Bibi e o Hamas, mais unidos do que nunca

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

Por Mauro Nadvorny

 

Mais uma vez a violência explodiu em Israel. Desta vez o conflito começou em Jerusalém e arrastou o resto do país e Gaza com ele. O que aconteceu agora, diferente das outras vezes é que estivemos muito próximos de ter um governo sem o Likud e seus aliados religiosos.

Os problemas com Gaza são conhecidos. O Hamas governa a região e diferentemente da Autoridade Palestina que governa a Cisjordânia, não aceita a existência do Estado de Israel e se compromete com a sua destruição para a criação do Estado da Palestina.

A cada par de meses o Hamas, ou a Jihad Islâmica, lançam esporadicamente foguetes contra Israel. De tempos em tempos a coisa sai do controle e temos um conflito de maiores proporções, como em 2014.

O ano passado tivemos o verão dos balões incendiários jogados contra Israel, antes disso, as manifestações diárias na linha de fronteira com dezenas de palestinos mortos. A crise com Gaza é constante e a fronteira abre e fecha a todo momento. Israel mantém o território como uma grande prisão a céu aberto.

Israel até agora tinha evitado uma escalada maior de violência, mesmo diante de disparos de foguetes por parte do Hamas ou seus aliados. As respostas aos disparos eram pontuais contra postos de observação e alvos sem grande importância. De repente tudo mudou. Estamos vendo o desenrolar de um novo conflito de grandes proporções.

Para se compreender como chegamos a este ponto é preciso voltar um pouco no tempo. Israel depois de 4 eleições em 2 anos, não consegue formar um governo estável. A proporção de forças de direita e esquerda não permitem. A direita tem mais votos, mas não se acertam entre eles. Bibi criou tantos desafetos que eles, junto com a esquerda, acabam formando um bloco que não permite a Bibi constituir um governo.

Desta vez, ele bem que tentou, mas foi incapaz de juntar uma maioria de pelo menos 61 apoiadores. Precisava incluir um partido de extrema direita radical e obter o apoio de um partido árabe para chegar a 61 mandatos. Algo como tentar misturar água e óleo de soja. Não conseguiu e teve de entregar a incumbência para seu inimigo político, Yair Lapid.

São três partidos de direita que se tornaram desafetos do Likud de Bibi. O Israel Beiteinu de Avigdor Liberman com 7 mandatos, Tikvá Chadashá de Guidon Saar com 6 mandatos e o Iemina de Naftali Bennett com 7 mandatos.  Os dois primeiros prometeram aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentariam com Bibi. O terceiro prometeu aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentaria com Yair Lapid, mas que também não desejavam sentar com o Likud.

Ao receber do presidente a tarefa de tentar formar um governo, Lapid foi em busca de parceiros. Os partidos tradicionais de oposição como o Avodá e o Meretz fecharam com ele. O Kachol Lavan de Gantz também. Isarel Beiteinu e Tikvá Chadashá também se somaram. Faltava o Iemina de Bennett que foi contemplado com a indicação de se tornar Primeiro Ministro por dois anos, cedendo o lugar depois para lapid. Contudo, somados todos os mandados, Lapid chegou a 58. Faltavam pelo menos mais 3.

Começaram as tratativas com o partido Árabe Raam de Mansur Abaas que até pouco tempo fazia parte da Lista Árabe Unida, com seus 4 mandatos. Lapid tratou de aproximar Abaas de Bennett e tudo indicava que o Raam apoiaria o governo de fora em um esquema assinado entre as partes. Os cargos e ministérios já estava sendo divididos e a formação do novo governo era coisa de dias.

Enquanto isso Bibi incitava seus apoiadores a pressionarem Saar e Bennett para não aceitarem fazer parte de um governo de “esquerda”, como são chamados qualquer um que não seja do Likud. Manifestações em frente as casas dos parlamentares eleitos se tornaram uma rotina. Um deles eleito pelo Iemina cedeu e anunciou que não votaria a favor do Governo da Mudança. Ainda assim, com o apoio da Abaas era possível formar a coalizão.

O que vai acontecer a seguir pode parecer uma teoria conspiratória, mas quem conhece Benjamin Netanyahu, sabe que do que ele é capaz para se manter no poder. Bibi é conhecido como um gênio na arte da política, ótimo em prometer, péssimo em cumprir. Não é por nada que ele sobrevive há cerca de 20 anos como primeiro-ministro.

Este ano o final do Ramadan coincidiu com o Dia de Jerusalém, uma comemoração pela unidade da cidade e sua indivisibilidade. Normalmente uma festa com paradas e manifestações nacionalistas xenófobas levadas a cabo pelos partidos de extrema direita e seus apoiadores.

Pouco antes do Ramadan, jovens árabes de Jerusalém começaram a postar no Tik Tok, vídeos onde cometiam algum ato violento contra um judeu, ou grupo de judeus. Empurrões, tapas na cara, derramamento de café, tudo valia para aparecer no aplicativo e logo estes fatos começaram a esquentar os ânimos entre jovens judeus.

A festividade do Ramadan dura um mês quando os muçulmanos jejuam durante o dia. A noite uma janta comemorativa depois das orações e tudo se repete nos dias seguintes. Em Jerusalém as orações são feitas principalmente nas Mesquitas do Monte do Templo. Após a janta, as pessoas se reúnem para confraternizar e não foi diferente em Jerusalém. Porém agora, a polícia começou a intervir chegando a invadir o Monte do Templo com toda violência típica de qualquer polícia do mundo.

