Construir Resistência
Bolsonaro

Bolsonaro sai fortalecido espiritualmente da Paulista, até para ser preso

Por Moisés Mendes no Brasil 247

“Faltaram vigor político e uma palavra de ordem na aglomeração da extrema direita”

Duas conclusões elementares sobre a aglomeração golpista e religiosa em São Paulo. Bolsonaro se fortaleceu espiritualmente para enfrentar a prisão. E líderes que pareciam vacilantes se habilitaram como herdeiros do espólio do sujeito. O resto vale pouco.

Vale quase nada, por exemplo, a especulação de que a manifestação, com público muito aquém do esperado, possa ter o poder de provocar reações radicais se Bolsonaro for preso. Que tipo de reação?

Um levante? Badernas? Mais uma invasão de Brasília? A “destruição” dos que prenderem Bolsonaro, como blefou Silas Malafia no discurso com ataques a Alexandre de Moraes?

Uma revolta com o apoio de Braga Netto e Augusto Heleno, que já contam com celas em reforma à espera do tenente e dos generais no QG do Exército em Brasília? A disseminação do terror nas cidades por grupos de CACs e milicianos?

Alguém imagina que, a partir da demonstração de força da fé na Paulista, seja possível ver Eduardo Bolsonaro rearticulando a extrema direita, mesmo sabendo que ele preferiu, ao invés de apoiar o pai em São Paulo, participar de um evento do fascismo em Washington? Imaginam uma cruzada religiosa liderada por Malafaia?

A aglomeração teve algumas utilidades, mas nenhuma com promessa de efeitos drásticos. Uma utilidade é a definição dos políticos que vão disputar a herança deixada por Bolsonaro.

Correram riscos e mostraram a cara Tarcísio de Freitas (com um discurso frouxo) e Romeu Zema e, num segundo time, Jorginho Mello e Ronaldo Caiado. Estão com alvará para levar o bolsonarismo adiante. E Bolsonaro passa a ser um santinho do pau oco.

Os pretendentes ao que ele deixa para 2026 estiveram no trio na avenida como crocodilos dentro de um tanque, no qual entraram querendo ou meio sem querer (alguns foram empurrados) e do qual não conseguirão sair.

A briga agora é pela herança de Bolsonaro, porque o inelegível não tem mais poder militar, não tem Paulo Guedes, Augusto Aras, Mauro Cid, Anderson Torres, não pode comprar o centrão e, depois da eleição municipal, talvez nem Valdemar Costa Neto e partido tenha mais.

Bolsonaro é uma entidade gasosa, quase um espírito da extrema direita, e essa passa a ser a sua função. Os que foram à Paulista e subiram no trio elétrico não estavam pensando em salvá-lo, mas em mostrar fidelidade ao santo e em fidelizar a base que ele deixa.

A guerra santa agora é de novo a dos costumes contra os demônios, e não a da possibilidade já sepultada de um golpe com suporte militar.

Prevalecem a pregação moralista e anticomunista e os ataques ao Supremo, com ameaças de amordaçamento do Judiciário por deliberações do Congresso.

Bolsonaro saiu da Paulista certo de que mantém em alerta grupos que vão lutar pelo que defende nas redes sociais, nas igrejas e nas eleições municipais.

Mas é claro que ele esperava mais gente e também um grito de guerra por parte dos oradores, que não aconteceu. Nem ele mesmo se preparou, por mediocridade, para oferecer o que poderia ser uma palavra de ordem.

Agora, é manter as engrenagens de líderes regionais e de tios e tias do zap, as rezadoras que seguem Michelle e os chefes paroquiais de direita que se transformaram em extremistas irreversíveis.

A fé é o sentimento que fica da aglomeração, que não transmitiu o vigor político esperado, mas cumpriu a tarefa de pelo menos expressar proteção espiritual ao líder.

Não há como imaginar que os efeitos da Paulista, em que todos os oradores deram um tom bíblico aos discursos, possam impedir que as investigações sigam em frente, possivelmente com novas informações devastadoras.

E que em algum momento Bolsonaro seja denunciado, processado, julgado, condenado e preso, mas com o Deus de Michelle e Malafaia no coração.

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Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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