Construir Resistência

29 de março de 2023

Meio tutor, meio cúmplice de Maria Bethânia

Por Tom Cardoso   (…) Caetano permaneceria para sempre “meio tutor e meio cúmplice” da irmã, como desejavam Dona Canô e Seu Zeca. Os pais só autorizaram a viagem de Bethânia ao Rio — para substituir Nara Leão no musical Opinião — com a condição de o irmão a proteger de tudo e de todos. E nada rolou fácil na ida ao Rio. Bethânia sentiu mais intensamente o preconceito contra nordestinos. Na véspera da estreia no Opinião, os produtores exigiram que ela se ajustasse rapidamente aos padrões estéticos locais. “Eu fiquei nervosa com isso. O meu cabelo era muito crespo e o pessoal do Opinião achou que estava feio. Tinha que passar uma pasta para alisar o cabelo.” Em 1966, a cinemateca do Museu de Arte Moderna programou um curta-metragem sobre a cantora Bethânia bem de perto, dirigido por Eduardo l Escorel e Júlio Bressane — pra ser exibido antes do filme “O desafio”, de Paulo César Saraceni. No dia da apresentação, assim que a intérprete de Carcará surgiu na tela, iniciou-se uma vaia contínua. Sentado na primeira fileira, ao lado da irmã, Caetano reagiu, aos gritos: “Vocês são uns imbecis! Bethânia é um gênio, estão sabendo?” Muito superior aos imbecis, ela adaptou-se mais rapidamente. O leonino Caetano seguiu indignado: “Quando Bethânia se lançou profissionalmente, eu me irritava com os comentários na imprensa sobre sua ‘feiura’. Não por ela ser minha irmã e eu desejar-lhe elogios, mas sobretudo por não suportar a cegueira das pessoas diante do lance estético que é o aparecimento da figura física de Maria Bethânia. Eu era impaciente.” Mais histórias sobre Caetano e Bethânia no livro “Outras Palavras”. Quem quiser comprar diretamente com o autor é só dar um alô. (No Facebook dele) Tom Cardoso é jornalista, escritor e crítico musical

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A volta do farsante

Por Leandro Fortes Não faz muitos anos, uma figura obscura como Jair Bolsonaro jamais poderia escolher uma cidade como Brasília para, de volta de um exílio fraudulento, desembarcar sob apupos de uma coletividade unida em torno da própria indigência intelectual, orgulhosa da própria ignorância. Foram as duas últimas décadas que formaram na capital da República e nas bordas do Distrito Federal um contingente de servidores públicos e agregados cevados no antipetismo e na normalização da miséria como provação divina. Efeito nefasto, por um lado, de uma política petista de abertura de concursos públicos utilitaristas, despolitizados e irresponsavelmente focados na produção de tecnocratas, e, por outro, do fenômeno neopentecostal, que transformou os cinemas locais em igrejas e fez circular pelas ruas e pela política uma massa de imbecis motivados. Bolsonaro tinha, portanto, a expectativa real de desembarcar em Brasília debaixo de charangas e fogos de artifício, preparado que estava para ser abraçado por uma multidão histérica de fanáticos entoando palavras de ordem fascistas e trajando, como de costume, indumentária verde e amarela. Pretendia repetir como farsa o fenômeno eleitoral de 2018, quando hordas bolsonaristas formadas por idiotas e incautos que, muitos dos quais, iriam engrossar as fileiras de vítimas da Covid-19 e da fome generalizada que se seguiria nos quatro anos seguintes. O objetivo fundamental era o de produzir imagens e conteúdo digital para se agregar à produção de fake news do bolsonarismo, ainda em pleno funcionamento, mesmo depois da derrota eleitoral de Bolsonaro e dos atos golpistas de 8 de janeiro. O derrotado precisava desse momento como parte de uma estratégia de mobilização para reagir à possibilidade concreta de prisão e de se tornar inelegível pelos próximo oito anos, pela Justiça Eleitoral. Noticia-se, aqui e acolá, que o ex-presidente se afogou em perdigotos da própria boca – podre, como se sabe – e em palavrões os mais diversos ao saber que, sob a batuta do ministro da Justiça, Flávio Dino, o governo do Distrito Federal foi instado a fechar com barreiras a Praça dos Três Poderes e as imediações do aeroporto internacional de Brasília, na quinta-feira, 30 de março. Só terá acesso à região quem apresentar bilhete de embarque. Bolsonaro não ficou furioso apenas pela frustração da festa perdida. Para quem imitava gente morrendo por asfixia, em plena pandemia, e usava ministros de Estado e militares como mulas para contrabandear joias do Oriente Médio, isso é café pequeno. O que o ex-presidente teme, de verdade, é estar indo direto para uma arapuca da Polícia Federal, o que tanto pode ser o cumprimento de um mandado de prisão ou, no limite, ser constrangido por uma escolta com ares de condução. Um dia antes de, finalmente, sair da toca onde se meteu, apavorado, antes mesmo de terminar o mandato presidencial, nas cercanias da Disney, Bolsonaro foi avisado que, em 5 de abril, vai ter que depor sobre o caso das joias sauditas roubadas. Não será surpresa, portanto, se, em algum momento, ele recorrer à prática manjada de se internar com dores abdominais para fugir do compromisso e renovar, pela enésima vez, a figura do mártir esfaqueado que está pronto para dar a vida por Deus, pela pátria e pela família. O golpe está aí, cai quem quer. Leandro Fortes é  jornalista, escritor e professor