Ao mesmo tempo, um longo processo de desocupação de 4 casas no bairro árabe de Sheick Jarrad, em Jerusalém Oriental, chega ao final com a decisão a favor dos demandantes. Sem entrar no mérito, famílias judias moravam e tinham a propriedade das casas neste local antes de 1948. Com a guerra de Independência em 1948, elas foram expulsas e famílias árabes as ocuparam. Em 1967 Israel retoma este território e uma lei israelense passa a aceitar que judeus que possuam certificados de propriedade de terras nestes territórios, possam retomá-los. Cidadãos árabes israelenses que vivem em Israel e foram expulsos de suas casas em Yafo, Tel Aviv, Haifa etc, no mesmo período, mesmo possuindo os certificados de propriedade, não podem pedir a retomada delas.

Para colocar mais gasolina onde já havia fogo, grupos nacionalistas extremistas resolvem se manifestar em Jerusalém e o partido Kahanista monta uma barraca na rua em frente ao local do despejo eminente. Para coroar, a famosa Marcha das Bandeiras é liberada, desde que não passe pelo portão de Shchem na Cidade Velha. Esta marcha lembra em tudo a Marcha de Orange em Belfast na Irlanda, quando grupos protestantes passam por bairros católicos em pura provocação.

O tribunal israelense resolveu adiar a ação de despejo e os kahanistas foram atacados a pedradas e expulsos do local. No entanto, no Monte do Templo, no local das Mesquitas a polícia continuou agindo chegando a invadir El Aqsa atrás de manifestantes.

Tudo o que está acontecendo, tem uma ação da polícia claramente mais violenta contra os grupos de manifestantes árabes. Ela passa a agir de maneira displicente. Parece que a ordem é deixar acontecer e se envolver minimamente quando se trata de judeus contra árabes. Quando se trata do oposto, agir com todo o rigor da lei.

Então o Hamas chega para completar o quadro de violência. Intima Israel a retirar a polícia do Monte do Templo, ou aguentar as consequências. Ao final do ultimato, cumpre o que prometeu e lança a primeira saraivada de foguetes contra Israel, escalonando a violência e acendendo o pavio do conflito.

Os foguetes atirados pelo Hamas são dirigidos as cidades israelenses, ou seja, para matarem civis. Eles têm uma autonomia de quilômetros antes de caírem, não possuem um alvo fixo. O sistema de defesa israelense é capaz de barrar 90% do que é disparado. Os que passam, na maioria das vezes, caem em campos abertos, mas alguns atingem seu propósito. O disparo destes foguetes constitui crime de guerra.

Israel por sua vez também ataca cidades. Com a desculpa de que algum morador é membro do Hamas, ou simpatizante, todo o prédio onde ele reside é destruído. Antes do bombardeio os moradores são comunicados para que deixem o local. Israel já derrubou pelo menos cinco prédios altos deixando centenas de famílias desabrigadas. Isto também constitui crime de guerra.

Bibi a tudo assistia e foi premiado com sua ação belicosa. O Raam se retirou das negociações enquanto durar o conflito e agora Naftali Bennett também deixou as negociações para formação do governo e se reuniu novamente com Bibi. Por enquanto, nem Gantz e nem Saar aceitaram se juntar a ele. Tudo leva a crer que vamos ter novas eleições em novembro.

No entanto, uma outra violência eclodiu em Israel, muito mais destrutiva e nunca vista antes. Nas cidades de população mista de judeus e árabes, grupos de jovens passaram a se enfrentar diariamente. Linchamento, apedrejamento e incêndios de automóveis, casas e sinagogas acontecem sem que a polícia seja capaz de impedir. Reservistas foram convocados para tentar conter os ânimos, sem sucesso até aqui. Esta nova ferida será de difícil cicatrização.

Toda esta violência favorece diretamente a Bibi e ao Hamas. Bibi porque conseguiu impedir a formação do Governo da Mudança, e o Hamas que se destaca como o defensor de Jerusalém e do Estado Palestino, enquanto a Autoridade Palestina permanece longe de intervir no conflito.

Obviamente que este artigo não tem a pretensão de explicar isoladamente tudo o que está acontecendo. É tão somente a opinião de um observador dos fatos mostrando a realidade sob a minha ótica e a minha percepção dos acontecimentos.

Toda violência atrai mais violência. Enquanto Bibi e o Hamas se deleitam em alcançar seus objetivos políticos de poder, os dois povos estão pagando a conta. A crueldade acontece de ambos os lados. Nenhum lado respeita a vida de civis.

Em 3 dias já fui 5 vezes para o abrigo quando as sirenes de aviso de ataque de mísseis tocaram. Quando ela começa a tocar, temos 1,5 minuto para nos abrigar. É o tempo para a queda do foguete. Devemos permanecer 10 minutos no abrigo para ter certeza de que é seguro sair.

Em Gaza o Hamas não construiu abrigos para a população. Eles sabem que Israel não bombardeia diretamente os civis, e as mortes acontecem como eventuais efeitos colaterais. Aparentemente, o dinheiro é investido somente na fabricação de foguetes para matarem civis do outro lado da fronteira.

Espero que esta sandice termine o quanto antes. Que Bibi não consiga formar nenhum governo, mesmo nas próximas eleições. E que o povo palestino perceba que o Hamas não está trazendo nada de bom para eles.

Somos todos seres humanos. Já foram mais de 100 mortes até agora, incluindo mulheres e crianças. Basta de violência.

Tomara possamos conviver em paz com um Estado de Israel e um Estado Palestino lado a lado em um futuro próximo.

Mauro Nadvorny é Perito em Veracidade e administrador do grupo Resistência Democrática Judaica.

Veja a matéria no site

https://mauronadvorny.com.br/bibi-e-o-hamas-mais-unidos-do-que-nunca/

Veja também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *