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O meu batismo de fogo no jornalismo

Por Simão Zygband
Aprendi a ferro e fogo o que é o jornalismo. Logo de entrada, com meus 18 anos, fui trabalhar de graça em um jornal de bairro, a Gazeta da Freguesia (isso mesmo, a Freguesia do Ó tornada famosa pela música do Gilberto Gil).
O jornal era dirigido por um sujeito bem de direita, admirador do ex-governador Paulo Maluf, de nome Valter Junio Silva, que me vendo um jovem de classe média, branco, meio hippie, meio esquerdista (sic) deve ter pensado com ele mesmo: “vou aprontar com este “trouxa”.
Mandou-me fazer uma reportagem pra lá de sacana, no apavorante bairro (na época, há mais de 40 anos atrás) do Jardim Carumbé.. Ele chegou para mim e disse: “você vai lá no Carumbé e faz uma matéria sobre o que está faltando no bairro”. Mandou que o entregador de jornais, que tinha um megafone sobre o carro, já bastante surrado, me levasse ao local.
Eu já era bocudo como sempre fui (e só me ferrei por isso e tive que maneirar) e no caminho até o Carumbé fui falando com o meu condutor, de quem fiz questão de esquecer o nome, que achava uma sacanagem ter que trabalhar de graça, pagar a passagem do meu bolso e nem ter um lanche pago pelo jornal para comer. Quem bancava todos as despesas eram meus pais. Ou seja, pagava para trabalhar.
Quando cheguei no Jardim Carumbé da época, levei um susto. Era sobre um morro de onde se avistavam outros morros, todos cobertos de barracos de madeira, de cima a baixo. Foi a primeira visão que eu, da elite paulistana, tive da miséria do povo brasileiro. Nunca tinha visto nada igual. Era impossível que seres humanos vivessem naquelas condições, ainda mais na cidade mais rica do Brasil.
É óbvio que no Jardim Carumbé faltava tudo. Não tinha nada. Não possuia calçamento, asfalto, luz nas ruas e vielas etc. Enfim, era impossível realizar a pauta proposta pelo Valter Junio Silva, que ainda tinha a manha de assinar o nome com três pontinhos no final (acho que era uma coisa da maçonaria).
No Carumbé só tinha uma escola estadual que foi para onde me dirigi para tentar ainda salvar a matéria. Ouvi o relato de um grupo de professores que saiam das aulas que era um terror lecionar ali pois eram ameaçados pelos alunos (e por isso andavam juntos, um dando carona para os outros). Os jovens os cercavam e queriam lhes agredir, possivelmente para que obtivessem melhores notas, apesar de não adentrarem sequer as classes.
Desci do Carumbé acometido pela febre. Confesso que fiquei doente com o cenário dantesco que presenciei no local naquela época. Jamais imaginaria que gente em São Paulo vivesse em tão más condições de vida, com falta de saneamento básico, água encanada, precárias em absolutamente tudo, sem nenhuma das “regalias” que a classe média paulistana possui. Não era possível que houvesse este tipo de existência na minha cidade, naquela que eu me orgulhava de ter nascido, na maior do Brasil e da América Latina. Enfim, uma megalópole. Vim ao mundo, onde só nasciam bacanas, em uma maternidade as imediações da avenida Paulista.
Entrei no carro meio cambaleante, já levemente febril, impactado com as condições de vida do Jardim Carumbé. E fui novamente relatando isso para o motorista. Quando chegamos no jornal, na avenida Santa Marina, no centro da Freguesia do Ó, o sujeito desceu do veículo e imediatamente foi relatar ao Valter Junio Silva (com 3 pontinhos no fim) tudo o que eu tinha falado de mal dele (sic).
Foi assim que eu estreiei no jornalismo. Com um sujeito me entregando para o dono do jornal, que tinha me mandado fazer uma matéria que me deixou doente.
Foi um bom batismo, que já mostrava o que viria pela frente.

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