Até quando ficaremos indiferentes à fome no mundo e no Brasil?

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

Por Beatriz Herkenhoff

É um investimento no nosso próprio eu, na capacidade de amar, na generosidade, no desprendimento e na nossa humanidade.

Durante minha infância, adolescência e juventude, as portas das casas eram abertas. Visitávamos e éramos visitados sem cerimônia, sem pedir licença. Todos nos recebiam com um sorriso largo, um coração aberto, um suco, um cafezinho ou um doce caseiro.

A insegurança da vida moderna, a derrubada das casas, a construção dos edifícios geraram um fechamento entre as pessoas. A internet deveria quebrar esse padrão e reaproximar, mas, nos acomodou no mundo virtual.

Antes da #Covid-19, as portas da minha casa estavam sempre abertas para os amigos e familiares. O #distanciamento social, imposto pela #pandemia, fechou as portas de nossas casas. Mas, não fechou as portas do nosso coração e de nossa alma.

Não bloqueou nossa capacidade de amar, ser empático, solidário e acolhedor. Principalmente diante da fome que cresceu assustadoramente.

No mundo 800 milhões passam fome, 19 milhões de brasileiros não têm o mínimo para a sua sobrevivência e no Espírito Santo são 425 mil. Por que esses números não nos afetem? Aonde foi parar a energia que nos conduzia ao encontro do outro nas casas e ruas das nossas cidades?

A fome deveria tirar nosso sono e nos incomodar profundamente

Como sair do nosso mundo e ampliar os horizontes para aqueles que precisam da partilha dos nossos dons, de cobertores para aquecer, de um prato de comida quentinho e de uma cesta básica? Meu desejo é que não sejamos cumplices de uma indiferença coletiva. Que não sejamos coniventes com a desigualdade social.

A fome nos convida a participar de ações concretas. Criar espaços de luta pela vida.

Como podemos contribuir para que o mundo se torne mais justo e igualitário? Romper as barreiras do isolamento (externas e internas) não é algo simples.

É um investimento no nosso próprio eu, na capacidade de amar, na generosidade, no desprendimento e na nossa humanidade. Também na construção de uma sociedade onde todos tenham o direito ao trabalho, à saúde, à educação, à segurança alimentar e à moradia digna.

Uma forma d’eu sair do meu mundo particular é unir-me a pessoas e grupos que estão direcionando suas ações para amenizar o sofrimento das famílias que passam fome.

Experiências riquíssimas de solidariedade estão sendo gestadas no Brasil e no Espírito Santo

A sociedade civil organizada está fazendo pequenos e grandes gestos de solidariedade. Movimentos estão unindo: igrejas, sindicatos de trabalhadores, patronais, ONG’s, associações profissionais, de moradores, de agricultores familiares, movimentos pela reforma agrária, pela moradia urbana, movimentos sociais de direitos humanos, grupos de jovens, entre outros.

Poderia relatar inúmeras vivências lindas e emocionantes que estão acontecendo, mas optei por partilhar a experiência da Campanha Paz e Pão da #ArquidiocesedeVitória, ES. Essa campanha tem me mobilizado e convidado a sair do isolamento, da indiferença e da omissão coletiva.

A #CampanhaPazePão é uma rede de ações contra a fome e pela inclusão social que começou a ser gestada há cerca de dois anos. A partir de uma realidade concreta de pobreza e fome, que crescia silenciosamente e que, com a pandemia, tornou-se um grito ensurdecedor.

A Campanha foi organizada em três eixos:

Eixo 1 – Formação e Espiritualidade – Realização de cursos para lideranças em que a questão da fome ou do empobrecimento, devem ser vistas de um ponto de vista social e histórico. Isto acontece não porque Deus quer ou porque sempre foi assim, mas como resultado de uma sociedade injusta e desumana.

Eixo 2 – Enfrentamento à Fome, Inclusão Social e Solidariedade – Visa o atendimento às necessidades imediatas de famílias e indivíduos em vista da inclusão social. Com o objetivo de que as famílias tenham renda própria e autonomia,

Eixo 3 – Incidência Política, Redes e Parcerias – Busca a articulação com o Poder Público e instituições, visando parcerias e cobrando das autoridades compromisso com a sociedade, principalmente a maioria necessitada. Reforçando a importância dos cidadãos participarem na vida política local, municipal e estadual, formando e ou fortalecendo os Conselhos Municipais de Segurança Alimentar e Nutricional, entre outros.