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Para contrapor o veto na Câmara, UFSC concede título a Gilberto Gil

Da Redação  Concessão do título de doutor Honoris Causa ao artista foi aprovada por unanimidade pelos 42 conselheiros e conselheiras da Universidade  Após ter o título de cidadão honorário negado pela Câmara Municipal de Florianópolis, o cantor Gilberto Gil foi homenageado com o título de doutor Honoris Causa pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A proposta foi aprovada por unanimidade. A concessão do título ao artista foi aprovada pelos 42 conselheiros e conselheiras presentes em reunião especial do Conselho Universitário da UFSC, no Campus Universitário Trindade, em Florianópolis. O título de doutor Honoris Causa é concedido pela UFSC “a pessoas eminentes, que não necessariamente sejam portadoras de um diploma universitário mas que se tenham destacado em determinada área (artes, ciências, filosofia, letras, promoção da paz, de causas humanitárias etc), por sua boa reputação, virtude, mérito ou ações de serviço que transcendam famílias, pessoas ou instituições”. Presença da ciência em sua obra musical No texto que justifica a concessão do título a Gilberto Gil pela UFSC, há um “conjunto de motivações”: a contribuição do artista à cultura brasileira como cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical, político e escritor, além das singularidades da presença da ciência em sua obra musical. Gil ainda teve destaque, segundo o texto, em diversas frentes de atuação na política e na cultura internacional, participando de eventos e fóruns que se consolidaram como marcos históricos em diferentes momentos. Por fim, a justificativa lembra que o artista recebeu distinções como “o Artista da Paz pela UNESCO em 1999 e Embaixador da FAO”, além de condecorações como “Légion d’ Honneur da França, Sweden’s Polar Music Prize, entre outros”. Gil também foi homenageado com títulos de doutor Honoris causa de duas universidades estrangeiras e um instituto federal brasileiro.

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O agravante da mentira é impedir a vítima de corrigí-la

Por Léo Bueno  Eis aqui o que podemos chamar de covardia consumada. O governo é fonte de informação e atua tendo entre seus princípios legais o de Publicidade. Tem não apenas direito, mas mesmo o DEVER de corrigir erros de informação, quando não mentiras ostentadas inclusive pela mídia corporativa. Nós já vimos esse filme antes. Em 2009 Globos e Folhas estavam fuzilando a Petrobras com tantos factoides ambíguos ou mentirosos que a empresa acabou lançando o blog Fatos e Dados para responder diretamente à população, de maneira antecipada, a perguntas maliciosas feitas pelos ‘jornalistas’. No meio da grita, a Petrobras recuou o procedimento. O tempo se encarregou de mostrar, no entanto, que a companhia tinha razão, inúmeras foram as notícias destinadas – e que lograram sucesso – a permitir o seu rateio e, pior, o saque do Pre-Sal. A mídia fez parte de um abismal esquema de corrupção. O contrabando de joias do Bozo é apenas um dos efeitos colaterais dessa estratégia. Eu próprio já tive que fazer, em defesa do Poder Público, procedimento similar, e foi bem antes. Tantos eram os absurdos que os jornais diziam sobre o prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel, que tivemos de lançar uma newsletter, o ‘Dito pelo não Dito’, para esclarecer as mentiras, que eram diárias e muitas. E lá se vão 21 anos. Se tivesse o mínimo de compostura, a imprensa, incluindo as agências de fact checking, faria outrossim o que fez o New York Times após ser obrigado a admitir que seu correspondente internacional Jason Blair andava inventando notícias: um caderno inteiro reconhecendo as mentiras que ele próprio publicou, com – o mais importante – uma declaração de responsabilidade em revisar seus procedimentos jornalísticos para não mais lesar os leitores em sua função primordial, a de alcançar a informação mais próxima possível da verdade. Em vez disso, ao praticar mimimi contra a nova agência do governo, a mídia corportativa anuncia enviesadamente que vai continuar emitindo mentiras como o apoio às farsas de Sérgio Moro – um mentiroso contumaz já reconhecido até no STF! – ou o chilique da CNN contra o ministro Paulo Pimenta por algo que ele não falou. O fact checking do governo devia ser recebido com a alegria de quem ama publicar a verdade. Se não é, é porque esse amor não existe. Nunca esquecer: o criminoso impedir a defesa da vítima é sempre agravante do crime. Léo Bueno é jornalista e trabalhou na rádio Jovem Pan de São Paulo e no Diário do Grande ABC, além de sites e revistas

