Construir Resistência

Matérias

Demissão de Janio de Freitas: réquiem para a Folha de S.Paulo

Por Leandro Fortes Eu estava lá, fardado, nos estertores da ditadura militar, de sentinela, próximo ao muro dos fundos de um quartel, em Barbacena, fazendo a primeira ronda da noite, metido em coturnos e numa japona de lã. Ouvia, ao longe, o som da multidão. Era 1984, o movimento das Diretas Já havia, finalmente, chegado à geleiras da Mantiqueira, mas no quartel, um internato militar, aquela realidade só existia para uns poucos que pescavam, na clandestinidade, os jornais que a soldadesca retirava do cassino dos oficiais e jogava no lixo. Eu tinha 18 anos, eu era um deles. Eu lia a coluna de Janio de Freitas. Para saber mais, usei da prerrogativa de um cargo – o de presidente da Sociedade Acadêmica da escola – para fazer assinaturas da Folha de S.Paulo e da Veja, para que todos também soubessem. O Comando do Corpo de Alunos me chamou em audiência, queriam saber as razões daquele movimento. Ainda era ditadura. As assinaturas duraram só dois meses, mas eu já estava capturado. No ano seguinte, em 1985, exilado da caserna, dos coturnos e das japonas de lã, eu estava de volta a Salvador, matriculado no curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Segui lendo Janio de Freitas, entusiasmado, como boa parte da minha geração, com o chamado Projeto Folha, tocado por jovens jornalistas comandados por um jovem herdeiro, Otávio Frias Filho, embora meu sonho de consumo não fosse a Folha, mas o Jornal do Brasil. Eu cumpria meu turno de estudante, pela manhã, e meu expediente de repórter na Tribuna da Bahia, pela tarde, e, quando anoitecia, me enfurnava na bolorenta biblioteca do velho diário soteropolitano para ler o que chamávamos de “jornais do sul” – Folha, Globo, Estadão e Jornal do Brasil, que só apareciam nas bancas da Cidade da Bahia depois das 16 horas. E lia Janio. Passadas quatro décadas, ler Janio de Freitas e, de certa forma, calibrar minha visão política pelas análises desse grande jornalista tornou-se uma rotina de aprendizado constante. Minha e de várias gerações de jornalistas. A notícia de que a Folha o demitiu, aos 90 anos, pelo motivo torpe da contabilidade, em meio a um dos muitos passaralhos que a empresa vem promovendo, me deixou triste e indignado. No fim das contas, é a revelação final do mau caratismo dessa velha imprensa – torpe, obsoleta, reacionária – que, incapaz de formar quadros de verdade nesses cursinhos de trainee que adotou como filtro de entrada, decidiu se livrar daqueles que ainda lhe conferem algum brilho, sensibilidade e profissionalismo. É a vitória da mediocridade sobre a sabedoria. Leandro Fortes é  jornalista, escritor e professor.

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Semana de cine-debates sobre os 30 anos do massacre do Carandiru

