Construir Resistência

12 de abril de 2024

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Todo dia matam uma Marielle no Rio de Janeiro

Por Fernanda Canofre – Folha de S. Paulo  Hélio Luz foi um dos raros policiais que transcenderam delegacias e repressão pura e dura. Tem uma visão ampla do funcionamento da sociedade e posição política progressista. Nesta entrevista concedida à Folha de S. Paulo, fala sobre a situação da segurança no Rio e no Brasil, o caso Marielle e as dificuldades para combater a corrupção endêmica no Estado brasileiro. ‘‘A polícia é corrupta. É uma instituição que foi criada para ser violenta e corrupta’’. A afirmação feita no documentário ‘Notícias de uma Guerra Particular’ (1999) veio do então chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, o delegado Hélio Luz, hoje com 78 anos. Passados quase 30 anos e um mandato de deputado estadual pelo PT (1999-2002), Luz vive hoje em Porto Alegre, mas mantém sotaque carioca, contatos com colegas da polícia no Rio e a mesma visão. É a partir deles que avalia a investigação dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. No último dia 24, a Polícia Federal prendeu três suspeitos de serem mandantes do crime, depois de acordo de delação com Ronnie Lessa, apontado como executor —o conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado), Domingos Brazão, seu irmão, o deputado federal Chiquinho Brazão (sem partido) e o delegado Rivaldo Barbosa, recém-nomeado chefe da Polícia Civil na época do crime. Na entrevista à Folha, Luz cita ainda a ligação de Lessa com Rogério Andrade, apontado como um dos líderes do jogo do bicho no estado. A defesa dele tem negado as acusações. Luz diz que o apelido Xerife da Esquerda, que recebeu nos tempos na polícia e virou título de um livro, o deixa desconfortável. ‘‘Sou um cidadão que foi delegado’’. Entre os supostos mandantes, a família de Marielle e o ex-deputado Marcelo Freixo se disseram surpresos com o nome de Rivaldo Barbosa. E o senhor? Polícia não fica surpresa com nada, tudo pode acontecer. Essa história que surge com a delação do Lessa… O Lessa integra o jogo do bicho. Ele é colado com o Rogério Andrade, um dos chefes, não do jogo do bicho no Rio de Janeiro, mas no Brasil. Os banqueiros do bicho no Rio têm controle do jogo no Brasil inteiro. Pega uma descarga, que é como se fosse um resseguro, e cada um faz de um estado: um da Bahia, outro do Acre, por aí vai. Quando o sr. diz ‘descarga’ quer dizer o quê? Fazem um jogo, vamos supor, R$ 10 mil, o banqueiro que está no Acre segura R$ 2.000 e repassa R$ 8.000 para a descarga, porque não pode bancar sozinho. Ser nível nacional é um dos requisitos para crime organizado: nível nacional, área determinada, e inserido nas instituições nacionais. Crime organizado neste país é o jogo do bicho do Rio de Janeiro. Estou colocando isso para saber onde estamos pisando. O Lessa é um fio desencapado, de alta voltagem. O cara foi do Bope, é profissional. O outro é o Domingos Brazão. O avô dele tinha controle de Jacarepaguá, não chegou ontem. São figuras que podem fazer algo. A PF diz que [o delegado] é corrupto. É possível. Mais do que isso, tem que ter prova. Está bem escrito o relatório? Está, dá para fazer um livro, mas cadê a prova? Algo poderia ter sido diferente para se chegar a respostas antes? Não sei. Investigação quando você começa e diz ‘vai sair um tigre’, já está furada. Você não sabe a figura que vai aparecer, vai juntando as peças [do quebra-cabeça]. Na última, você diz se é um tigre. Fora isso, é chute. O sr. acha que a figura não está clara? De repente, pode ter uma tromba. Hoje em dia a ciência está evoluída (risos). Eu vejo com reservas. A autoria está determinada, sobre ela não há dúvida. E a motivação? Não há homicídio sem motivo. Pode ser motivo fútil, mas é motivo. Marielle era uma mulher negra, da Maré, favelada, isso é a motivação para mim. No Rio de Janeiro, todo dia matam uma Marielle, temos que levar às últimas consequências essa investigação. Não pode ficar pelo meio. Marielle é um símbolo. 60% dos brasileiros vivem com até um salário mínimo, ou seja, 129 milhões de pessoas, 20 milhões têm renda mensal de até R$ 300. E o outro lado? São 17,4 milhões que ganham acima de três salários mínimos. Esse é o motivo de a Marielle estar morta, essa desigualdade seríssima que temos. Quem segura isso? A origem desse país é a escravatura. É um país construído por escravos. Essa sua fala ecoa a de ‘Notícias de uma guerra particular’, quando era chefe da Polícia Civil. O que mudou desde então? De 1997 para cá não mudou nada. Tem uma classe média branca que quer criar uma ilusão. Acha que são 129 milhões de idiotas [esse é o número da população que vive com até um salário mínimo, de acordo com o IBGE] ? Não, e quem segura? O sistema de segurança —polícias e Forças Armadas. Esse é o jogo. E onde entra a corrupção? Aí não é voltar a 1997, é 1808. Desde que dom João 6º chegou aqui, e criou a Intendência de Polícia aos moldes do que tinha em Portugal. Criou o controle social feito pela polícia, pelo Judiciário e pelo sistema penitenciário. Esses três são encarregados de manter o controle. Onde está a corrupção? Sem corrupção, isso não existe. A corrupção está dentro da estrutura do Estado. Se não houver corrupção, a estrutura do Estado brasileiro não funciona. A questão da Marielle é cidadania, que 20% da população tem e 80%, não. É direito à alimentação, moradia, saúde, educação, lazer. Marielle estava à margem e conseguiu ser eleita, por isso, ela é símbolo. Em 2018, o sr. disse em entrevista que o problema do Rio, então sob intervenção federal, não eram os bandidos, mas os mocinhos. Segue assim? As revelações são isso. São todos mocinhos, como não? Mocinhos são os poderes constituídos —Executivo, Legislativo e

