Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

A amendoeira


Por Miriam Waidenfed Chaves

 

– Pai, terminei a cobrança por hoje.

– E aquele florzinha, fez o pagamento?

– Não. Ele deu lá uma desculpa e não pagou. Não entendi nada. Ele sempre foi tão pontual.

– Amanhã tu volta lá e só entra aqui em casa com a grana na mão, disse Bezerra num tom de voz que não deixou dúvidas no filho.

Leandro desde cedo acompanhou o pai no recolhimento do cacau. Modéstia à parte, ele faz o serviço direitinho. Só que age do seu jeito. Sem violência, apenas com a sua lábia, consegue todo mês recolher a bufunfa prevista. E assim, se de início alguns comerciantes resistem, ao final, todos acabam entregando o que lhes é exigido.

No dia seguinte, logo cedinho, voltou à birosca com um discurso preparadinho para convencer Valdo. Mas qual não foi a sua surpresa ao se deparar com Teresa abrindo as portas do boteco. Seus olhos negros, de imediato, o intimidaram.

Deu bom dia, entrou, aguardou uns dez minutinhos e pediu um café, cujo gosto conhecia tão bem. Perguntou por Valdo, e aí Teresa secamente lhe respondeu que estava em casa, doente. Sabia com quem estava lidando:

– De agora em diante quem vai tocar O Amendoeira vai ser a mamãe aqui. Algum problema?

– Não, respondeu Leandro olhando de soslaio para a bunda de Teresa. Aquela  pretinha o tirava do sério desde a quarta série.

Pagou, e sem discutir foi se sentar numa mesa defronte ao bar. Sob a sombra da amendoeira começou a arquitetar a melhor resposta que daria ao pai. Não queria confusão para o lado da Teresa.

Olhou para o alto, suspirou e se viu lá nos galhos daquela árvore coalhada de amêndoas. Lembrou-se  dos seus treze anos ali em cima, escondido, observando Teresa trabalhando no bar de Genaro, seu pai. Quando ela se desvencilhava do balcão por uns instantes, corriam para trás da árvore e se beijavam afoitos como duas crianças diante de sua sobremesa predileta.

Entretanto, esse amor nascera proibido: irmãos de criação, desde cedo, Bezerra e Genaro não se bicavam e quando, mais tarde, cada um tomou o seu rumo, viraram inimigos. E se Genaro sempre se recusou a fazer os pagamentos a Bezerra, com sua morte, Valdo tornou tudo mais fácil. Sua displicência colocou O Amendoeira nas mãos do tio postiço.

Quando já se encontrava em frente à casa de D. Noca, Leandro ouviu Teresa gritando:

– Diz pro Bezerra que eu não sou o Valdo, não. E que, de agora em diante, a moleza acabou, ouviu? E tu, vê se sai da aba do teu pai.

Enquanto descia a ladeira, Leandro concluiu que depois dessa Teresa tornara-se um sonho impossível. Entretanto, seu problema agora  era outro. O que diria para seu pai?

Passou meses enganando tanto Teresa quanto o pai. Pagava de seu próprio bolso a percentagem dO Amendoeira, pois sempre se preocupou com aquela neguinha. Era doido por ela. Teresa também gostava dele, mas depois  da morte de seu pai tudo ficou muito mais complicado.

Há doze anos, numa manhã de chuva, quando a vizinhança se deparou com Genaro sob o pé da amendoeira, morto a facadas  pelo homem de confiança de Bezerra, aqueles beijos às escondidas simplesmente acabaram.

No entanto, Bezerra sempre jurou que não fora ele quem mandara matar Genaro. Não chegaria a tanto, afinal eram irmãos, costumava dizer. E, apesar de Russo ainda se encontrar na cadeia, lá no alto do morro essa dúvida até hoje persiste na mente dos moradores. E mais, é como se esse acontecido estivesse escondendo outro ainda mais remoto. Vai saber!

Porém, o importante era que Bezerra estava feliz com a pontualidade dos pagamentos, e Teresa radiante com o sucesso dO Amendoeira. Enfim, um momento de paz naquele reduto histórico do subúrbio carioca.

Leandro, entretanto, sabia que essa tranquilidade um dia iria acabar. Principalmente porque soube que o filho de Russo, um sujeito vingativo, ex-pretendente de Teresa, estava furioso com a baixa frequência de seu bar, na entrada do morro.