No dia 02/10/22 completarão exatos 30 anos do Massacre do Carandiru. 111 pessoas morreram vítimas de uma intervenção violenta do Estado, 192 pessoas sofreram lesões corporais, vítimas de uma ação truculenta do Estado. De lá para cá, o encarceramento em massa segue alimentando um ciclo de violência sem fim, o sistema prisional brasileiro já foi declarado inconstitucional pelo STF e muitos tantos outros casos de massacres fruto da violência de estado seguem acontecendo, atingindo principalmente pessoas negras. Em razão da importância de se chamar atenção, de denunciar, de refletir, de rememorar, de se colocar um basta, de se demandar a responsabilização estatal e a reparação de vitimas de tal violência, a Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB-SP, ao lado de outras Comissões da OAB/SP e inúmeras organizações da sociedade civil e coletivos organizaram uma semana de debates e filmes. Ao final, no sábado, teremos uma intervenção artística no Parque da Juventude – Dom Paulo Evaristo Arns, especialmente com o objetivo de demarcar o perímetro do pavilhão 9, zelar pelo não apagamento da história e honrar a memória das vítimas do massacre. Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”, entre os dias 03 e 08/10. Inventário Carandiru: 30 anos do Massacre. https://www.sympla.com.br/evento/inventario-do-massacre-do-carandiru/1731714   Cine-debate – Filme: “Deus e o Diabo em Cima da Muralha”: https://www.sympla.com.br/evento/filme-deus-e-o-diabo-em-cima-da-muralha/1731784 (In) Visibilidade do Sistema Carcerário: o que mudou desde o Carandiru  https://www.sympla.com.br/evento/in-visibilidade-do-sistema-carcerario-o-que-mudou-desde-o-carandiru/1731872 Cine-debate: Filme: “Bagatela”: https://www.sympla.com.br/evento/cine-debate-filme-bagatela/1731899 Aspectos contemporâneos sobre sistema prisional e violência policial-estatal https://www.sympla.com.br/evento/aspectos-contemporaneos-sobre-sistema-prisional-e-violencia-policial-estatal/1731941 Cine-debate: Filme: “Prisioneiro da Grade de Ferro”: https://www.sympla.com.br/evento/cine-debate-filme-prisioneiro-da-grade-de-ferro/1732011   Vidas interrompidas: ju0ventudes e o encarceramento em massa: https://www.sympla.com.br/evento/vidas-interrompidas-juventudes-e-o-encarceramento-em-massa/1732048 Cine-debate – Filme: “Sem Pena”: https://www.sympla.com.br/evento/cine-debate-filme-sem-pena/1732080 Justiça Restaurativa como ferramenta para a construção do futuro: https://www.sympla.com.br/evento/justica-restaurativa-como-ferramenta-para-a-construcao-do-futuro/1732960   ATENÇÃO PARA OS LOCAIS DAS ATIVIDADES: *Inventário do Massacre do Carandiru* Local: Auditório Prestes Maia (Viaduto Jacareí, 100 – Câmara Municipal de São Paulo) *Cine-debate – Filme: “Deus e o Diabo em Cima da Muralha“* Local: OAB – Rua Maria Paula, 35 – 3º andar *(In) Visibilidade do Sistema Carcerário: o que mudou desde o Carandiru?* Local: OAB – Rua Maria Paula, 35 – 3º andar *Cine-debate: Filme: “Bagatela”* Local: CDHEP – R. Luís da Fonseca Galvão, 180 – Parque Maria Helena, São Paulo – SP, 05855-300 Capão Redondo *Aspectos contemporâneos sobre sistema prisional e violência policial/estatal* Local: Memorial da Resistência de São Paulo (Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia, São Paulo – SP, 01213-010) *Cine-debate: Filme: “Prisioneiro da Grade de Ferro”* Local: Auditório Ruy Barbosa – FDUSP (Largo São Francisco, 95 – Centro, São Paulo – SP, 01005-010)  *Vidas interrompidas: juventudes e o encarceramento em massa* Local: Auditório, sala 8, do prédio de Ciências Sociais da USP – Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Butantã, São Paulo – SP, 05508-010 –*Cine-debate – Filme: “Sem Pena”* Local: Ocupação 9 de Julho (R. Álvaro de Carvalho, 427 – Bela Vista) *Justiça Restaurativa como ferramenta para a construção do futuro* Local: Memorial da Resistência de São Paulo (Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia, São Paulo – SP, 01213-010) *CARANDIRU: 30 ANOS DO MASSACRE – PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA, PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA – Apresentações artísticas* Local: ETEC de Artes (Prédio II, Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Santana, São Paulo

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Resultados da necropolítica do vivendeiro

Segundo o delinquente-mor, o cidadão precisa estar armado para se defender. E assim fomentou a resposta violenta ao entrevero. Até o fim de 2021, já havia colocado 478.135 novas armas de fogo em circulação no país. No domingo, em Bagé, no Rio Grande do Sul, um casal discutia na rua. A advogada Ana Laura Borba, de 28 anos, tentou apartar a briga. Como não obteve sucesso, entrou em casa e pegou um revólver calibre 38 para tentar amedrontar o homem descontrolado. Pois o indivíduo tomou-lhe a arma e disparou cinco vezes contra a turma do deixa disso. Um dos tiros atingiu o peito de Ana Laura, que veio a falecer. Está aí o resultado trágico da campanha de armamento do miliciano, bem comissionada pelos empresários da morte. Armas não fornecem proteção, exceto para os bandidos. O que promove a paz é educação, comida na mesa e civilidade.  

