Construir Resistência

20 de abril de 2023

No ninho das jararacas

Por Simão Zygband Em março de 2016, depois de ter sido submetido a uma condução coercitiva que o obrigou a depor na Polícia Federal, no aeroporto de Congonhas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou indignação durante entrevista coletiva, em forma de discurso, que realizou na sede do PT em São Paulo. Ele acabava de ter sido vítima de um deprimente espetáculo de pirotecnia, mandado executar pelo então juiz de primeira instância, Sérgio Moro, que o colocou como o principal alvo da 24ª fase da Operação Lava Jato. Tratava-se, evidentemente, de uma perseguição política que culminou com sua posterior prisão ilegal e arbitrária por 580 dias em Curitiba. No final da entrevista, ainda bastante indignado, Lula fez um desabafo: “Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca tá viva, como sempre esteve”. Ele não deixava de ter razão: não apenas se manteve politicamente vivo, como 6 anos depois se tornaria novamente o presidente da República. Todo mundo já conhece o desdobramento da história. Reeleito para um terceiro mandato, desta vez, entretanto, Lula possui um quadro político muito menos favorável do que das duas vezes anteriores. Liderou uma Frente Ampla que não possui apenas partidos de centro-esquerda, o que transformou a governabilidade agora mais complexa, sem ter maioria explícita no Congresso, além de ter herdado uma herança maldita dos seis anos pós-golpe de Estado, apresentando estruturas de poder totalmente contaminadas pelo fascismo, que o presidente Lula terá a árdua tarefa de desmontar. É um país arrasado, que terá que ser reconstruído. Por onde é que olhe, o presidente Lula pode ter um inimigo a seu lado e não é fácil, diante do turbilhão, saber quem sabota o seu governo ou que de fato está empenhado em junto com ele reconstruir o país. Vamos pegar como exemplo o atual caso do general Gonçalves Dias, chefe do estratégico Gabinete de Segurança Institucional (GSI), homem de confiança de Lula e que já havia demonstrado lealdade ao presidente nos outros dois mandatos. Consta que Lula foi pego de surpresa não pela participação ativa do general nos lamentáveis episódios de 08 de janeiro, mas por ter ocultado dele a existência de imagens comprometedoras, que mostram a participação ativa de militares naquela tentativa de golpe. De fato, Gonçalves Dias não interage com os terroristas, mas aparentemente fica atônito, sem demonstrar reação. Mas a omissão do fato de existirem as imagens divulgadas pela CNN, com edição daquilo que pretendiam mostrar, deixou o presidente em dúvida quanto a lealdade do chefe da GSI, órgão que deveria ser o primeiro a ter conhecimento de que as imagens não haviam sido perdidas, como alegava o general. Foi o primeiro ministro a cair no atual mandato. Não restou alternativa ao presidente. Entendo que mais uma vez os fascistas tentaram tumultuar o governo, exatamente no 19 de abril, Dia do Exército. Novamente utilizaram um veículo de televisão, a CNN, para construir problemas para o presidente. Conseguiram, inclusive derrubar um ministro e abriram a possibilidade de abertura de uma CPMI no Congresso para analisar os episódios ocorridos no dia 08/01. Lula não queria a sua implantação por considerar que ela paralisaria o país carente de decisões urgentes a serem votadas na Câmara e no Senado. Mas foi obrigado a recuar e terá que enfrentar os fascistas em plenário. A extrema direita não está para brincadeira. Cada dia haverá uma nova surpresa. Será necessária articulação do governo mais intensa no Congresso, nas mídias sociais e privadas e realizar um trabalho árduo de ganhar a opinião pública, mesmo tendo a imprensa trabalhando contra, para dar compreensão para a população de tudo o que está ocorrendo no país. É a hora de colocar o time em campo, azeitado, sem o direito de errar. Lula anda sob o fio da navalha em meio a um ninho de jacaracas. Ele sabe que não terá o direito ao erro. Precisa, mais do que nunca, o apoio dos setores consequentes da sociedade. Ter clareza, disciplina, clarividência e divulgação ampla de tudo o que vai realizar. Jogo pesadíssimo. Olho nos golpistas, Lula!        

No ninho das jararacas Read More »

