Construir Resistência
Foto: Arquivo pessoal

A oração sobra, quando a ação é pouca e a cachaça, muita

Por Luis Otavio Barreto

Me lembro que uma das cenas mais fortes que vi, e não faz muito tempo, foi um homem muito magro, extremamente sujo, debaixo de um viaduto, no Cajú. Ele tinha consigo um saco com pelancas cruas. Eu, por um instante, quis sacar a máquina que estava na minha bolsa e fazer a foto perfeita. Eram umas quatro e pouco da tarde, luz perfeita, cena fortíssima. Não fiz.

O homem enfiou a mão na sacola, que era transparente e maior do que parecia, apanhou uma pelanca e comeu. Ele a puxava com a boca, enquanto uma mão segurava a sacola e a outra o pedaço de pelanca. Meu estômago deu um nó imediatamente. No chão havia uma garrafinha bombinha de cachaça brava. Ele mastigou, engoliu e deu uma golada na garrafa, que se abaixara pra apanhar.

Tudo isso aconteceu muito rápido. Eu tratei de seguir o meu caminho, aquela área pede atenção e movimento constantes.

Olha, eu duvido que aquele homem saiba rezar ou tenha motivos para. Pelanca, cachaça e relento não inspiram gratidão ou contrição. Aliás, frio e fome são estados que desregulam o juízo e as capacidades de um homem. No Brasil, sobretudo no Brasil que voltou ao mapa da miséria, ao mapa da fome, rezar é o luxo de quem tem o que agradecer.

O ‘simpático’ pontífice se enganou; no Brasil há muita oração e pouca ação. Decerto está aí o problema! A marvada é recurso para que o pobre se esquente no frio, já que os belíssimos santuários se ocupam de aquecer o coração de quem sabe rezar. A pinga também ajuda a fugir da desilusão de uma existência despercebida. Ignorada, pela sociedade e pela igreja. O que se faz é pouco, é quase nada. Recurso há, recurso há; os recursos terrenos, a priori, seriam mais úteis e eficazes que aqueles celestiais, anunciados dos púlpitos.

O problema do Brasil não é a cachaça e nem a escassez das orações, mas a escassez das ações e piadas, digamos, inúteis.

Quanto aos cachaceiros com recursos?! Ah, está tudo bem. Numa terra pródiga em igrejas e vultuosas doações, ah, Deus perdoa. 😉

Chico eh legal, mas bom mesmo eh o Julio Lancellotti.

“Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus e não fizer prova disso através de obras?”

Pax Tecum

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