Construir Resistência
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Breve análise sobre o fenômeno Olavo de Carvalho

Por Daniel da Costa

O fenômeno Olavo de Carvalho tem certas características muito próprias. A primeira delas é o seu caráter protagonista e individual: seu projeto precisa do indivíduo vivo Olavo de Carvalho para se manter e se expressar.

O olavismo precisa do Olavo vivo para se manter! Os livros do Olavo são meras peças de reprodução do seu esquema mental básico com fins de auferir lucros, dinheiro: um meio de vida do astrólogo frustrado. Mas, do ponto de vista intelectual, o projeto de poder de Olavo é vazio. Por isso a necessidade da força, da repressão, da desclassificação moral do seu crítico, da tortura e da morte do oponente.

Os textos do Olavo, segundo seu autor vivo, expressam uma suposta teoria geral sobre a realidade. Queiramos ou não, sua loucura tem algum método e é preciso, se se quiser acompanhar Olavo na construção de sua pseudo teoria, manter-se subserviente, sem crítica, do começo ao fim: é uma grande crença imposta só custo do “sem sentido”, o que precisa da manutenção de uma ignorância subserviente do leitor para que se mantenha.

Isso é notório em suas lives, em que os aloprados que o seguem ficam calados quando ele fala, e quando o fazem é apenas para referendá-lo: há sempre o temor, por parte de todos eles, que nunca saberão ou dominarão a teoria toda (o segredo do mestre, como nas seitas gnósticas), de que alguma afirmação soará comunista. Ora, Olavo, com sua grosseria humilhante, não perdoava.

Quem dá ouvido ao Olavo vivo não precisa ler os textos dele, basta apenas pagar seus cursos, ouvi-lo e guardar expressões gerais enraizadas nas emoções. E, na maior parte, quem dá ouvido ao Olavo vivo não gosta de ler, ato que pressupõe capacidade racional e de organização do pensamento. (Vejam o perfil intelectual de olavistas como Weintraub, Sérgio Camargo, Ernesto Araújo, Ricardo Vélez etc.)

Uma parcela pequena dos que gostam de ler, e dão ouvidos ao Olavo, o fazem por questões de afinidade mais profundas do que pela expressão coerente do seu pensamento: conheço pessoas com formação acadêmica, mestrado e doutorado, que dão valor ao Olavo, mas não sabem como conciliar o valor que dão a sua crença de que a terra é plana, por exemplo. Mas aqui não há necessidade de coerência, os elos são mais viscerais e irracionais, fundados na teoria geral da conspiração internacional comunista. (O olavismo é a refutação cabal de toda bobagem racionalista.)

Quem pensa e lê, não perde tempo com os textos de Olavo, pois sabe que ali não há nada para se aproveitar. Portanto, o olavismo morre junto com Olavo, assim como o fascismo morre junto com o líder fascista que o expressa.

Olavo pertence à tradição dos autodidatas brasileiros, que achavam que eram filósofos e escreviam puerilidades pedantes como se tivessem descoberto a roda. Fenômeno muito comum desde o fim do século xix no Brasil, movimentado em geral por bacharéis em direito. (Olavo não possui o quarto ano primário completo!) Como aqueles, Olavo escreve bobagens como se tivesse descoberto a roda. O comum entre eles: um pessoal muito rancoroso para com a organização acadêmica que aos poucos foi se estabelecendo sem dar ouvidos as sua bobagens, depois que a sociedade brasileira começou a dar forma institucional a sua inteligência, ligada à produção intelectual europeia. Gente icapaz e indisposta de entrar em sintonia crítica com a linha principal de desenvolvimento intelectual e civilizacional, à qual só restava uma atitude de constante revanchismo e rancor para com a universidade e sua produção acadêmica.

Creio que com o advento da internet, aloprados como Olavo de Carvalho, ainda de certa forma ligados à tradição intelectual que negam, serão raros. O tipo reacionário de Olavo precisa se vincular à crítica cultural e intelectual escrita, e isso exige alguma leitura, mesmo equivocada, como a que Olavo fez, algum esforço intelectual.

A realidade atual do tal conservadorismo, mantida pelos capitalistas e o rentismo, quer resultados mais rápidos de controle social, e seu lema é o conformismo social burro ao preço do uso do Estado como máquina persecutória. Assim, será difícil surgir outro Olavo. Na medida em que a ação reacionária das forças retrógradas se tornará mais truculenta e arbitrária, e muito menos ligada à tradição intelectual, e mesmo independente dela, e mesmo, no limite, em vista de sua plena negação: pensar leva tempo, e não há para essa gente do dinheiro tempo a perder, pois, como disse Jefferson, tempo é dinheiro. E o capitalismo liberalismo é uma força anti civilizatória.

A verdadeira reserva intelectual e civilizacional é a esquerda que carrega e mantém. E o trabalho pedagógico hercúleo e recorrente das forças progressistas é manter o vinculo intelectual com a principal linha de desenvolvimento civilizatório.

Mesmo a teoria marxista continua em linha, a sua maneira crítica, com a tradição contratualista liberal. E essa reserva intelectual da esquerda, ligada ao desenvolvimento civilizatório, se vincula à promoção e fortalecimento de um modelo de democracia inclusiva e participativa, formal não liberal, com instituições públicas vigentes sob o índice do controle popular. O que é a superação da alienação liberal capitalista.

Nessa realidade cada vez mais civilizada, democrática, cada vez mais, também, na medida em que a civilização avança, não haverá espaços para Olavos de Carvalho.

Daniel da Costa

Daniel da Costa é teólogo, doutor em filosofia e músico profissional

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