Estaria, junto com outros comerciantes insatisfeitos, arquitetando um plano para acabar com O Amendoeira, o novo queridinho da comunidade.

A comida saborosa, os petiscos para qualquer um lamber os beiços, a roda de samba das sextas-feiras e o sorriso franco da dona do bar passando de mesa em mesa para saudar os fregueses conquistaram todos. Nos finais de semana à tarde, a sombra da amendoeira até ficava pequena para abrigar tanto freguês do sol.

E foi justo num domingo quente de verão, ao som de Preciso me encontrar, que a inveja começou a mostrar as suas garras.

Teresa, ao ouvir que seu irmão levara uma facada, largou o caixa do bar e desceu a ladeira desesperada junto com os demais fregueses. Logo o encontraram  quase morto no Beco dos Prazeres. Os autores? Apenas suspeitas.

Dois meses depois, com Valdo já em casa, Teresa não só começou a receber ameaças em plena luz do dia, como, também teve O Amendoeira assaltado. Além do roubo em dinheiro, ainda levaram a coleção de cachaça do bar, o maior orgulho da birosca.

Até aí, para a maioria dos moradores, tudo não passava de mera coincidência. Porém, num sábado de finados, uma semana depois de se ter tornado pública a enganação de Leandro em relação ao pagamento dO Amendoeira, notícia que abalou todo o morro, os moradores do Largo da Amendoeira acordaram  com um cheiro de queimado. Pela janela enxergaram a amendoeira pegando fogo.

Com 25 metros de altura, não conseguiram destruí-la. E se Teresa “sorria para não chorar”, Leandro buscava os culpados por todos os lados. No morro, entretanto, só se ouvia dizer que Russo havia desbancado Bezerra do comando do Leão do Norte e que da cadeia dava as suas ordens para a favela.

Porém, os últimos acontecimentos geraram uma reviravolta nessa história: Bezerra, que há muito tempo não saía de casa por conta de um câncer terminal, resolveu intervir nesse imbróglio. Foi até O Amendoeira num domingo de sol escoltado por seu filho Leandro, sentou-se em uma mesa, pediu uma cerveja e chamou Teresa para conversar.

O bar lotado parou para escutar o colóquio:

– Teresa, de agora em diante tu vai poder tocar o teu bar  porque tudo já foi resolvido. E tem mais, vou te falar outra coisa que tu não vai gostar, mas é a pura verdade. E é prá todo mundo ouvir: CÊ É MINHA FILHA! MINHA FILHA! Não te contei antes por respeito ao teu pai que, como sempre afirmei, não morreu a meu mando. E você, Leandro, eu sempre soube que o dinheiro do pagamento dO Amendoeira  era teu.

Depois dessa, os fregueses em silêncio reverenciaram o seu chefe, que se levantou e foi-se embora com um Leandro estarrecido com a notícia.  Teresa, por outro lado, permaneceu sem fala, sentada e acudida pelas amigas.

No dia seguinte, Russo foi achado morto em sua cela. Seu filho um mês depois vendeu o bar e voltou para Caxias com a mãe.

Seis meses depois, junto à amendoeira carregada de amêndoas, foi festejado o casamento de Teresa e Leandro, que se tornou o novo chefe do morro. Um chefe bem diferente, é verdade: durante seis meses suspendeu o recolhimento da bufunfa para assim selar um novo recomeço no Leão do Norte.

Cabe salientar que esse final feliz só foi possível porque Bezerra em seu leito de morte resolveu zerar as suas dívidas aqui na Terra. Convocou Teresa, pediu seu perdão e, por fim revelou que Leandro era seu filho de criação. Sem herdeiros, ele e a esposa decidiram adotá-lo depois que seus pais, compadres dos Bezerra, morreram atropelados num acidente em São Gonçalo.

Quem nos dias de hoje ainda conta essa história, diz que o casório foi inesquecível. Lembram que quando Mestre Canhoto tocou em seu cavaquinho Preciso me encontrar, Teresa, Leandro e todo morro cantaram juntos: “Quero assistir ao sol nascer. Ver as águas dos rios correr. Ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer. Quero viver”.

 

Miriam W. Chaves é contista e professsora da UFRJ.

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