fala mais alto!
Questão de sobrevivência, a madame-vovó não quer um estado de rigor social e consequente bem-estar. Ela quer o Estado pra ela! Ela quer fazer seus empréstimos a fundo perdido em banco estatal de investimento e deixar pros bisnetinhos pagarem, quem sabe em 2122 como o milhardário papagaio de zona de SC, cuja havan, diziam, ser propriedade da filha de Dilma. Lembram?
Quando recentemente vimos — e estamos vendo! — a grita das empresas que se veem premidas a buscar no aparato judiciário solução para o piso salarial homologado, elas estão dizendo que só conseguem trabalhar com escravos. Se assim não for — já que o SUS-ESTADO não é tão bonzinho às redes hospitalares particulares que se beneficiam desse mesmo Estado — o miserável nunca terá onde cair, até porque o STF não lhe dará suporte nem acolhida no tempo dos mortais…
Não bastassem as ignomínias desse ultraje, vem o tal marmiteiro que chantageia uma hipossuficiente e expõe a senhora. É, lamentavelmente, a hipossuficiente da hipossuficiência, aquela figura encontrável na periferia da periferia que muitas vez também tem outra periferia… Cassio Cenali fez self fílmica para informar que se votar no Lula, a mulher não teria mais marmita. Brincadeira ou não, pois chegou a pedir desculpas, ali o cabresto é nele e indica a subserviência ao modelito neoliberal máximo em que somente ele, empreendedor, pode dispor das marmitas e sua lavagem para o cidadão. Ele controla, faz caridade e quer reciprocidade. Não quer o Estado promovendo segurança alimentar; quer manter suas vizinhas sob condicionamento e tirar o proveito em outras instâncias…
Os dois exemplos e mais outros milhares e milhares de bem intencionados classistas, apenas acentuam o privilégio que acompanha o escravismo, que atrasa nossa soberania, aumenta as desigualdades e faz do Brasil terra sem dono (Estado) em muitos de nossos rincões.
O que veio à tona e o que vem se revelando nesse percurso de esteriotipias condensadas de 18 para cá, expressivamente em 19/20/21 e 22, é personificação máxima de um estado empático que o miliciano-mor conseguiu junto aos seus. Ele é simplesmente um porta voz macabro, armazena em seu perfil o sujeito despreparado, o pouco lido, o atrasado de carteirinha que escoiceia por qualquer motivo, o déspota idiotizado que baba na bandeira, se diz cristão e mata na próxima esquina.
Para não ficarmos tão apenas nas figuras inexpressivas, a expressiva jornalista, âncora de Roda Viva da Cultura, identificada às pautas reacionárias e co-partícipe dos movimentos de ódio ao PT, carrega uma infinidade de posturas da Casa Grande. Sua eloquência em vários momentos nesses últimos anos não podem e nem devem ser esquecidos.
Vera Magalhães é aquela mulher que quando Da. Marisa (esposa à época do Lula) morreu fez uma piada dizendo: “case-se com alguém que não vai transformar seu velório em um comício”. Todas as vezes que Dilma foi agredida ou mesmo tendo sido peça de chacota de seus pares (algumas indígnas jornalistas), Vera ficou calada. Não se preocupou com os ataques raivosos perpetrados pela extrema direita que já se coçava explicitamente nos arredores de 2013, bem como se revelava vedete acrítica do juizeco bandido, mas banditismo mesmo era o de Boulos que não deveria ter voz ou lavra na FSP.
Essa Vera não pode ser esquecida como também não devemos esquecer seu instante Dilma, Boulos ou Manuela D’Ávila sendo açoitada no Roda Viva e Lula apedrejado (“faz parte da política lançar pedras”).
Nós não devemos admitir qualquer ameaça ou humilhação a quem quer que seja. Devemos ter em mente que muitas Veras ajudaram a criar monstros efetivos e cabe-nos tão somente impedir que mais serpentes se criem e tragam infelicidade à sociedade.
As Veras não podem nem devem ser exaltadas. Nós sabemos o que elas fizeram nos verões passados. Foi muito feio!!! Não se consegue, enquanto tivermos figuras de expressão na mídia, contribuindo à desinformação, que o panteão democrático se estabeleça.
Temos que repudiar toda agressão que comporte aspectos misóginos, preconceituosos e racistas.
As naturalizações que foram se acumulando até outubro/18 têm no silêncio — e tolerância às intolerâncias — seu maior aliado. Esse silêncio compactuou às desídias infames que se apoderaram das inúmeras parcelas de nossa sociedade e geraram o terror da chibata.
Começa assim…

Foto: Arquivo pessoalVirgílio ALMANSUR é médico, advogado e escritor.

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