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Assassinaram o camarão

Por Luiz Eduardo Rezende

Depois de uma cansativa manhã andando de jet-ski e dançando funk numa lancha no litoral de Santa Catarina, o presidente Jair Bolsonaro sentiu fome e parou para almoçar. O cardápio do dia: camarão. Semelhante ao que o ator Wagner Moura comeu junto com um grupo de integrantes do MTST dias antes.

Educadamente, o pessoal do acampamento degustou a iguaria e ninguém teve o menor problema.

Guloso e de olho grande, Bolsonaro atacou os camarões, engoliu sem nem mastigar. Satisfeito, foi tirar uma soneca, como faz diariamente no Palácio do Planalto. Isso é que é vida boa, nenhum compromisso, um mar maravilhoso, meia dúzia de puxa-sacos para lhe fazer as vontades e ainda um almoço da melhor qualidade.

Mas nem tudo é perfeito. Às três da manhã o presidente começou a passar mal, um desconforto no abdome, segundo a nota oficial da presidência, uma dor de barriga, para ser mais simples. Reclamou tanto que os assessores resolveram levá-lo para São Paulo e interná-lo no mais sofisticado hospital da cidade.

O médico pessoal do presidente estava de férias nas Bahamas e foi chamado às pressas. Veio num avião fretado e, quando chegou, ouviu de um medroso Bolsonaro o lamento: “A coisa tá braba doutor, acho que vou morrer”. Nada disso, o médico não constatou nenhum problema grave. Era mesmo intestino preso, nada que uma boa colher de leite de magnésia não curasse.

Assim foi feito. No mesmo dia, Bolsonaro estava andando pelos corredores do hospital, fazendo política, e 24 horas depois teve alta. Em vez de pelo menos respeitar os que acreditaram na gravidade do seu estado um dia antes, viajou para o interior de Goiás para dar o pontapé inicial numa pelada promovida por uma dupla sertaneja. Não sem antes, é claro, se certificar de que no estádio havia um bom banheiro, pois ainda continuava tomando aquele laxante.

Tudo isso porque comeu camarão. Imaginem se tivesse comido lula!!!

DOLCE FAR NIENTE

Enquanto dezenas de pessoas morriam e centenas de outras ficavam desalojadas ou desabrigadas na Bahia e em Minas Gerais, o presidente Jair Bolsonaro desfrutava de uma agradável ociosidade no litoral de Santa Catarina.

Andou de lancha, pilotou moto e jet-ski e até visitou o Beto Carrero World, um grande parque de diversões, onde andou dando uns cavalos de pau nuns carros de corrida especialmente preparados para essa aventura.

Tão logo deixou o hospital, depois que ficou bom do intestino preso, Bolsonaro disse que são maldosos aqueles que o acusaram de estar de férias em Santa Catarina. Que o presidente não é lá muito afeito a trabalhar todo mundo sabe e comenta a boca pequena até no Palácio do Planalto, onde ele tem um quarto para tirar uma soneca de tarde.

Mas essa afirmação do presidente soa estranha. Senão vejamos, uma pessoa que em pleno dia útil vai para a praia se divertir, ou está desempregada, o que não é o caso dele, ou está de férias, que ele afirma não ser verdade, ou é vagabunda mesmo.

Quem marcou a terceira alternativa acertou.

MAIS UMA DERROTA

Bolsonaro não dá uma dentro. Disse que as crianças de cinco a 11 não seriam vacinadas no Brasil. O STF disse que vão. Depois afirmou que só com autorização dos pais e com receita médica. Foi desautorizado pela Anvisa, pelos governadores e prefeitos, e nos últimos dias até pelo Ministério da Saúde, onde o ministro normalmente segue tudo o que seu mestre mandar.

O fato é que, no Rio, por exemplo, a vacinação das crianças começa no próximo dia 17. As autoridades cariocas estão pouco ligando para o que o negacionista Bolsonaro pensa. Respaldados por decisão do Supremo Tribunal Federal, prefeitos e governadores vão vacinar a garotada e pronto.