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Sobre o hino de Pindorama cantado pelo irmão Bruno Pereira

Muita gente conheceu somente agora a magnífica obra humanista de Bruno Pereira, um homem apaixonado pelas plantas, pelos bichos e pelos povos da floresta. Pena que tenha sido uma apresentação póstuma. Ainda assim, esse homem perseguido pelo ministério de Sergio Moro nos deixa uma legado fabuloso de coragem, competência e candura no desempenho de suas funções. No início da semana, surgiu no Youtube um vídeo em que Bruno aparece sentado no chão da floresta molhada, enquanto entoa Wahanararai, um cântico Kanamari, típico do ritual do Ayahuasca. Os indígenas, que não aparecem na imagem, fazem as vozes do coral. Trata-se da linda história de uma mamãe arara que chama seus filhotinhos para a entrada do ninho. É hora da refeição e ela vai alimentá-los. É, pois, uma narrativa poderosa do amor materno, de relações parentais saudáveis e da dinâmica de cooperação que marca os povos ancestrais. É educação com amorosidade, para a gente lembrar Paulo Freire. A canção faz parte de um CD chamado Nawa Waik – Musicalidade Kanamari, lançado em 2013, por ocasião do V Festival Cultural Kanamari. O encarte do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) oferece um detalhado painel de tradições e textos sobre as manifestações artísticas da etnia. Dias depois da divulgação do vídeo original, o cantor e compositor André Abujamra resolveu produzir um remix da obra e utilizá-la como fundo para um vídeo sobre Bruno Pereira, o jornalista Dom Phillips e os desafios dos povos originários da região do Javari. Ficou supimpa. Eu chorei. André escreveu o seguinte a respeito: – Eu não costumo ficar profundamente triste. Quem me conhece sabe que sou muito otimista e raramente faço a tristeza me dominar, mas hoje eu quebrei a espinha ! Geralmente eu faço música como uma oração! Quando vi o vídeo do Bruno, chorei muito e daí fiz esse remix! Meu amigo e irmão Mauro Renui fez o vídeo! Força e amor. O trabalho é comovente. Mostra o ataque brutal de garimpeiros, madeireiros e barões do agronegócio a um dos últimos paraísos do planeta. A flauta, o tambor e as cordas inspiradas compõem a atmosfera desse hino nacional nascido na mais remota ancestralidade. O vídeo exibe também imagens de outros heróis, como o companheiro Chico Mendes e a sempre amável irmã Dorothy Stang. Há muita recordação, muito sofrimento e também a voz de incentivo de alguém que jamais fugiu da luta por um mundo mais justo e melhor. Você vê e ouve aqui abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=rTmpvw-fPT0

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Rito civilizatório: a polêmica sobre lavar direito o fiofó

