Construir Resistência
Foto: arquivo pessoal

A arte de se aposentar

Por Beatriz Herkenhoff

Por que é tão difícil aposentar?

Alguns adiam a aposentadoria porque o trabalho é fonte de: status, reconhecimento, exercício de dons e habilidades. Porque possibilita a partilha do afeto, a construção de vínculos de amizade, a produção intelectual, entre tantas motivações. Se param de trabalhar, fantasiam que não serão mais valorizados por sua competência e capacidade.

E esses sentimentos geram medo…

Outros não têm permissão para o descanso e para o lazer, e quando param de trabalhar sentem-se culpados; alguns adiam a aposentadoria porque nunca acham que o que ganham é suficiente.  Também aqueles que trabalham em locais com plano de carreira, vão aguardando um ano, dois, três para serem promovidos, e com isso deixam de desfrutar momentos significativos em suas vidas quando ainda têm saúde e vitalidade; alguns que vivem relações conjugais que adoecem.

Aposentar significa enfrentar questões que são amortecidas através do envolvimento com o trabalho.

Um agravante é que junto com a aposentadoria pode ocorrer a síndrome do ninho vazio, quando os filhos já não dependem dos pais, saem de casa e constroem sua própria vida. Se a mãe ou o pai depositaram excesso de afeto (ou expectativa) nos filhos, terão que lidar com duas perdas simultaneamente.

Cada qual tem suas razões e emoções para aposentar no tempo certo ou adiar essa decisão. Por isso, aposentar exige um longo processo de preparação afetiva, psíquica e emocional.

Ao decidir aposentar, torna-se necessário trabalhar nossas carências, culpas, medos, inseguranças, projeções, perdas atuais e anteriores, necessidades de aprovação entre outros aspectos. É preciso dar um salto emocional em que faço a ruptura com a necessidade de aprovação a partir do trabalho, para um reconhecimento interno, em que crio outros ciclos de relações afetivas e de trocas. Também um salto psíquico em que trabalho a culpa por dedicar um tempo maior para mim.

Quando decidi aposentar todos ficaram admirados, diziam: “você é intensa e dinâmica em seu trabalho, ama tanto o que faz, por que aposentar?” Justamente por isso, se vivi plenamente essa etapa de minha vida, posso fazer rupturas.

Se dei o melhor de mim para aqueles que amo, posso desapegar-me e deixá-los partir.

Se fui ética, comprometida e intensa na vida profissional como assistente social, como professora, na militância política e junto aos movimentos sociais posso fechar esse ciclo e construir novas alternativas. Se dividi minha energia e libido com outras demandas que vão além do trabalho, consigo fazer essa ruptura com o passado e construir um novo presente com outros significantes e significados.

Por que muitos entram em depressão quando se aposentam?  Porque não conseguem criar alternativas para ocupar o tempo de forma dinâmica e prazerosa. Gastavam entre 80 a 90% de sua energia com o trabalho. Na hora em que aposentam, o vazio é grande, ficam paralisados.

Administrar o tempo é um aprendizado permanente

O tempo dedicado ao trabalho deve vir acompanhado de tempo para: a família, os filhos, os amigos, o amor conjugal, o namoro, a cultura. Tempo para a convivência com os amigos, para o crescimento psíquico, espiritual, físico, bem como para o investimento no lazer. E isso, não pode acontecer apenas quando eu aposento. Incluir essas demandas e necessidades ao longo de minha vida, ajuda a fazer esse processo para a aposentadoria com mais suavidade.

Aposentar significa ir ao encontro do outro permanentemente. O afeto saí do espaço do trabalho e circula com mais força entre os amigos, familiares, num trabalho voluntário e na luta por um mundo mais justo e igualitário.

Um desafio nessa nova etapa é resgatar amigos do passado que foram significativos, bem como criar grupos de amigos que geram plenitude e alegria. Criar momentos de convivência e intimidade com familiares. Ter mais tempo para: o autocuidado, o autoconhecimento e a melhoria da autoestima.

Desafios que são, muitas vezes, mais difíceis de enfrentar do que as demandas do trabalho.
Para lidar com tudo isso, faço terapia. Esse diálogo com o meu inconsciente ajuda muito nos impasses que surgem no dia a dia. Também tenho um grupo de partilha da fé e da vida, que me fortalece e anima.

Após a aposentadoria passei a investir mais nos amigos, e como eles são diferentes e gostam de coisas diferentes, procuro diversificar: tenho amigos que são companheiros apenas de shows; outros são companheiros de cinema; outros de teatro e circo; alguns são amigos de viagem; outros de dança e de barzinho; outros de fé e vida. Outros de resistência e luta por um mundo melhor. Tenho amigos confidentes, que me dão colo, ouvem e acolhem o meu mundo interior e eu também sei cuidar de todos com carinho.

Com a #pandemia, tudo isso mudou

Os shows, as peças teatrais, os espetáculos circenses, as apresentações de grupos de danças, as viagens e frequência a barzinhos e cinema foram totalmente interrompidos. As celebrações familiares deixaram de acontecer. Tive que recriar espaços de alegria e prazer dentro de casa, na companhia de minha mãe, bem como através da realização de encontros online.

Continuar investindo no afeto, no amor familiar e entre amigos é um desafio cotidiano nesse período em que vivemos uma crise econômica, social, política e sanitária. Com aumento das injustiças, do desemprego, da fome e do desequilíbrio ecológico.

O tempo livre como aposentada possibilita o envolvimento em várias ações de solidariedade e resistência. Ações que fazem a diferença na vida de milhares de pessoas e nos transformam em seres humanos melhores.

Os amigos são peças fundamentais nessa experiência de não ter o trabalho como centro

Mas, cultivar a amizade dá trabalho, exige um movimento em que vou ao encontro ao invés de esperar pelo outro. É tranquilo sair de casa para trabalhar (ou trabalhar home office), mas, construir um novo jeito de ser e de estar no mundo, nem sempre é fácil.

Concluo que aposentar significa presentear-me com tempo livre para fazer o que me dá amor, prazer e alegria, para ser mais solidária, sensível e colocar-me a serviço. Tudo isso sem pressa.

Viver com intensidade, desapego, muito amor e gratuidade, com desprendimento e atenção para o outro. Significa também trabalhar nossa ansiedade e elaborar perdas afetivas.

Hoje eu administro o meu tempo com mais liberdade e flexibilidade. As palavras “pressa”, “correria”, “estou atrasada”, sumiram do meu dicionário. E essa sensação de não ser dominada pela ditadura do tempo é muito gratificante.

Você já está aposentado? Como tem sido sua experiência?

Se ainda não se aposentou, sugiro que faça esse dialogo consigo mesmo. Que mudanças precisa fazer para ter uma aposentadoria que gere qualidade de vida para você, para o outro e para o planeta?

Nota da autora:

Escrevi essa crônica quando aposentei em 2016. Decidi partilhá-la porque nem sempre é fácil tomar decisões em relação à aposentadoria e gostaria de dialogar com vocês sobre esse tema.

Beatriz Herkenhoff é doutora em serviço social pela PUC São Paulo. Professora aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo.

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