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Petros

A importância estratégica da vitória de Petro-Francia

Gustavo Petro não se torna somente o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, mas também uma peça fundamental na balança geopolítica latino-americana, adicionando peso ao prato progressista.

Aos 62 anos, elege-se para o cargo maior da nação depois de duas tentativas frustradas. Tem uma história formidável para contar. Aos 17 anos, juntou-se ao Movimento 19 de Abril, o M-19, para lutar contra os coronéis locais, extensões tardias da elite latifundiária colonial do antigo vice-reino de Nova Granada.

Em 1985, foi preso e viveu maus bocados nas mãos de militares torturadores. Passou ainda um ano e meio trancafiado, com seus direitos desprezados pelos magistrados locais, sabujos da oligarquia dominante.

Não se abateu e seguiu sua carreira política. Elegeu-se senador e se devotou a denunciar os esquemas de corrupção dos mandatários, como aqueles liderados pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que exerceu o poder entre 2002 a 2010.

De ascendência italiana, Petro foi criado como católico e sofreu grande influência da Teologia da Libertação, particularmente dos escritos do peruano Gustavo Gutierrez, o pensador da “opção preferencial pelos pobres”. O novo presidente da Colômbia, que é formado em Economia, ganhou experiência administrativa como prefeito de Bogotá.

No comando do país, ele terá apoio da vice-presidenta Francia Márquez, uma figura forte e carismática, que arrastou para o campo da esquerda vastos setores da juventude colombiana. Aos 40 anos, tem uma incrível história de vida. Foi mineradora e empregada doméstica, antes de se formar em Direito. Como militante, tem destacada ação na causa da negritude e na defesa do Meio Ambiente, especialmente no que tange justamente à mineração.

Contam, portanto, as biografias da dupla, mas também a importância estratégica da Colômbia no continente. Tem 50 milhões de habitantes, por exemplo. Mais do que a Argentina, que chegou recentemente a 45 milhões. Aparece com o quarto PIB da América do Sul, atrás somente de Brasil, Argentina e Chile. É o único país da região com litoral no Oceano Pacífico e no Oceano Atlântico.

Vale considerar também que a Colômbia se tornou uma espécie de “puxadinho” militar dos Estados Unidos, com o acordo de cooperação militar assinado em Outubro de 2009. A desculpa foi permitir que os ianques combatessem o narcotráfico e o terrorismo internacional. Assim, o Tio Sam ganhou o direito de estabelecer em território colombiano três bases aéreas, duas navais e duas de exército. Trata-se, portanto, de um mal disfarçado quartel dos EUA utilizado no controle militar da América do Sul. A presença imperialista na Colômbia foi reforçada em 2020, com o Plano Colombia Crece.

Petro terá dificuldades em seu início de mandato, considerando-se os problemas econômicos agravados na gestão do atual presidente Iván Duque. A inflação oficial em doze meses chegou a 9,07% e o desemprego atinge 11% da população. Em 2019 e 2021, o país experimentou fortes protestos populares. Razão: 26,9% da população está abaixo da linha da pobreza. No fundo deste quarto de insatisfeitos, 7,4% se encontram na condição de miseráveis.

A proposta de Petro é mudar as bases de desenvolvimento do país, substituindo o extrativismo intensivo por uma política de desenvolvimento agrícola e industrial sustentável, pavimentada por investimentos em educação e ciência. O presidente eleito afirma que a Colômbia é uma potência mundial da vida, e tem razão. O país é um dos campeões mundiais da biodiversidade. Além disso, tem alguns dos mais antigos grupos de guardiães da natureza, os sábios nativos muiscas, quimbayas e taironas.

Seu primeiro grande embate será contra o patriarcado de tradição colonial, entranhado especialmente no centro e nordeste do país, regiões que sufragaram fortemente o nome de seu adversário, o direitista Rodolfo Hernández, uma espécie de Bolsonaro local. Petro quer uma reforma agrária e propõe também aumentar os impostos dos mais ricos, medida necessária em um país extremamente desigual.

Para garantir seu acesso à Casa de Nariño, Petro precisou vencer o tabu psicológico nacional contra a esquerda, as pressões do empresariado, a cobertura infame da grande mídia e a avalanche de fake news da campanha de Hernández, que recebeu apoio digital e financeiro de grupos conservadores norte-americanos.

Agora, precisará ter equilíbrio e pulso firme para aplicar seu plano de mudanças. Sua maior queda de braço será restabelecer relações diplomáticas e comerciais com a Venezuela de Maduro e revogar o reconhecimento colombiano da falsa gestão presidencial de Juan Guaidó.

Serão anos difíceis para o novo mandatário. Na região, como mostra o vizinho Equador, ganhar uma eleição nunca é garantia de paz, segurança e tranquilidade para governar. A vitória apenas antecede a temporada de sabotagens do grande empresariado, de lawfare e de golpes parlamentares. Que Petro seja a pedra alicerce desta mudança para todo o continente. Começamos na torcida. Em Outubro, a eleição brasileira pode lhe oferecer suporte político, refresco e inspiração.

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