Os “idiotas da aldeia”, como os apelidou o filósofo e linguista Umberto Eco, seguem hostilizando e atacando Camila Gutz, a fisioterapeuta pélvica que produziu no TikTok o excelente vídeo sobre como higienizar corretamente o fiofó. A história está contada por Lorena Barros e Luccas Lucena no “Viva Bem”, hospedado no portal UOL. Reproduzo o link ao pé deste artigo. É incrível como alguns temas de higiene e saúde se mantêm como tabus e incomodam tanta gente. E um deles é justamente a questão que envolve o “cheiro de bunda” e as afecções do cu. Tenho um olfato muito apurado. Já entrevistei modelo gatérrima com cheiro de bunda. Já entrevistei deputado galã com cheiro de bunda. Já estive ao lado de artista chique com cheiro de bunda. Não é preciso ter qualquer relação íntima com uma pessoa para perceber que seu ânus não foi devidamente higienizado. Basta que se levante da cadeira, em um lugar quente, e sobe o eflúvio de fezes vaporizadas. Alguém vai dizer: “ah, mas é natural”. Sim, natural pode ser, ainda mais para europeus e descendentes com hábitos formados na Idade Média. Mas não é para povos efetivamente civilizados. Já visitei várias aldeias indígenas. Com uma delas, estive meses. Nunca senti cheiro de bunda. Por quê? Porque se lavam constantemente. E sabem fazê-lo, de forma eficaz e efetiva. Lembro de uma amiga de jornal, que passou mais de um ano a cortejar um colega do concorrente. Era lindão o sujeito. Até que saíram em uma sexta-feira. Foi programa completo. Na segunda, perguntei, obviamente curioso: “e aí, fulana?” E ela: – Muito bem vestido, ótimo, malhado, mas na hora do “vamo vê”, aquele cheirinho de cocô lá embaixo. Tirou meu tesão. O problema, em geral, está associado ao hábito de se pensar que basta lavar malemá na hora do banho. A turma do papel Neve retira um pouco e espalha o resto, como na passagem de massa corrida num canto de parede. Durante o dia, com o calor natural do corpo, a umidade e a degradação do material orgânico, surge aquela desagradável fonte de odores, capaz de tornar constrangedora uma reunião de diretoria ou uma sessão de dentista. Tudo é simples. Usou? Lava. Usa água e sabonete. Não é somente do lado de fora. É do lado de dentro também. Tem pregas. Portanto, higienize as fendas do terreno. Depois, seque. Não deixe úmido. Se adotar o costume, é rápido e eficiente. Quem pratica reduz sensivelmente a chance de sofrer com assaduras, coceiras, infecções e crises de hemorroida. E ajuda muito, também, em sua vida social, afetiva e sexual. Na Índia, as condições de saneamento básico não são as melhores, mas mesmo nos rincões, eles dão uma espécie de caneca com água para quem vai produzir o Número 2. Enfim, lavar o cu direito é respeitar o outro. É praticar a empatia. É fazer avançar o rito civilizatório. Se liga! https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/06/17/limpeza-do-anus-falar-sobre-assunto-pode-evitar-doencas-diz-medica.htm

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Mary Cassat, impressões da ternura feminista

Há 96 anos, desde Le Mesnil-Théribus, na França, ascendia à arquibancada de cima a notável pintora Mary Cassat. Aos 83 anos, deixava como legado uma formidável obra impressionista e uma formidável história de vida.Mary nasceu em Allegheny, na Pennsylvania, em uma família de classe média alta. Dessa forma, teve acesso a boa educação e, ainda jovem, pôde viajar pela Europa e visitar cidades como Londres, Berlim e Paris. Lá, aprendeu a falar Francês e Alemão, além de tomar aulas de desenho e música.Poucos anos depois, voltaria à Europa, já determinada a aprimorar suas técnicas de pintura. Sua obra logo ganhou os elogios de Edgar Degas e Camille Pissarro, que depois se tornariam seus amigos e mentores.Suas pinceladas são impressionistas, fluidas, precisas e destinadas a reconstituir as texturas, volumes e formas da ternura, especialmente ao retratar outras mulheres e os afetos entre mães e filhos. Tornar-se-ia uma das três grandes damas do Impressionismo, ao lado de Marie Bracquemond e Berthe Morisot.Agrada-me, particularmente, um óleo sobre tela de 1880, batizado de “Tea”, hoje no Museum of Fine Arts de Boston. As cores são sedutoras e dá para sentir o calor e o aroma da infusão, especialmente nas noites invernais.Curiosa, Mary adorava experimentar materiais. Não raro, reinventava suas tintas. Foi pioneira no uso de vários tipos de pigmentos metálicos.Em vida, a pintora sempre defendeu direitos iguais para homens e mulheres. Dizia que as elas podiam desenvolver, com competência, qualquer atividade, e ainda assim desfrutar das graças da maternidade. Ainda que nunca tenha se casado ou tido filhos, adorava crianças e as representava com esmero especial em suas telas.Mary também foi uma sufragista. Em 1915, contribuiu com dezoito trabalhos para uma exposição de apoio ao movimento, organizada por Louisine Havemeyer, destacada feminista de sua época. Esse posicionamento político gerou pesadas críticas familiares, como de sua cunhada Eugenie Carter Cassatt, uma mulher de hábitos conservadores. Como resposta, Mary vendeu antecipadamente seu valioso patrimônio de obras, antes destinado a seus herdeiros. Fez bem!