Propaganda

Por Alfredo Herkenhoff Se Lula fracassar, morrer, for morto, sofrer acidente ou terminar o mandato sem gerar empregos nem bem-estar, o que virá será o fechamento completo do oligopólio midiático das empresas corporativas decadentes. Será o fechamento do Congresso. Será a ucranização total. Viraremos um Grande Haiti Lava-jato, invasão do Iraque, revolução Maidan, ou golpe de Estado na Ucrânia, bombardeio da Otan sobre a Líbia, tudo isso só foi possível por causa da propaganda. A palavra no título desta reflexão vem do Latim, do verbo propagare, ou espalhar, semear, gerar reproduções, repetições… A palavra hoje é um vocábulo internacional, não tem e não precisa de tradução em 99% dos países da terra. A propaganda enquanto palavra ganhou status de arma política uns 300 anos atrás, via ingleses adotando o termo do Vaticano com tantas obras missionárias para espalhar a fé pelo mundo. Mas, considerando a bibliografia, ou a historiografia das guerras ao longo de séculos e civilizações, o conceito de propaganda como uma arma na luta está evidente desde sempre. Desde o tempo do manual chinês A Arte da Guerra, opúsculo de uns 2 mil anos antes de Cristo, está claro que a informação que se divulga e que se esconde é fundamental para as chances de um exército derrotar um outro exército. Há um dito popular que se perde no tempo e que, salvo engano, não tem autoria reconhecida, mas que diz mais ou menos o seguinte: em tempos de guerra, a mentira é como terra. Ou seja, é vasta, é farta. Uma conhecida minha que era do teatro me disse numa ocasião que Bertold Brecht teria dito ou escrito que a propaganda é o altar do inferno. Nunca chequei se procede a citação. Mas se non é vero, è bem trovatto. A propaganda espalha a informação que pode ser uma mentira disfarçada de verdade e pode ser uma verdade na qual pouca gente crê porque a propaganda anterior levou aquele público a ter certeza de que esta verdade é propaganda dos mentirosos. Dilma foi deposta por causa da propaganda. Lula foi preso por causa da propaganda. O STF por 6 a 5 autorizou Moro a prender Lula sem provas e ao arrepio do inciso 57 da Artigo Quinto por causa da propaganda que dizia que quem fosse contra estava a favor da corrupção. Aquela frase famosa de Goebbels, a mentira mil vezes repetida vira verdade, não era novidade. Era só propaganda sobre como melhor fazer propaganda nazista. A palavra de ordem dos revolucionários russos sob Lenin era “Agit e Prop”. Ou agitação e propaganda. Agitação era o termo da época para militância política. Com o advento da era digital, o conceito milenar ganhou propulsão numa escala nunca vista através dos celulares, das ferramentas sociais e dos algoritmos, que são uma técnica de turbinar a velocidade da repetição da propaganda. E no cenário contemporâneo, bombas em Belgrado, bombas na Síria, primaveras árabes, revoluções coloridas, direitos humanos, guerra às drogas, guerra ao terror, Estado mínimo, o inferno são os outros, esquerdalhada corrupta, a culpa é dos migrantes que tentam chegar à Europa, não dos que plantam bombas e colhem refugiados, enfim, neste ambiente, existe alguma alternativa para você não sucumbir aos poderosos que controlam a emissão mais maciça de propaganda? Sim e não. Rola uma contradição. A propaganda dos donos do dinheiro, do capitalismo da financeirização que se firmou pós autodissolução da União Soviética, enfim… a propaganda da classe dominante deixou de pregar golpes de Estado com base em fuzis e tanques. A propaganda passou a buscar corações e mentes. Passou a buscar a alienação, a lavagem cerebral mediante emoções. Passou a demonizar não apenas os comunistas, os social-democratas, os trabalhistas, os cristãos franciscanos, passou a demonizar, além dos políticos progressistas, a própria politica como um todo. Todo mundo que for contra a propaganda neoliberal é a favor da corrupção. Isso produziu um curto circuito entre os que, torpedeados pela propaganda da financeirização selvagem, passaram a odiar não apenas pessoas progressistas, mas pessoas conservadoras não radicais nessa loucura de cancelamento de qualquer debate racional. Por causa dessa metodologia de condenar o adversário político, o diferente, a propaganda na era digital passou a condenar também os divergentes dentro do campo dos que condenavam os políticos e as políticas progressistas. No caso do Brasil, os extremistas que se deram bem com a propaganda que tirou Lula e Dilma passaram a chamar de bandidos, corruptos, pedófilos e comunistas todos os aliados que divergiram deles, como Dória, TV Globo, Gilmar, Frota, Tebet, Xandão, Alckmin, Fachin, Carmen Lucia etc etc etc. Esse fenômeno se repete mundo afora. A técnica digital que lacra, que insulta e jamais aceita debate civilizado, condenou todas as versões de comunicação de países que estavam no alvo. Por causa disso, europeus têm certeza de que os russos são o mal, que Putin invadiu porque acordou querendo invadir, enfim, houve uma desmoralização das versões contrárias. Mas, no campo vencedor do neoliberalismo suicida da financeirização total, a propaganda digital causou a destruição também da velha capacidade quase monopolista da velha grande mídia . Isso está produzindo um problema novo. A classe dominante que controla o velho mainstream midiático está sentido pela primeira vez que o ódio propagado pela propaganda é perigoso também para os golpistas neoliberais da financeirização. No caso do Brasil é simples: se Lula fracassar, morrer, for morto, sofrer acidente ou terminar o mandato sem gerar empregos nem bem-estar, o que virá será o fechamento completo do oligopólio midiático das empresas corporativas decadentes. Será o fechamento do Congresso. Será a ucranização total. Viraremos um Grande Haiti. Em vez de felicidade e vida digna, o bolsonarismo vai distribuir tontons-macoute pra todo mundo. Alfredo  Herkenhoff  é jornalista, escritor, autor do livro Jornal do Brasil – Memórias de um Secretário

Propaganda Read More »

Rolar para cima