Construir Resistência

Cartinha do Papai Noel

Por Carlos Monteiro

Querido #PapaiNoel ou #PaiNatal em terras lusas,

espero que esteja tudo bem aí na Lapônia. Se mantenha agasalhado porque a #H3N2 anda solta pelas bandas de cá.

Espero que os duendes tenham se vacinado também, assim como o senhor e que as renas continuem consumindo ração sem agrotóxicos e não transgênicas, veganas que são.

Fui um bom menino durante todo ano; me vacinei, apoiei o distanciamento social, não fui negacionista, é óbvio, não fiz malcriação nem, muito menos, duvidei da ciência.

Passei 2021 me indignando com tantos absurdos a que diariamente fomos bombardeados.

Descalabros, leviandades, tristezas, quanta insensatez.

Foi um ano duro, difícil, de incertezas e mazelas. Superamos esses traumas imaginando um 2022 melhor, ou não… não tenho tanta certeza assim.

Gostaria de, humildemente, fazer um pedido, um grandioso presente para humanidade, não para mim ou tão somente para mim, mas para o planeta de uma forma geral, nas gerações vindouras, nas palavras do porvir.

Sei que as renas vão ficar um tanto quanto chateadas comigo, não pela realização do pedido, isso não, muito pelo contrário, mas pelo peso da carga que terão de tracionar no trenó.

Creio que os duendes haverão de se esforçar para abastecer seu carro-comando, aliás, andam adornando veículos comerciais, com esfuziantes lâmpadas coloridas de led, promovendo carreatas pelas cidades em favor de um tal “Natal de luz”; na prática é só mais uma ação de marketing de guerrilha, merchandising de ponto de venda ou coisa que o valha.

Tudo tem piorado desde que mudaram a cor original de suas vestes.

Meu bom velhinho, seria pedir muito que nos trouxesse, em seu saco de alegrias, para as meias surradas espalhadas por toda parte, com fé e esperança, mais que presentes.

Que distribuísse um verdadeiro novo amanhecer, onde todos aqueles que passam fome sejam saciados pela máxima “dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede”.

Onde os que buscam trabalho tenham, efetivamente, empregos dignos e com remuneração justa.

Para aqueles que não têm um teto, encontrem morada firme, tijolo por tijolo num desenho mágico, tal qual idealizaram em seus mais perfeitos sonhos.

Se não for abusar muito da sua generosidade, peço que afaste os nefastos preconceitos homofóbicos, xenófobos, sexistas, racistas, machistas, aporofóbicos, gerontofóbicos e tantos outros que circulam pela face da Terra.

Peço que traga felicidade plena a todos os homens de boa vontade, mas, principalmente, aos de má vontade; creia, estes últimos precisam bem mais.

Às criancinhas porque delas é o Reino dos Céus.

Às mulheres tão massacradas por injustas práticas ancestrais descabidas…

Caríssimo, espero que seja possível atender a todos os meus pedidos, incutindo no universo um pensamento coletivo Junguiano, uma simples pergunta diante de cada ato antes que ele aconteça: “eu gostaria que fizessem isso comigo?”.

Se a resposta for negativa, semeie a esperança do “não fazer”.

A sementeira é facultativa; a colheita é obrigatória.

Minha meia está, desde já, colocada não na lareira capitalista, mas na janela existencial.

Se eu não estiver acordado durante sua passagem, me perdoe a falta de atenção, ando muito cansado, mas a fé não há de falhar.

Feliz Natal!

Carlos Monteiro é jornalista e fotógrafo

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