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Um cara bacanudo para ser nosso adversário na direita

  Na década de 1980, muitas das tardes transcorriam mornas nas escadarias que bordavam a Fefeleche. Numa delas, alguém, que já sumiu da memória, sentenciou:   – Voltaire, está aí o cara que eu gostaria de ver na trincheira deles.   Ainda precisei estudar um pouco para entender do que se tratava. Eu era novato. O filosofante era veterano.   Lembrei-me desse episódio hoje, quando se completam 244 anos da partida do pensador francês (1694 – 1778).   As ideias de Voltaire estão na base do Liberalismo, ainda que racionalista e iluminista.   Penso que o distinto cidadão entrega mais ênfase à liberdade do que à igualdade ou à fraternidade, e assim define sua visão de mundo. Muito do que formulou veio de John Locke, o cara do empirismo e do individualismo liberal.   Voltaire tinha esse saudável respeito pela ciência, curtia as descobertas de Newton e zombava dos dogmas importados da Teologia. Era mais ou menos do lado de lá, mas não navegava nas águas turvas do negacionismo.   Em seu tempo, obviamente, era um rebelde. Lutava pelas liberdades civis, descia a lenha no absolutismo, criticava a interferência da Igreja em questões de governo e, de forma geral, inspirou gente que faria a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos.   Como um cara do lado de lá, defendia o livre comércio e rejeitava o controle do estado na economia. Numa época de reis autoritários, talvez fosse até um pensamento progressista. Vale lembrar que, nos EUA, por exemplo, “liberal” é alguém à esquerda do espectro político.   As melhores coisas de Voltaire, no entanto, aprendi lendo – estupefato – o Cândido, uma sátira saborosa publicada em 1759.   Ainda carrega o peso do terrível terremoto de Lisboa e narra as aventuras de um sujeito que perscruta o mundo, enquanto recebe de Pangloss, seu mentor, os ensinamentos do otimismo determinista de Leibniz.   Não importava a tragédia ocorrida, sempre lhe diziam: “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. É uma lição que tentam nos enfiar, ainda hoje, em diversas denominações religiosas, um otimismo de submissão e conformismo.   É bom ver como o autor expõe o patético de religiosos, pensadores, governantes e gente das forças armadas. Pela franqueza, o livro foi proibido por hostilidade intelectual, blasfêmia contra a fé e incitação à revolta.   A censura somente serviu para dar-lhe maior visibilidade. Aqui, fez a cabeça de nosso querido Machado de Assis, moldando trechos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”.   Até mesmo os corinthianos Mazzaropi e Adoniran Barbosa o ecoaram, na reinterpretação batizada de “Candinho”, de 1954, filme dirigido por Abílio Pereira de Almeida. Até Walcyr Carrasco, em “Eta, Mundo Bom!”, bebeu nesta fonte.   Enfim, se houvesse uma direita civilizada – e ela hoje inexiste – seria representada pelo espírito justo e rebelde de Voltaire.   Dele, fica a maior lição. Não, este não é o melhor mundo possível. E a solução está posta: “devemos cultivar nosso jardim”.