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Professor palestino convidado para ato sobre Levante do gueto de Varsóvia

Por Casa do Povo    Convidamos a todas e todos para o 81º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia na Casa do Povo, na próxima quinta-feira, 18 de abril, em atividade denominada Um dia antes do Levante. A Casa do Povo nasceu de um Levante. No dia 19 de abril de 1943, judias e judeus se levantaram contra o cerco nazista do Gueto de Varsóvia. Depois de quatro semanas de resistência, o Gueto foi destruído junto da maior comunidade judaica da Europa. Desde então, este evento histórico tornou-se um mote para a instituição: a cada ano, ao celebrar o Levante, a Casa do Povo é refundada reafirmando seu compromisso com o nunca mais! Nunca mais para judeus e judias e nunca mais para qualquer outro ser humano. Estremecida pelo círculo de violência no Oriente Médio, ao comemorar o 81º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia, a Casa do Povo convoca um levante que ainda está por vir. Em memória aos israelenses e palestinos mortos desde o dia 7 de outubro de 2023, clama por um levante que atravesse as fronteiras, as identidades e as crenças. Um levante contra o fascismo, o fundamentalismo, o colonialismo, o ultra-nacionalismo e suas estruturas. Um levante pela paz. No dia 18 de abril, a Casa do Povo convida Jawdat Abu-El-Haj, palestino radicado no Brasil, professor e pesquisador na Universidade Federal do Ceará para ser o orador convidado da noite. Na ocasião, as pessoas presentes receberão uma publicação reunindo os discursos de oradores dos últimos Levantes: Ailton Krenak, sobre os levantes indígenas, Lúcia Xavier, sobre os levantes das mulheres negras, e Déborah Danowski, sobre o levante da terra. À luz das 6 velas acesas no início da cerimônia, em memória dos 6 milhões de judias e judeus assassinados na Shoah, convidamos a todas e todos a estarem conosco para também cantar o Hino dos Partizanos junto ao Coral Tradição. Essa é nossa maneira de homenagear as vítimas de ontem e de hoje, e tecer solidariedades entre as lutas. Que os levantes do passado possam inspirar levantes do amanhã.   Um dia antes do Levante 81º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia Quinta, 18 de abril, 19h30 Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro Interpretação em LIBRAS disponível. Solicite a presença de um intérprete pelo email info@casadopovo.org.br.

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Sobre dignidade humana

Por Cristina Serra Inútil esperar que a igreja católica acorde para o mundo real. Nem o Papa Francisco, com seu jeito de vovô fofo e uma sensibilidade maior para os problemas do mundo que seus antecessores, é capaz de dissolver a calcificação dos dogmas da igreja católica. Agora vem com essa de dizer que a cirurgia de mudança de sexo ameaça a dignidade humana. Me desculpem os católicos que lerem essas mal traçadas linhas, mas isso só mostra como o Vaticano é uma estrutura arcaica e apodrecida, totalmente deslocada do mundo no século 21. A cirurgia de mudança de sexo é justamente o que dá a possibilidade de dignidade para as pessoas transgênero. É essencial para que encontrem o eixo da sua existência, seu lugar no mundo. É um processo difícil, muitas vezes sofrido, e que não resolve tudo, mas é a base para uma vida saudável e feliz, um direito de todas as pessoas transgênero, tanto quanto de qualquer outro ser humano. Acorda, Francisco: ameaça à dignidade humana é guerra, fome e criança fora da escola. Cristina Serra é jornalista

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