Construir Resistência
final-da-copinha-2023-1-940x627

A final da Copinha e a destruição do Pacaembu

Por Simão Zygband
Palmeiras e América Mineiro disputam no Canindé, o estádio da Portuguesa, a final da Copa São Paulo, a Copinha. Uma festa no aniversário da maior cidade do país e uma das maiores do mundo, trazendo o que há de melhor no Brasil na disputa da categoria sub-20 (menores de 20 anos).
Tradicionalmente, a final da Copinha era disputada no estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, Porém, por obra das péssimas administrações de adeptos da privatização, como o ex-governador João Doria e o ex-prefeito, o finado Bruno Covas, esta festa não será realizada no equipamento público, o verdadeiro espaço do povo,  como tradicionalmente acontecia.
Ele foi vendido para a iniciativa privada pela bagatela de R$ 111 milhões (o setor imobiliário avalia que esse valor representa 20 % do que deveria ser vendido).
Esta mamata realizada por Doria e Covas, com a complacência da crônica esportiva paulista e de boa parte do eleitorado que escolheu nas urnas este tipo de gestão, explica em parte o vexame da seleção brasileira na Copa do Catar, que vê o futebol amordaçado pelos interesses empresariais e comerciais em detrimento do coletivo.
Como bem lembrou o jornalista Roberto Casseb, em artigo para o Construir Resistência, o Pacaembu, inaugurado em abril de 1940, em Estilo Art Déco, o colocou, na época, como o estádio mais moderno da América do Sul. Além do campo, tinha um complexo esportivo com piscina, quadra de Tênis e Ginásio Poliesportivo aberto gratuitamente ao público.
“Ele pertencia à Prefeitura e era gerido pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. Embaixo das arquibancadas havia um conjunto de alojamentos para atletas que vinham competir em São Paulo. Foi um dos palcos da Copa do Mundo de 1950 e abrigou milhares de jogos de todas as equipes do país. O Corinthians jogou cerca de 1700 partidas e o Palmeiras conquistou 26 títulos em seu gramado. Por lá desfilaram craques conhecidos mundialmente como Pelé, Rivelino, Ademir da Guia, Pedro Rocha, Ivair e tantos outros”.
O primeiro e único jogo que levei meu filho corintiano para assistir (para meu infortúnio, palmeirense) foi exatamente no Pacaembu em uma final da Copinha em que o Corinthians venceu o Athético Paranaense por 2×1. Aproveitei que a entrada era gratuita e o adversário do alvinegro era de fora de São Paulo – e supostamente era garantia de que o  estádio não estaria abarrotado, mas apenas lotado.
Aquilo era o máximo para a garotada, das arquibancadas e do campo, de poder estar totalmente em casa em um equipamento municipal, no estádio do povo. Agora ele não é mais.
“Além dos títulos de campeão e vice, os jovens atletas que chegassem à final da Copa São Paulo de Futebol Júnior recebiam outro prêmio: jogar a partida decisiva no Pacaembu, um sonho de infância de muitos deles. Neste ano, os assaltantes do patrimônio público paulistano roubaram dos garotos a possibilidade de conquistar aquele prêmio. Privatizado, o Pacaembú está fechado, em processo de destruição material e simbólica”, diz o jornalista Laurindo Leal Filho, ex-secretário de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo, no governo da prefeita Luiza Erundina.
Não poderia portanto, como paulistano da gema, não externar minha profunda indignação contra a absurda destruição de um patrimônio histórico da cidade, desfigurado por uma obra estúpida  realizada em decorrência de sua entrega para a iniciativa privada.
No dia 29 de janeiro do ano passado, ainda se tentou protestar contra a privatização absurda, mas já era tarde demais.
As torcidas organizadas dos principais times da capital organizaram uma manifestação em frente ao estádio, contra a destruição do Pacaembu. Estiveram lá alguns guerreiros do Coletivo Democracia Corintiana (CDC), – Corinthians, Porcomunas (Palmeiras) e Bloco Tricolor Antifa (São Paulo). O ato reuniu pouca gente, é verdade, mas gente de fibra e foi realizado no meio da pandemia, sem nenhum apoio da imprensa esportiva.
Parece que poucos se sensibilizaram com a destruição do estádio.
Negociata
Vou escrever novamente o que escrevi naquele texto por ocasião daquele protesto para que não reste a menor dúvida: a maneira como foi concessionado o estádio do Pacaembu, patrimônio do povo paulista, foi um negócio de pai para filho.
A empresa Allegra, que ganhou a concorrência em plena pandemia, quando a sociedade não teve a oportunidade sequer de se manifestar contra a negociata, queria reduzir ainda 71% do valor que teriam que pagar à Prefeitura. E ganhar de brinde a praça Charles Muller, outro bem da cidade.
A Allegra pagou R$ 111 milhões por um conjunto esportivo avaliado em cerca de R$ 900 milhões e nem este valor queria pagar. Alegou prejuízos com o negócio por causa da pandemia.
É importante retomar as discussões sobre a concessão do Pacaembu.  Ele já foi desfigurado, para nossa tristeza.
Vergonha!
Foto: Guilherme Gandolfi – ato das torcidas

Pacaembu-asfalto
Foto de Paulo Rapoport
Clique nos anúncios e interaja com eles para contribuir com o Construir Resistência. Caso possa, contribua com qualquer quantia através do pix 11 997268051 em nome de Simão Zygband
Sempre obrigado!

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Matérias Relacionadas

Rolar para cima