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Era só o capitalismo: e você achou que seu rosto era mais feio e mais velho

Então, acontece com quase todo mundo. Você se olha no espelho e considera que está “ok”. Na hora da selfie ou da live, no entanto, assusta-se com a feiura e com as rugas e traços de expressão. Nos últimos anos, nos Estados Unidos, aumentou de 13% para 55% a parcela dos que procuraram um cirurgião plástico para melhorar a imagem diante do celular. Pouco antes da pandemia, 72% dos membros da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva reportaram ver pacientes procurando procedimentos cosméticos para “melhorar a selfie”. Na verdade, o problema maior é o sistema ótico das lentes dos celulares, impreciso e defeituoso, em parte para baratear o preço dos aparelhos. As fotos próximas, em especial, deformam brutalmente o rosto. A 40 centímetros, uma selfie ou imagem de transmissão de vídeo pode aumentar a base do nariz em 30%, rebaixar partes da face mais distantes do foco central e realizar, para fins de compensação de luz, um “sharpen”, com gama e contraste exacerbados. O resultado é como olhar para uma paisagem de dunas no fim de tarde. Tudo fica exposto em volume sombreado. O rosto acaba desengonçado, exposto com olheiras, pés de galinha e profundos bigodes chineses. Não quer dizer que você seja um broto belezura, mas o celular efetivamente desarruma seus traços faciais. Para reduzir o dano, é preciso posicionar a câmera mais longe, a metros de você. Sempre fica melhor. Confira. A outra solução é constituir uma fonte de luz mais extensa e harmônica, que ilumine por igual o semblante. Dessa forma, a câmera não precisará realizar suas ginásticas de captação e uniformização frankenstein. Como o capitalismo sempre ganha, mesmo com os próprios erros, os ring lights viraram febre no mundo inteiro, e figuram entre os dez produtos mais vendidos nos mercados digitais. Você pode vê-los em lojas de shoppings, em merchandising televisivo e nos anúncios que pipocam nas suas redes sociais. O sistema, pois, gera um problema para vender a solução e lucrar ainda mais. Tem do grandão, que parece um bambolê em volta do celular, mas tem também dos que se assemelham a braceletes presos na ponta do aparelho. Na verdade, alguns são bem caros. E alguns se revelam ineficazes para o propósito. E é assim que ficamos sempre mais infelizes, mais tensos e mais ansiosos. E é por meio desses truques que aumenta o número de bilionários em um mundo assolado pela fome.

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Ciro Gomes como ícone de arrogância e baixeza moral

