Construir Resistência
Foto: Arquivo pessoal

Bastiãozinho

Por Virgilio Almansur

Sebastião era seu nome! Por volta dos 60, eu ainda muito pequeno, via aquele menino alegre, todo desengonçado, pimpando na Praça da Matriz, repleto de tampinhas no peito.

Meu pai, carregando-me pelas mãos, tornava o encontro menos ameaçador — por vezes Bastiãozinho vinha correndo em minha direção numa rapidez incomum, derrapando de lado até chegar em cima, com os braços abertos e um cheiro azedo, que contando, me vem às narinas.

O velho, 1,93m, aplacava meu medo. Dizia que o menino tinha coréia. Calado, pensava na Coreia que via num globo velho no porão de casa e depois noutro mapa no escritório de minha mãe. Mas fosse coreia, atetose ou ainda o clássico hemibalismo, Bastiãozinho me assustava.

Na morte do velho Dedini, que desceu a 13 de Maio sob a Marcha Fúnebre de Chopin, Bastiãozinho bateu continência a todos os integrantes da Banda Marcial do Corpo de Bombeiros. Um a um…

Quando ía só à Igreja de Santo Antônio na Matriz, encontrava-o na praça. Eram meus primeiros avatares, movimentos mais independentes de um garoto de dez anos mas que enfrentava quarteirões e quarteirões desde os sete. Ali na Catedral, pertinho de casa, meu interesse era conspícuo, um tanto irregular e traidor para quem seguia Lutero.

Mas a igreja tinha algo que eu não encontrava noutros lugares. Um órgão de tubos, três teclados e uma pedaleira que fora um desafio provocado por minha mãe, cuja destreza nos pés era de impressionar os olhos inquietos de seu menino sempre em êxtase quando ela concertava. Mãos e pés…

Vez ou outra subia aquelas escadarias da igreja sob tensão, olhando por sobre os ombros para não me sentir espreitado. Pareciam não ter fim. Degraus e degraus até o pórtico enorme, depois uma escada giratória até a torre. Tudo era meu. Mais o silêncio apaziguador.

Bastiãozinho parecia morar na praça e a igreja nunca me pareceu uma extensão para ele. Certa vez, fui interrompido por Da. Beata. Veio até mim e me perguntou se Bastiãozinho viera comigo. Disse que não. Tremi… Olhei da pérgula e o vi ajoelhado sozinho naquela imensidão. Durante anos, pelo menos até meus dezessete anos, tive um espectador: era o Bastiãozinho, compungente e devoto naquela nave repleta de espaços.

Algum tempo depois, ali pelos meus catorze anos, aprendi que Bastiãozinho era papa defunto. Perguntei a meu pai o que era isso e ele me explicou que o menino frequentava o cemitério para ajudar nas exéquias. A cada enterro era dado a ele uma tampinha que se costurava como um broche à camisa já toda poída. Quanto enterro…

Meu pai deu-lhe um trench coat pesadão, de lã, para os dias de frio. Bastiãozinho o usava nas quatro estações. Disseram-me que ele só o tirava para lavar e mesmo assim ao lado do tanque de quem lhe oferecesse a gentileza. Certa vez foi a Tita, que fora minha babá, quem lhe trouxe em casa e se dispôs a encarar aquela lã infinita repleta de medalhas…

Lavado, secado e reintroduzindo as tampinhas, papai lhe disse que agora ele seria um general. Abriu duas Etubaínas e pregou  as tampinhas nas ombreiras com feltro vermelho — o que trouxe um sorriso indescritível naquele rosto que sempre fora um misto de alegria e tristeza. Era sua primeira estrela.

Continência batida foi-se pelo nosso jardim atravessando o Moraes Barros. Ficava pelas bancas da cidade atrás dos velórios estampados nos avisos fúnebres. Muitas vezes encarava dois, três enterros. E as tampinhas tomavam-lhe todo o casaco.

Bastiãozinho entrou em parafuso quando soube que a cidade teria outro cemitério. E era longe, na Vila Resende. Não era fácil atravessar a ponte sobre o rio e caminhar quadras e quadras até o outro lado da cidade, dar adeus ao defunto, ganhar uma tampinha e voltar ao centro e encarar outro enterro. Nas primeiras vezes ele conseguiu. Meu pai então adiantou-lhe mais duas Etubaínas e eis que Bastiãozinho recebeu com pompa e circunstância a segunda estrela pregada sobre feltro verde musgo nos ombros do portentoso casaco.

Tenho na lembrança aquele ponto azul escuro entre os bancos da querida igreja, do meu único ouvinte que se despedia daqueles que se despediram há tão pouco. E foi numa semana de outubro, vinte e poucos anos depois de meu último concerto, que reencontrei Bastiãozinho.

Subia a Independência atrás de um cortejo sob buzinaço trazendo minha mãe, filantropa e educadora, benemérita de quem a cidade se despedia. Ela assim o quis… Sob alegria. Bastiãozinho ofegante, suando em bicas, ainda precisava passar por outras salas. Enterros já eram a la carte e o varejo dominava. Ajudou a trazer a tampa mortuária, fez o sinal da cruz e beijou na testa minha boa mãe. Os anos lhe permitiram uma terceira tampinha, cozida sobre feltro amarelo tão reluzente que nos chamava a atenção quando o vimos encurvar-se sobre o corpo inerte da velha professora. Fez questão de levar o caixão até nosso jazigo. Despediu-se de todos e seguiu para outro evento. Outro enterro o esperava…

Uma semana depois eu voltava ao mesmo ritual. Meu velho pai não suportou a ida de minha mãe. Sessenta e cinco anos juntos não admitiria a solidão e o ciumes era incomum. Foi a seu encalço. Ambos no Maskevan, o outubro maçom.

Bastiãozinho assumiu a cerimônia, postou-se como os irmãos maçons e trazia um fitão a tiracolo; era onde ficava a espada na época da Cavalaria. Todos se despediram do Grão Mestre e Venerável — e lançaram, como o fez também Bastiãozinho, seus ramos de acácia sobre o avental do velho Lázaro.

Todo o caminho até a sepultura foi longo. Trajeto com sinuosas ladeiras entre túmulos, jazigos e lápides. O velho nem coube no caixão e a sepultura não estava preparada para recebê-lo, tão grande a urna. Perto de dez centímetros da madeira ficaram de fora. Os coveiros disseram que mesmo à noite terminariam o serviço. Todo mundo foi se despedindo. Bastiãozinho postou-se ao lado de meu pai e fez continência. Ali permaneceu… Aquele corpo empertigado, meio franzino e meio arqueado, ainda guardava os traços do menino com o mesmo casaco que o velho lhe dera.

Lá no alto, deixávamos o cemitério. Os portões se fechavam e o sol se punha. Lancei meu último olhar àquela morada. Deixava ali meus velhos que numa semana se foram. Caminhando pela lateral pude ainda ver sob uma réstia de luz, entre as grades, a silhueta de nosso menino general à espera da quarta estrela. Bastiãozinho em continência honrava suas tampinhas, quem sabe à espera da Etubaína que não sei se voltaria.

 

Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor.

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