O presidente, com isso, ficou com uma batata quente na mão. Mandou o Ministério da Educação determinar que as universidades federais não poderiam exigir atestados de vacinação para os alunos frequentarem as aulas. O Supremo cassou esse decreto por ser inconstitucional.

Como todos sabem, a filha de Bolsonaro, Laura, que não é vacinada, entrou de paraquedas do Colégio Militar de Brasília. Será que os colégios militares serão os únicos a não exigirem o passaporte vacinal?

E AGORA ALCKMIN?

Primeiro foi o presidente Carlos Siqueira, agora foi o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, a se declarar contra o PSB participar de uma federação com o PT e outros partidos de esquerda visando as eleições do ano que vem. PT e PSB não conseguem fechar um acordo para a entrada de Gerado Alckmin e a formação de uma chapa com o petista Lula.

O problema maior é São Paulo, onde o PT não abre mão de lançar Fernando Haddad para o governo e o PSB insiste na candidatura Márcio França. Se os dois partidos não chegarem a um acordo, Geraldo Alckmin certamente vai se filiar ao PSD de Gilberto Kassab. Mas aí abrirá um flanco no Rio de Janeiro, onde a principal liderança, o prefeito Eduardo Paes, já anunciou que seu candidato é o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, e Lula tem um compromisso com Marcelo Freixo.

Lula e Alckmin estão conduzindo pessoalmente essa negociação. Mas o PSB está fazendo jogo duro, pois sabe que Lula e o PT não podem abrir mão de um aliado tão importante na luta contra o bolsonarismo.

ALIANÇA ESDRÚXULA

Com seu candidato Guilherme Boulos num desconfortável terceiro lugar nas pesquisas para governador de São Paulo, o Psol iniciou uma negociação com o PDT, que implicaria num apoio a Ciro Gomes para a presidência da república. É o roto se apoiando no esfarrapado.

Boulos não parece ter fôlego para superar Fernando Haddad, o favorito, ou  mesmo Márcio França. E Ciro não consegue sequer alcançar os dois dígitos na corrida presidencial. Sumiu depois que foi superado pelo ex-ministro Sérgio Moro, cuja candidatura também não vingou até agora.

A aliança do Psol com o PDT é meramente eleitoreira, pois os programas, a ideologia e a forma de fazer política dos dois partidos é completamente diferente, em muitos casos até antagônica. Entre eles há muito mais divergências do que convergências.

Unir Ciro Gomes e Guilherme Boulos também parece tarefa impossível. O temperamento de ambos aponta pra um rompimento em pouco tempo. Esta é uma tentativa desesperada fadada a não vingar ou a durar apenas até os dois perderem as eleições.

Parece abraço de afogado.

NEGACIONISTA DE RAQUETE

A categoria do tenista sérvio Novak Djokovic, número um do mundo, é incontestável. A presença dele é garantia de público em qualquer torneio do mundo. Mas Nole, como é conhecido, foi proibido de jogar o Aberto da Austrália, um dos quatro Grands Slams, torneios que distribuem milhões de dólares de prêmios.

Assim como Bolsonaro, Djokovic é negacionista. Não se vacinou, mas mesmo assim embarcou para a Austrália com intenção de jogar. As autoridades australianas, no entanto, junto com os organizadores do Grande Prêmio, disseram: aqui não, aqui só joga se estiver vacinado.

Está criado o impasse. O craque e as autoridades negociam para que ele tome a vacina, faça o teste e se der negativo que participe do Grand Slam. Djokovic até agora está irredutível.

Duvido se aqui no Brasil não dariam um jeitinho para ele participar mesmo sem se vacinar. #poliica #bolsonaro #jornalismo #djokovic #guilhermeboulos

FOTOS:

Camarão, a iguaria que levou Bolsonaro a ser novamente internado; imagina se fosse lula

No Beto Carrero World, Bolsonaro brincou de piloto de prova

Ciro e Boulos: falta química (Reuters)

Djokovic: grande atleta, pequeno negacionista

 

Luiz Eduardo Rezende é jornalista com passagem por grandes jornais do Rio de Janeiro, como O Globo e O Dia. Matéria originalmente publicada no Quarentena News. 

Obs. Os textos aqui reproduzidos são de responsabilidade dos autores

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