Construir Resistência
Foto: Arquivo Pessoal

Cuba libre

Miriam Waidenfeld Chaves

 

Cuba libre foi a bebida de minha juventude nas festinhas de aniversário. Não era o chope nem a cerveja, hoje tão popular. Bebia-se uma mistura de rum com coca-cola. Uma espécie de combinação entre socialismo e capitalismo que virou moda.

E, diante de mistura tão inusitada, dizer-me fã desse cocktail me fazia sentir um tanto moderna e outro tanto rebelde. Afinal, eram os anos 1960. Tempos em que tudo estava para acontecer.

Apesar de a ditadura já ter batido em nossas portas, ainda imaginava um mundo de bolinhas amarelinhas, pois esse gelado refrescante, misturado ao som de Celly Campello, me dava a impressão de que a vida era uma eterna festa.

Entretanto, se nos anos 1970 a ditadura Médice acaba de vez com meus sonhos  juvenis,  a cuba libre, cocktail do meu coração, já trocada  pela gim tônica, outra mistura inusitada, reacende o meu coração.  Agora como Cuba livre!

Uma ilha piquititinha no Caribe, cercada por um mar tão azul celeste e às vezes tão verde esmeralda  como Creta, cuja força de Talos, seu protetor, a manteve  permanentemente longe de seus inimigos.

Sonhei muito com essa Creta do Caribe. Com essa doce ilha encapsulada. Altiva. Dona de seu próprio destino.

Aberta para o mundo em 1992, já estava eu lá percorrendo suas terras cobertas de história.  E revolução!

Assisti Fidel em discurso interminável pela TV do hotel, enfrentei fila para tomar sorvete na Heladería Coppelia, passeei pelo Malecon e voei até Cayo Largo num avião russo da Segunda Grande Guerra, adaptado para pequenos voos turísticos. Lá nadei ao lado de arraias e mergulhei de snorkey.

Fotografei carros coloridos com seus rabos de peixe e bebi vários mojitos na Bodeguita, abandonando assim de vez o gim e adotando para sempre o rum, destilado  dos meus sonhos juvenis e das minhas utopias militantes.

É vero que também testemunhei uma Cuba isolada, lutando para sobreviver à penúria dos anos 1990. Era uma Havana à míngua, da caderneta, da carona, dos apagões. E do mercado negro.

Confesso que, ali no meio daquele mar, bem no circuito dos furacões, como um ilhéu sem saída, duvidei daquela terra e dos propósitos de seu poderoso Talos.

Tal como no Retorno a Ítaca, filme de 2015, eu, em 1992, defrontei-me  com o sonho e a realidade,  a utopia e a frustração.

Mas ao retornar ao meu país, Cuba voltou a ocupar o seu lugar de destaque em meu imaginário libertário. Sua coerência e resistência frente às feras que permanentemente tentaram abocanhá-la têm a minha admiração.

Desde então, mantenho uma garrafa de Havana Club bem guardadinha em minha casa e é com um gole desse destilado que reafirmo minhas convicções. Brindo à resistência.

E hoje, mais do que nunca, saúdo a vacina cubana, Soberana, e rogo a Nossa Senhora da Caridade, padroeira de Cuba, para que ela proteja minha Creta do Caribe nesse novo momento de sua história.

 

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