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A volta do “justiceiro”

Por Sonia Castro Lopes

Parece que depois de muito bater cabeça as Organizações Globo já têm seu candidato à terceira via. Trata-se do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro que ontem, num espetáculo digno da mais ridícula patriotada, assumiu a candidatura ao mais alto cargo do país. Apropriando-se do símbolo pátrio – uma imensa bandeira brasileira que lhe servia de cenário – e reforçando o discurso anticorrupção, afirmou que sua filiação ao Podemos  não se tratava de um projeto pessoal, mas um projeto para o país. Um país que irá olhar para todos com “caridade”, justiça, um país sem mensalão, petrolão, rachadinhas ou orçamentos secretos.

Como diz o companheiro Roberto Sander, Moro é a “versão light e envernizada de Jair Bolsonaro.” A Rede Globo já comprou sua candidatura fechando os olhos para os crimes cometidos no julgamento e condenação do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Até admitem que houve irregularidades nos processos e que as condenações foram anuladas por problemas “técnicos”, mas nunca por questões de mérito. Para comprovar sua tese alegam que o ex-presidente teve condenação confirmada em segunda instância. A verdade é que não foram cometidas apenas irregularidades processuais. Foram cometidos crimes que levaram à prisão por quase dois anos um cidadão que só foi condenado nas jurisdições dominadas por Moro e sua turma. Nas demais, os processos foram todos arquivados por falta de provas.

Ontem (11) a Rede Globo repetiu ad nauseum o discurso do “marreco” com voz mais impostada, ainda que nem o/a melhor fonoaudiólogo/a do planeta tenha condições de  suprimir aquele sotaque extremamente desagradável que lhe é peculiar. Para o porta-voz dos interesses globais – o jornalista Merval Pereira – o ex-ministro “teve uma boa largada” na sua estréia como candidato à presidência. Desnecessário dizer que mesmo velada ou envergonhadamente a emissora vai apostar todas as fichas nele. Em sua opinião, o ex-ex (juiz e ministro) deve abocanhar muitos eleitores de Bolsonaro e talvez uma boa parcela dos que iriam votar nulo ou os que já estavam lançando olhares mais simpáticos à candidatura Lula.

Como esquecer as tramóias, narrativas e manipulação midiática das quais  o ex-juiz se utilizou para prender Lula e pavimentar a eleição de Bolsonaro que, em troca, lhe conferiu o cargo de ministro e a promessa de ingresso no Supremo Tribunal Federal? A quem Moro quer enganar? Apresenta-se como conservador nos costumes, liberal na economia, apoiador da ciência e feroz combatente da corrupção no país. Quem conhece a nossa história ou teve tempo suficiente para vivenciá-la, há de se lembrar de dois engodos que já ocuparam o Palácio do Planalto. Foram eles Jânio Quadros, o famoso vassourinha que pretendia varrer o país de toda a corrupção deixada por seu antecessor, Juscelino Kubitscheck, e Fernando Collor de Mello, o famoso caçador de marajás, alçado à condição de favorito por obra da imprensa hegemônica, a mesma que depois se esforçou para derrubá-lo.

Se a história se repetir (e ela se repete, ainda que como farsa), Moro vai ter sua candidatura bem trabalhada pela mesma mídia que o ajudou a perpetrar seus crimes e talvez consiga chegar ao segundo turno. Para que isso ocorra é preciso que o governo Bolsonaro desidrate diante da crise econômica sem precedentes, já anunciada. A candidatura de Moro por certo atrairá o apoio dos que vinham se assanhando para ocupar o espaço alternativo entre o capitão e o ex-presidente Lula. Mandetta, Leite/Dória, Pacheco, Tebet desistirão de suas candidaturas ou correrão a apoiá-lo, caso as pesquisas de intenção de voto se confirmem mais à frente.

Por enquanto são só suposições, mas pela forte presença que o juiz ocupou ontem nos espaços globais eu me arrisco a afirmar que os desesperados pela terceira via encontraram, enfim, o seu herói de capa e espada. Mais um para se acrescentar às aberrações políticas que já vimos acontecer nessa “república das bananas” em que se transformou nosso país.

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