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Lurian: “meu pai precisa ser estudado pela Nasa”

Por Mariana Kotscho – colunista do UOL

Lula ao lado da filha Lurian e a bisneta Ana Lua – foto de Ricardo Stuckert

 

Lurian Cordeiro Lula da Silva é jornalista, tem 48 anos, é mãe da Maria Beatriz, de 26, do João, de 17, avó da Ana Lua, de 5, e namora o advogado Danilo Segundo. Lurian é filha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. É aquela adolescente que, em 1989, foi usada de maneira sórdida pela campanha do então candidato Fernando Collor de Mello, que acusou Lula de ter sugerido que a mãe da menina fizesse um aborto. Jair Bolsonaro, no último debate presidencial, chegou a citar essa história e, naquele dia, Lurian, que conheço desde 1989, me disse: “Mari, esta campanha é muito pior do que aquela”.

Atualmente, ela mora em Aracaju (SE), onde é assessora parlamentar, mas passou a semana em São Paulo e estava com o pai no dia da eleição. Assim, pôde comemorar em família a terceira vitória do filho da dona Lindu, que dizia para ele: “Teima, meu filho, teima”.

A mãe de Lurian, Miriam, mora em São Bernardo do Campo (SP), onde ela nasceu. Ex-namorada de Lula, ela proibia que o pai se encontrasse com a filha, e Lurian só foi conhecer Lula aos 4 anos, quando a avó materna, dona Beatriz, levou-a para um encontro secreto com ele, no sindicato dos metalúrgicos do ABC: “Eu me lembro desse dia. Quando cheguei, ele estava abaixado na porta e me abraçou. Meu casaco era cheio de números, e ele começou a contar os números. Eu ria”.

Lula sempre teve muito bom humor. Quando a bisneta Ana Lua fica mordendo a pele do canto do dedo, o bisavô costuma dizer: “Oh, Ana Lua, o biso mordia muita pele do dedo e olha como ficou o dedo dele”, mostrando o mindinho faltante.

Lurian é a única mulher dos cinco filhos de Lula, que é pai também de Marcos, Fábio, Sandro e Luiz Cláudio. Na última quinta-feira, entrevistei Lurian Silva em São Paulo, numa tarde gelada e chuvosa.

MK – Quem é a Lurian hoje e quem era a Lurian em 1989?

Lurian Cordeiro Lula da Silva – Hoje sou uma mãe, avó, que trabalha com política em Sergipe, sou assessora do senador Rogério Carvalho [PT], atuo politicamente no estado. Em 1989, eu já respirava política. Me lembro de já militar desde antes, aos 12 anos, pelo meu pai na campanha para constituinte. Eu tinha muita estrutura familiar na época. Se eu não tivesse o alicerce da minha avó Beatriz [morta em 1999, aos 92 anos], que me criou, e do meu pai, com tudo o que aconteceu na campanha de 1989 eu teria me tornado uma adulta problemática. Eu tinha bons amigos, recebi acolhimento, boa estrutura da família paterna também. Eu estava com 15 anos, então não votei no meu pai em 1989. Meu primeiro voto foi em 1990, em Plínio de Arruda para governador e Suplicy para senador.

MK – Daí, em 1994, você votou no seu pai. Como é votar no próprio pai para presidente?

Lurian – Eu separo meu pai do líder, mas na hora de votar tem uma emoção, uma emoção de militante que mistura com a responsabilidade de filha e a expectativa de se vai ganhar ou não.

MK – Como você compara a campanha de agora com a de 1989?

Lurian – A deste ano foi muito pior. Em 1989, apesar de eu não votar e ser muito criança, não tinha tanto espaço para discussão política, e o debate ainda era ideológico. Agora, as pessoas se odeiam porque você argumenta, e a resposta vem com agressão. Eu convivia com pessoas que não votavam no meu pai, mas me respeitavam, isso não tem mais. Esta campanha agora foi ainda mais agressiva. Naquela época pegaram a minha mãe, uma mulher vulnerável, com frustrações. Hoje em dia, percebo isso. Nesta campanha não foi só questão pessoal de não gostar do Lula, teve uma ameaça à nossa vida. Agressões que começaram antes, quando a Marisa [mulher de Lula e madrasta de Lurian] morreu, quando meu sobrinho Arthur morreu. Foi uma campanha com muito ódio, dentro e fora das redes. Em 1989 não tinha redes sociais.

MK – O que você sentiu quando, no debate, Bolsonaro ameaçou resgatar a história da sua mãe na campanha do Collor?

Lurian – Senti ali a fraquejada, que ele é fraco. Eu até pensei em fazer um vídeo, mas desisti, porque não ia dar ibope para Bolsonaro. Resgatei nas minhas redes um vídeo com uma homenagem que fiz ao meu pai, no Dia dos Pais, e meu pai também gravou um vídeo me elogiando, falando que eu pareço muito com ele.

MK – E vocês se parecem?

Lurian – Ah, eu tenho muita coisa do meu pai, sim. Essa coisa de empatia, solidariedade. Gosto de saber que o que eu faço pode transformar vidas, e isso é muito dele. E dizem que eu pareço bastante fisicamente com ele também.

MK – Como é a relação com seu pai?

