Construir Resistência
Cid

Ainda falta o delator

Por Moisés Mendes 

Torcidas e expectativas se misturaram a previsões e adivinhações sobre o que seria a próxima etapa natural do cerco aos ajudadores de Bolsonaro.

Viriam aí as delações inevitáveis, porque o delator é uma figura obrigatória de qualquer drama político no Brasil há quase duas décadas.

Mas se quebraram todos os que anunciaram, como chute ou informação baseada em algum indício, que estávamos a caminho de uma delação importante.

Ainda não há delatores, o que sugere o contrário do que a torcida vinha gritando. Não há gente tão fraca e apressada entre eles, até agora pelo menos, ou os riscos e custos seriam maiores do que os benefícios.

O que se tem como certeza é que a resiliência dos presos ou investigados sob ameaça de prisão é maior do que a imaginada.

O Anderson Torres bochechudo que saiu da prisão frustrou a torcida por traições não só porque a delação não aconteceu.

Além de entrar e sair quieto sobre seus chefes na tentativa de golpe de 8 de janeiro, Torres ressurgiu com a cara redonda e corada.

O delegado caindo aos pedaços, magro, depressivo, com barba por fazer, como o descreviam seus visitadores, passou por harmonização antes de ser libertado.

O quase ex-delegado da Polícia Federal saiu da cadeia com uma cara melhor do que a do momento em que havia entrado, ainda delegado, há quatro meses.

O outro preso de quem esperam o fornecimento de informações decisivas para o fim de Bolsonaro, o coronel Mauro Cid, tem todos os dias um emissário do aviso de que não vai delatar.

Os outros sem relevância, os manezinhos presos, podem dedurar financiadores de ônibus e lanches, como devem ter dedurado, mas e daí?

Os financiadores identificados e aprisionados até agora são poucos mais do que manés, e os golpistas endinheirados ainda não foram alcançados.

É frustrante a expectativa criada em torno de possíveis delações. Não temos o que tivemos na CPI da Covid, quando delatores variados expuseram, com nomes, os esquemas dos vampiros civis e militares das vacinas, todos até agora intocáveis.

Roberto Jefferson, o patrono dos delatores, o decano da deduragem, sabe o que se passa. Uma delação que aponte para a família e para os militares e os milicianos que estavam no entorno pode ser mortal.

Jefferson não tinha muito a perder nem sofria grandes riscos quando deflagrou a delação do mensalão. Já os delatores da Lava-Jato falaram sob a tortura das prisões preventivas, na definição de Gilmar Mendes.

Os delatores mais recentes, dos crimes do genocídio da pandemia, atiraram em alguns coronéis avulsos, sem expressão e poder militar, calculando o perigo que corriam e expondo publicamente suas confissões.

Até Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça agindo como delator. O ex-juiz denunciou o que sabia do Bolsonaro manipulador da Polícia Federal.

O ex-patrão acusou o ex-empregado lavajatista de traíra, o inquérito foi arquivado pela Polícia Federal e delator e delatado fizeram as pazes. Hoje, não temos ainda nem mesmo um delator pela metade, como foi Sergio Moro.

Falta o ajudador do contrabando de joias, da fraude do cartão da vacina e do golpe que, por impulso cívico ou cálculo pela sobrevivência, chegue à conclusão de que vale a pena delatar.

O golpe furado teve todos os personagens possíveis. Os manés enlouquecidos, os manés profissionais, os manezões do dinheiro até agora na moita, os mandaletes operadores do caos, os militares de Bolsonaro que se acovardaram na última hora, o golpista fujão e outros coadjuvantes e figurantes.

Mas falta o delator. Podem até encontrar todas as provas do golpe e dos outros crimes do fascismo nas apreensões que vêm sendo feitas. Mas o roteiro estará incompleto sem uma delação.

O delator medroso ou destemido, o cara que abre a boca e conta os podres, dá nomes e informa ou mente sobre onde estão as provas, esse ainda não existe.

Talvez seja cedo para que o golpe nos ofereça um Roberto Jefferson, um Alberto Youssef ou um Tacla Duran.

Precisamos ter paciência. Não pode ter chegado ao fim a era das grandes delações.

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