  Ciro Gomes é um seguidor ruim de Protágoras, o sofista. O grego sentenciou: “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.   Na visão do homem de Pinda, “Ciro é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.   Parece, pois ter-se educado no tratado de erística de Schopenhauer, aquele adorado por Olavo de Carvalho, cujo objetivo é fornecer meios para se “ganhar qualquer discussão, mesmo sem ter razão”.   O ex-militante do PDS, partido que sucedeu a Arena, partido da Ditadura Militar, mostrou seus explosivos dons de argumentação belicosa no encontro virtual com o humorista Gregorio Duvivier.   Primeiramente, vale destacar que não se promoveu um debate de verdade, mas uma espécie de second react ou um monólogo com coadjuvante.   Ciro monopolizou a palavra e interrompeu o convidado sempre que este tentava concluir um raciocínio. Esse tipo de interdição do discurso alheio é típico das personalidades autoritárias, que procuram calar no vozeirão inflamado o interlocutor divergente.   Como sempre, Ciro mistura dados, confunde informações e as deforma até que caibam em seus conceitos pré-estabelecidos e nos padrões da autopropaganda. Foi o que fez para sustentar sua tese de que Bolsonaro teve 70% dos votos na eleição de 2018.   Advertido sobre a incorreção, adulterou o enunciado, restringindo sua observação ao Rio de Janeiro. Afinal, Ciro nunca pode admitir o erro.   O candidato do PDT afirmou ainda que a votação expressiva de Bolsonaro se devia exclusivamente à rejeição ao PT e a Lula. Esqueceu-se de mencionar a imensa aprovação do ex-presidente ao fim do segundo mandato e o sucesso de suas políticas de desenvolvimento econômico e inclusão social. Ciro atribui, desonestamente, a Lula a degradação resultante do movimento do golpe, iniciado ainda em 2014.   Sem qualquer registro das falas do adversário, Ciro acusou Duvivier de ser racista, com base nas críticas deste às ideias e práticas do Cabo Daciolo.   Trata-se obviamente de um crime de Ciro Gomes, ao praticar calúnia, conforme estabelece o artigo 138 do Código Penal, que renderia, no regime de normalidade jurídica, multa e pena de detenção de seis meses a dois anos.   O mesmo vale para os graves insultos de Ciro Gomes a Lula, que chamou de “ignorante” e “corrupto”, fazendo coro com as piores turbas do bolsonarismo fascista. O gritalhão insiste da tese, compartilhada pelo capitão, de que o metalúrgico não é inocente, mesmo com a extinção dos processos viciados constituídos por Dallagnol e Moro.   Mitômano, Ciro Gomes, arrogou-se o salvador do Plano Real, o único a ter um projeto para o país e o derradeiro brasileiro vivo com condições morais de exercer a presidência.   O candidato que foi curtir luxos europeus, no segundo turno do pleito de 2018, berra agora que vai vencer a eleição e crucifica seu inimigo “baixinho”, como representante de uma suposta esquerda caviar que nada sabe do povo brasileiro.   Se fosse realmente honesto, Ciro reconheceria os avanços obtidos na Era Lula, como o aumento real do salário mínimo, o aquecimento da economia, a expansão das universidades, o aumento da capacidade de produção de energia, a erradicação da fome e o fortalecimento do SUS.   Prefere, no entanto, desconsiderar a realidade e exaltar suas supostas façanhas, como os 116 dias tumultuados no Ministério da Fazenda que ele valoriza como quatro anos de incríveis proezas, em ufanismo constrangedor.   O que resta do debate é a certeza de que Ciro Gomes não tem estrutura moral e emocional para reger o país, especialmente pelo hábito deletério de moldar os fatos a seus propósitos e à satisfação de sua alucinação narcísica.   O que se pode elogiar do encontro é a paciência estoica de Gregório Duvivier, que, como muitos de nós, viu do outro lado apenas uma pessoa “desagradável”. Que o humorista tenha recuperado a paz de espírito ao colocar a filha para dormir.

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Na estrada com Lucélia Santos, querida aniversariante