Lurian – Depois que a gente se conheceu, quando eu tinha 4 anos, eu comecei a conviver com ele normalmente. Meu pai não mima os filhos, chama muito a gente para a responsabilidade. Com a vida que ele leva, não é ausente porque é omisso, mas porque tem comprometimentos não só com a família, mas com a sociedade. Como ele fica longe, quando estamos juntos, a última coisa que ele quer é brigar, então, procura dialogar, ver como pode ajudar, faz as cobranças dele também. Isso comigo e com meus irmãos. O Lula pai é assim. O Lula avô não conseguiu aproveitar muito essa fase no começo, porque estava na Presidência, sem tempo. O Lula bisavô veio num momento de fragilidade dele. Ana Lua nasceu 15 dias depois que a Marisa morreu, em 2017. E ele até disse num encontro do PT, em São Paulo, que “Deus tirou dele uma mulher que era para ele amar a vida inteira e deu outra para ele amar até o final da vida”, referindo-se à bisneta. Ele é doido por ela. Na pandemia, a gente fazia live com a família todo fim de semana, cada um num canto, mas a gente criou esse hábito.

MK – Pai presidente, pai doente, pai viúvo, pai preso, pai casado de novo, pai presidente de novo. Como lidar com tantos altos e baixos da vida?

Lurian – As pessoas são muito cruéis. Quando ele ficou preso, além de toda a injustiça, o desgaste foi enorme, era muito difícil a gente ir até Curitiba. Parecia que o objetivo do [à época juiz Sergio] Moro era cansar a família, mesmo. Mas a gente não desistia. Para o Moro a gente nem precisa falar mais nada. As urnas deram a resposta.

MK – O que você gostaria de dizer para o seu pai, presidente de novo, aos 77 anos e depois de tudo o que ele passou?

Lurian – Ele é muito forte. Desde que estava preso, eu falava para todo mundo que meu pai precisa ser estudado pela Nasa. A gente chegava triste lá na prisão, e ele com aquela força. Até quando morreu meu sobrinho, eu estava superpreocupada com ele e, de repente, ele estava lá para consolar a gente.

Meu pai é muito resistente, tem que ser estudado. Eu acho que 120 anos para ele é pouco, tem que ser mais. Não tem como não admirar. Você pode até não gostar e não votar, mas não tem como não admirar a força desse homem, é surreal. Eu tenho dois lados enquanto filha: a filha preocupada, que acha que ele tinha mais é que descansar e viver a vida dele, e a filha que entende a busca por justiça, até para provar que ele é capaz. Depois de tudo o que ele passou, tudo o que minha família passou, ele ganhar agora a eleição foi, sim, uma grande vitória. Eu entendo o Lula líder, hoje ele é a única pessoa neste país que tem condições de recuperar o que já foi feito e de fazer ainda melhor do que ele já fez. Não tem outra pessoa. Meu pai é um estadista, um verdadeiro chefe de Estado. Não tem como ele não ser respeitado. Quando fui para Nova York receber um prêmio pelo meu pai, eu senti o quanto ele é respeitado lá fora também.

MK – Você pensa em ser candidata?

Lurian – Já fui candidata a vereadora em 1996, em São Bernardo do Campo, mas não ganhei. Meu pai já disse: “Eu nunca vou pegar filho, por debaixo do braço e dizer que é candidato, porque não sou coronel para fazer isso”. E ele está correto. Sempre atuei nos bastidores, mas não descarto a possibilidade de um dia me candidatar. Agora fico um período inelegível, porque meu pai sendo presidente não posso ser candidata a nada. Mas a política sempre fez parte da minha vida. Viver da política era uma forma de estar mais perto do meu pai, porque, como eu fui criada longe dele, era um jeito de estar próxima. Assim, estava com ele também em outros momentos que não fossem só os que ele ia me visitar. Mas eu adoro política, saber que é possível transformar a vida das pessoas para melhor.

MK – Algum recado para as pessoas que votaram no seu pai?

Lurian – Quero agradecer muito às pessoas que confiaram e que confiam na figura do Lula e no programa do PT. E queria pedir também para as pessoas que não votaram que reflitam sobre o voto delas e sobre a responsabilidade delas, sobre o que falam e propagam. O Brasil já foi governado pelo PT e não virou Venezuela. O Lula nunca fechou igrejas e foi por oito anos presidente deste país. Nem a Dilma fechou Igrejas. No governo Lula, nós saímos do mapa da fome. Os negros eram respeitados, as mulheres eram respeitadas, a população LGBTQIA+ era respeitada. Você não é obrigado a votar no Lula nem no PT, mas você é obrigado a ter essas informações e não falar mentira, a ter responsabilidade sobre as coisas que propaga.

MK – Você é uma filha coruja?

Lurian – Eu sou. Babona mesmo. Acho que a minha avó materna me criou para isso [risos]. Vou repetir: meu pai tem que ser estudado. Ele sobreviveu à fome no sertão pernambucano, sobreviveu a um ataque de jumento na infância, sobreviveu a 13 dias de pau de arara, sobreviveu à fome e a enchentes em São Paulo, foi preso no final da ditadura, a mãe dele morreu quando estava preso, sobreviveu a um câncer, sobreviveu a torturas psicológicas, ficou viúvo, foi preso de novo. Merece, sim, ser estudado porque é um sobrevivente, não perde a força nem a esperança. Quando a minha avó paterna falava “teima”, não sei se era tanto assim, mas ele teimou.

MK – Um recado de filha para pai?

Lurian – Pai, cumpra o melhor mandato da sua vida, que você sabe fazer isso muito bem. Que você continue sendo essa referência não só para a gente, sua família, mas também para o país e para o mundo, porque todo mundo tem muito orgulho de você, aqui e lá fora. Que você faça o melhor governo da sua vida, acredito muito em você.

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