Três frentes que se articulam de forma coerente e complementar.

O propósito é ir além da mera doação

Quem recebe é visto como protagonista de sua própria história. Deverá ter o básico para acionar outros mecanismos que possam gerar renda própria e inserção na sociedade como cidadãos.

Em 2020, com a chegada da pandemia, lideranças organizaram uma Campanha emergencial denominada #CONDIVIDIR, levantando recursos financeiros para socorrer as famílias vulneráveis. Foram distribuídas 11.000 cestas básicas e realizado um cadastro com a inscrição de 7.000 famílias.

Desde o seu lançamento, a Campanha Paz e Pão se expande para dentro e para fora da igreja, com a adesão de diversos parceiros como: Fórum das pastorais sociais, Sindicato de bancários, de Policiais Federais, Sociedade Brasileira de Cardiologia/ES, Sociedade Capixaba de Oftalmologia, Sociedade Capixaba de Gastrologia, Sindicato do comércio atacadista – Sincades, Cooperativa Agrícola da Serra, CUT-ES, Amages, OAB/ES, Sindicato dos Serventuários da Justiça, Grupo Cerâmica pela Vida, Oficinas Paz e Pão da Área Pastoral da Serra e Fundão entre outros.

Dentro da Campanha Paz e Pão, a ação Tive Fome (acessar o site: https://www.aves.org.br/doacao/) criou um banco de dados para doadores permanentes, durante um ano, com a contribuição de R$ 100,00 ou doações com outros valores, como: R$ 50,00, R$ 30,00 etc. Pessoas também estão inovando ao pedir como presente de aniversário a doação de cestas básicas para a Campanha Paz e Pão.

Recentemente foi criada a cozinha comunitária no território do bem, coordenada por diversos movimentos sociais. Vale a pena conhecer. Emociona a energia de amor que emana naquele espaço.
Diariamente, a Pastoral do povo de rua distribui centenas de Marmitex nos municípios da Grande Vitória, além de cobertores, roupas e produtos de higiene.

O Grupo Cerâmica pela Vida tem feito, semanalmente, leilões com peças doadas por artistas do Brasil inteiro e já arrecadaram o equivalente a 1000 cestas. Além de divulgarem a campanha para todas as regiões do Brasil, chegam ao exterior.

Ao ler essa crônica, desejo que você se sinta motivado a se engajar nessa e em outras campanhas de solidariedade. E também a relatar a sua experiência.

A mídia televisiva (e outras) invade nossa intimidade com notícias tristes que sugam a energia. Que possamos invadir o mundo com notícias plenas de esperança, amor e solidariedade.

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

Veja também

A teimosia que mata burros

Por Tião Nicomedes Na Conferência da #ONU – Organização das Nações Unidas, a delegação  brasileira… A comitiva presidencial tem e teve uma

Um país dividido

Por Miriam waidenfeld Chaves Jussara cresceu com os olhos grudados na televisão. Cantava e dançava sem parar na frente da telinha para

6 respostas

    1. Verdade Desirėe, é fundamental nos comprometer divulgar ações de solidariedade e compromisso no combate à fome. Somos parte da construção de um mundo mais humano. Gratidão pelo seu feedback

    1. Gratidão Euler, o seu comentário é um estimulo para eu ir em frente. Juntos podemos fazer a diferença no combate à fome

  1. Eu tenho acompanhado essa campanha “paz e pão.
    Gosto muito da organização da mesma. Você citou os três eixos que sustentam esse projeto e o caminho é esse, eu apoio um projeto que também caminha nesse sentido,se
    tirarmos um desses eixos o sistema não funciona.
    parabéns Beatriz!

    1. Gratidão Elias, sua experiência e comentários em relação às minhas crônicas são muito enriquecedoras. Você tem razão. Não é só dar o pão. Mas estimular para que as famílias sejam protagonista de sua própria história. Para isso é imprescindível a formação de lideranças e que haja articulação com o poder público e instituições na construção de estratégias de inclusão social.

Deixe um comentário para Elias Rocha Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *