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Bernie Taupin e Elton John: a história e a força da verdadeira amizade

Por Walter Falceta

Dias atrás, escrevi um pequeno artigo sobre o Mile Twelve, galera jovem do bluegrass que produziu sua própria versão de “Rocket Man”, de Elton John e de seu letrista, Bernie Taupin.

Lamentavelmente, não citei o segundo. Por este motivo, recebi um telefonema de alerta do meu amigo-irmão Jura Souza. “Orra, meu, tem que citar o cara, uma participação fundamental na história do pop-rock”, disparou, com sabedoria.

Verdade, é preciso tratar da dupla, exercitar o conhecimento tentacular, aquele do polvo, em que um saber conduz a outro, na busca utópica da compreensão complexa deste mundo.

Se a ideia é saber mais sobre a dupla, sugiro que você, leitor, assista ao filme “Rocketman” um excelente musical biográfico de 2019, dirigido pelo Dexter Fletcher e escrito por Lee Hall.

Revela a vida difícil do menino Reginald Kenneth Dwight, nome verdadeiro de Elton John, numa família de classe média baixa. Ele é solitário, tímido e sofre com o desprezo de um pai ignorante e tosco.

Elton é um prodígio no piano. Sabe muito de sons, lê partituras, imagina arranjos. Mas seu problema é não ter o talento para botar letra em suas composições.

Até que, no fim da adolescência, encontra Bernie Taupin, três anos mais jovem, que logo começa a criar os versos que virarão as canções do futuro astro da música.

Taupin escreveu “Crocodile Rock”, “Tiny Dancer”, “Rocket Man”, “Candle in the Wind”, “Don’t Let the Sun Go Down on Me” e “Goodbye Yellow Brick Road”, entre outros sucessos.

Posso dizer que, em casa, ouvia-se muito Elton John, especialmente por conta da Rádio Difusora (1934 – 1981), que nos anos 1970 pertencia aos Diários Associados.

Em 1974, saímos da grande casa onde nasci e fui morar na estreitinha Rua Particular B, onde não conhecia ninguém.

Meio macambúzio na época, recuperando-me de duas fraturas na perna, a canção que mais me tocava era justamente “Goodbye Yellow Brick Road”, que tem aquela mensagem de “quero voltar para o lugar de onde vim”.

Na verdade, essa obra clássica é muito menos sobre Elton John e muito mais sobre Bernie Taupin. Não por acaso, no filme, é o personagem do segundo quem canta a primeira parte da canção.

Taupin nasceu e cresceu numa fazenda, um lugar simples, com bichos, plantas e relações humanas baseadas no respeito e na colaboração.

Naquele período dos anos 1970, vivendo entre agentes gananciosos, aduladores falsos, em festas coloridas por pílulas, pó e álcool, ele atinge o ponto de exaustão.

Quer largar a trilha da “estrada de tijolos amarelos”, referência de sucesso, badalação e grana. A expressão vem da yellow brick road, via que serve de cenário para várias passagens de “O Mágico de Oz”, de L. Frank Baum, obra que se tornou famosa pelo filme de 1939, da MGM.

Taupin quer retomar o controle da própria vida, afastar-se do fuzuê das falsidades, enquanto Elton aceita permanecer no vórtice, deprimido, insatisfeito, provando o sexo ruim e entupindo-se de todas as drogas possíveis.

O mais interessante é que Elton e Bernie permaneceram amigos em todas essas situações. Até hoje, mais de meio século depois da primeira conversa de trabalho, costumam dizer que nunca tiveram uma briga, nem mesmo uma discussão, mesmo em episódios marcados pela divergência.

Bernie realmente se afastou naquela época turbulenta, mas retornou depois, mais maduro, mais paciente e mais resiliente. E foi uma das pessoas que ajudaram Elton a recuperar o equilíbrio e a sanidade.

Enfim, tudo a ver com tudo a ver. Agora, talvez eu tenha compreendido melhor a sugestão de Jura Souza, este magnífico filho da Zona Leste remota.

Estudamos juntos, sofremos a perda do pai na mesma época, conhecemos as profundezas da noite paulistana, empreendemos aventuras (como para ver nascer o MST), produzimos algumas das primeiras campanhas do PT, cada qual compôs sua família, debatemos juntos a criação dos filhos, realizamos parcerias profissionais e vivemos na arquibancada a emoção de inúmeros jogos do nosso Corinthians.

Amparamos um ao outro nos momentos difíceis da vida. Mas o mais interessante e importante é que, em 40 anos, nunca brigamos, nunca tivemos uma discussão.

Então, para celebrar a magia e o encanto das imensas e autênticas amizades, vai no link abaixo, “Goodbye Yellow Brick Road”. Obrigadão, Bernie e Elton. É nóis!

 

 

Walter Falceta é jornalista e um dos fundadores do Coletivo Democracia Corintiana (CDC)

 

 

Goodbye Yellow Brick Road: veja abaixo:

 

https://youtu.be/RZ3Bb4UsXhU

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