  Ocorreu há 36 anos. Varamos dia e noite na estrada, eu e meus irmãos de vida Humberto Scavinsky e Juraci de Souza. O objetivo era cerrar fileiras com o povo ocupante da Fazenda Annoni, em Sarandi, no interior do Rio Grande do Sul.   O que acontecia ali era, na prática, a organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, hoje o mais importante coletivo popular de nosso país.   Vale contar um tantinho… Depois da estruturação do famoso acampamento da Encruzilhada Natalino, obra constituída com forte apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da igreja católica, decidiu-se pela ocupação de terras ociosas da região.   E tudo começa na madrugada de 29 de Outubro de 1985, quando agricultores de 33 cidades do Alto Uruguai e Missões, em mais de 150 ônibus e caminhões, começam a se aglutinar nas beiradas da RS 324, entre Passo Fundo e Ronda Alta.   O passo seguinte é ocupar a fazenda Annoni, desapropriada em 1972, largada ao tempo, no aguardo de um arranjo burocrático entre o executivo e o judiciário. Eram 9 mil hectares improdutivos e sete mil bocas famintas, com braços dispostos ao trabalho duro.   Ali, começou a saga. No ano seguinte, em Outubro de 1986, teve início o assentamento provisório. Logo, a polícia cercou a área, ameaçando desalojar as famílias. Muita gente foi para lá, tributar apoio aos trabalhadores, entre eles, o companheiro Jair Meneguelli.   Pois, também participamos! Era manhãzinha enevoada e fria. No bosque, diante da fogueira, tomamos café e chimarrão com aquela gente boa de resenha. O pão com manteiga forrou o estômago.   Mais tarde, naquele dia, haveria um ato religioso ecumênico, com procissão pela terra em processo de plantio. O líder local, no entanto, Josino Rodrigues, havia sido preso. Soubemos que, na cadeia da cidade, sofria tremendamente com a gastrite.   Quem soube disso também foi a dupla Lucélia Santos e Paulo Betti, que acabara de chegar ao assentamento.   Bem, vale dizer que Lucélia é de Santo André, no ABC paulista, nascida em 20 de maio de 1957 (agora com 65 anos), filha do operário Maurílio Simões dos Santos. Adquiriu, desde cedo, consciência política e social.   Na época, eu era repórter de Veja, embora estivesse lá como militante. Contei ao Paulo e a Lucélia o que se passava. Ela surtou, um surto do bem. “Não, de jeito nenhum, isso não pode ficar assim”, sentenciou. “Vamos para lá agora mesmo”.   Ela seguiu numa caminhonete que logo levantou poeira no estradão. Segui atrás, numa Kombi, com o Paulo. No centro de Sarandi, ela comprou vários litros de leite para o líder adoentado.   Dei carteirada de jornalista, mas o delegado não quis falar comigo. Por uma janelinha lateral, então, ouvi o escrivão adverti-lo: “Doutor, e agora o que fazemos, pois está vindo aí a Sinhá Moça?”   Eu ri. Era a personagem que Lucélia interpretava numa novela da Rede Globo de Televisão. A autoridade, então, definiu: “não entra mais ninguém, porque isso aqui não é bagunça; só vai entrar a Sinhá Moça”.   Ela foi para a cela e tentou consolar e animar o companheiro detido. Nisso, soubemos que a procissão ia ter início. Retornamos ao assentamento. Nossa companheira atriz permaneceu na cidade, articulando-se com advogados, fazendo ligações para promotores, juízes e gente da imprensa.   Lembro que seguíamos em oração por um campo inclinado, e o vento da tarde, ondeava o trigo, conferindo-lhe o desenho cinético das ondas marinhas. De repente, um estrondo, um buzinaço. Do lugar onde o sol começava a se deitar, um caminhão despontou, trazendo Lucélia e o líder, agora liberto, pronto a participar da cerimônia.   Foi das cenas mais belas da vida. E, não raro, entrego-me ao pranto lembrando desses momentos. Em minutos, todos se juntaram na procissão, canto pungente e uníssono. Era possível sentir a energia no ar, a força da comunhão, o perfume doce da esperança.   Aquele dia terminou assim, com vitória. No dia seguinte, nos despedimos do povo. Acenamos para Marli, Josino e Rose, entre outros. Ficaram para trás, a fim de fazer história.   No ano seguinte, em um protesto próximo da BR-326, na mesma Sarandi, um caminhão guiado por um fascista projetou-se contra os sem terra, que faziam uma manifestação pela reforma agrária.   Resultado: 14 agricultores feridos e três mortos. Tombaram Lari, de 23 anos; Vitalino, de 32; e a brava Rose, na época com 33 anos e mãe de três filhos.   A companheira deixou um bebê de um ano e meio, Marcos Tiaraju, cujo nome era homenagem ao líder indígena resistente das Missões.   O menino foi bem criado. Aos 19 anos, foi estudar Medicina. Onde? Em Cuba! Formou-se em 2012, ano em que foi aprovado no Revalida. No ano seguinte, apresentou-se ao MST para atuar no atendimento aos sem terra. Depois, tornou-se também supervisor acadêmico do programa Mais Médicos.   Lucélia Santos seguiu fazendo sucesso, literalmente mudando o mundo, viajando para espalhar a palavra de solidariedade, amorosidade e justiça social. Ainda viveríamos experiência semelhante em outro episódio, aquele de Xapuri, no Acre, terra de Chico Mendes. Mas a narrativa deste “causo” fica para outro artigo.

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Rolar para cima