Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

A outra*

Por  Miriam Waidenfeld Chaves

Antes de minha avó vender sua casa lá nas  bandas da Mantiqueira, resolvi fazer uma última visita à minha árvore da infância: uma mangueira que ficava bem  no meio do quintal. Do  alto de seus galhos, comi as melhores mangas espadas de toda a minha vida.

Era dali, sentada bem à esquerda, de fronte para o quintal de Maurício que eu  ficava pensando na vida. Sonhando. Queria vir para o Rio de Janeiro e nadar no mar.

Queria desbravar o mundo. Viajar. Atravessar as montanhas e enxergar um horizonte azul. Aquele, daquela linha  entre o céu e o mar.

Hoje, da minha janela, enxergo esse azul. Porém, cansada dessa paisagem, tomei uma decisão: no dia seguinte, acordei bem cedinho, peguei o carro e, sem avisar para ninguém, zarpei para Cachoeira do Alto.

Queria rever aquele meu  horizonte verde. Queria,  principalmente, subir na minha mangueira  pela última vez.

Então, depois de cinco horas de estrada, estacionei o carro, beijei minha avó e  corri para o quintal. Lá estava ela,  imponente e cheia de flores.

De imediato, duvidei das minhas habilidades de alpinista de árvore. Mas, ao olhar  para o seu tronco repleto de galhos firmes,  se espalhando pelo ar, pensei, é prá já.

Perdi o medo e em alguns minutos  já me encontrava  aboletada em seu tronco. Bem ali  onde ele começava a se ramificar feito um polvo cheio de braços.

Olhei para baixo e enxerguei Roque latindo para as galinhas. Mais para o  alto, a goiabeira de goiaba branca. A uns poucos metros, a jabuticabeira, o abacateiro e a parreira cobrindo de sombra dois bancos de madeira, onde costumava sentar com minhas primas para chupar uva.

Mas,  qual não foi a minha surpresa quando olhei para o alto da  mangueira, a fim de alcançar o meu galho preferido, aquele defronte à casa de Maurício, e percebi que já havia uma garota justo naquele lugar, chupando manga.

Parecia que eu estava sonhando.

Vestia minha bermuda e camiseta preferidas. Seu cabelo Joãozinho era o meu. E, ainda por cima, cantarolava California dreamin’, como se fosse a minha voz, um pouco distante.

A partir daí, fui invadida por um sentimento atroz que me deixou apavorada. Quase fui ao chão. Assombrada, perguntei  seu nome.

– Alice.

– Eu sou Alice!

– Alice do Amaral, como eu.

Percebendo meu espanto, continuou dizendo:

– Sei o que você está pensando. Mas, a verdade é que agora esta é a minha árvore. Desde 1967.

– Como assim?

– Você foi embora naquele ano. E se você quiser uma prova de que sei tudo sobre você, vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá dentro da casa da vovó tem uma cristaleira com uma baixela Limoges trazida de navio pelo nosso bisavô. Há também um relógio de parede em oito, em frente da escada, que de quinze em quinze minutos avisa as horas. Na estante…

– Tudo bem, mas se isso for um sonho, você é o meu sonho. Então, é natural que voce saiba tudo isso. Penso até que eu devo aceitar esse sonho, assim como devo aceitar a minha vida como ela é, emendei, interrompendo-a.

Sem escutar minhas observações, continuou:

– Na estante de seu quarto à direita estão em destaque As viagens de Gulliver, Viagem ao centro da terra e Memórias de um caçador. À esquerda, o Tesouro da Juventude, que você tanto adorava ler aqui em cima.

Sem me aguentar, por alguém possuir tanto conhecimento sobre mim, ainda fui obrigada a escutar:

– Aos 10 anos você cismou de entrar nas cavernas da Cachoeira do Papagaio, lá na serra, acreditando que chegaria ao centro da terra, lembra? Ficou perdida por umas seis horas. E quando Quinzinho te achou, você estava branca como a parede do nosso quarto.

Depois dessa, me irritei ainda mais por aquela criatura me trazer à tona   lembranças tão  bem guardadas. Quase esquecidas. E, apesar de tudo, aquele ser não desistia:

– E, então, se aventurou muito? Correu o mundo como sempre sonhou?  Você é feliz?

– Quanta pergunta! Não vai parar não?

– Tô apenas curiosa prá saber se a sua vida valeu a pena. Você que se esqueceu de nós. De seu passado cheio de planos!

– Não, minha vida não saiu como eu imaginei. Tá satisfeita, agora que você ouviu a verdade?

– Não, eu tô é com pena de você.

– Pena? E você que nem saiu de cima dessa árvore, é feliz?

Mas, aquela outra nem se deu ao trabalho de me responder. Recomeçou a  cantarolar California Dreamin’ e me ignorou solenemente. Era como se eu não estivesse ali na minha árvore.

Mas a verdade é que estávamos em 1966, eu amava The Mamas and the Papas. Queria ser hippie. Sonhava com São Francisco.  

E aquela música ecoando nos meus ouvidos, como um zumbido. E aquela outra, com sua cara amarela, suja de fiapos de manga, seus olhos grandes e debochados. Tudo foi me irritando de tal modo que meio bamba me levantei para agarrá-la e empurrá-la da árvore.

Nesse movimento, me desequilibrei e fui ao chão.

Assustada, só me lembro de dar de cara com  Fernando me socorrendo.

Ele me disse que enquanto eu dormia não parava de cantarolar California Dreamin’.

 

* Inspirado no conto “O outro”, de Jorge Luis Borges.

Miriam W. Chaves é contista e professora da UFRJ

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Matérias Relacionadas

Rolar para cima