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Piquet esconde joias ilegais de Bolsonaro

Por Altamiro Borges Nelson Piquet, o ex-piloto de Fórmula 1 que virou o chofer puxa-saco do “capetão”, está novamente no topo das redes digitais – e sempre por motivos torpes, asquerosos. O jornal Estadão revelou nesta terça-feira (28) que “o ex-presidente Jair Bolsonaro contou com a ajuda de um apoiador para arrumar um lugar onde guardar suas caixas de presentes recebidas durante seu mandato, como as joias de diamantes, e que não queria entregar para a União”. O local escolhido para esconder a muamba é conhecido como “Fazenda Piquet”, e está localizado no Lago Sul, uma das regiões mais nobres de Brasília. “O Estadão apurou ainda que tudo que foi destinado à propriedade de Nelson Piquet saiu pelas garagens privativas do Palácio do Planalto e também do Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes da República. A data inicial para envio das caixas foi registrada no dia 7 de dezembro do ano passado, quando Jair Bolsonaro começava a organizar a sua saída dos palácios, após a derrota na eleição presidencial”. Doou R$ 501 mil e garfou R$ 6,6 milhões do covil A investigação confirma que o fascista, que ainda engana os otários com a falsa imagem de simplório e incorruptível, tinha o objetivo de ficar com os itens de maior valor obtidos durante seu desgoverno. Apenas as joias e outros bens mais caros foram enviados para a propriedade de Nelson Piquet, “enquanto outros itens, como cartas e livros, foram despachados para o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e a Biblioteca Nacional do Rio. Para estes itens, portanto, o entendimento foi de que seriam bens do Estado brasileiro, enquanto as joias foram tratadas como bens pessoais”. O ex-piloto topou esconder o contrabando – já que não foi declarado à Receita Federal – do seu amigo “fujão”. Como lembra o jornal, “Piquet é um cabo eleitoral ativo de Bolsonaro. Em novembro passado, um mês antes de alocar os presentes do então presidente, ele participou das manifestações contra a derrota de Bolsonaro na disputa à reeleição. Um vídeo do tricampeão mundial de Fórmula 1 circulou nas redes sociais onde ele dizia: ‘Vamos botar esse Lula filho de uma p* para fora’. Ao fim da gravação, um eleitor ao seu lado repetiu o lema do ex-presidente, ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’, e o ex-piloto completou dizendo ‘E o Lula lá no cemitério’, seguido de um palavrão”. Nelson Piquet chegou a doar R$ 501 mil para a reeleição de Jair Bolsonaro, tornando-se um dos maiores doadores da frustrada campanha. Toda essa bondade não era apenas por motivos ideológicos, por suas posições reacionárias. Ela também decorria de razões mais mesquinhas, bem mais sujas. Em agosto passado, a mídia revelou que a empresa de Nelson Piquet, a Autotrac Comércio e Comunicações, recebeu um aditivo de cerca de R$ 6,6 milhões, correspondente a um contrato assinado em 2019, sem licitação, do Ministério da Agricultura do covil fascista. Multa de R$ 5 milhões por racismo e homofobia O ex-piloto bolsonarista vive metido em confusões. Sempre foi um fascistoide, preconceituoso e elitista. No sábado passado (25), o site Notícias da TV registrou que “a 20ª Vara Cível de Brasília condenou Nelson Piquet a pagar R$ 5 milhões para uma associação de promoção da igualdade racial e contra a discriminação da comunidade LGBTQIA+ por falas e termos racistas que ele usou para se referir a Lewis Hamilton. Em uma entrevista, de forma depreciativa, o brasileiro chamou o britânico de ‘neguinho’. Não cabe recurso”. O juiz Pedro Matos de Arruda não vacilou na condenação. “Esta ofensa é intolerável. Mais ainda quando se considera a projeção que é dada quando é uma pessoa tão reconhecida e tão admirada como o réu. Assim, tenho que o dano moral coletivo está caracterizado, porque houve ofensa grave aos valores fundamentais da sociedade”, sentenciou. Para o cálculo da multa, “o juiz tomou uma decisão usando como base a doação de R$ 501 que Piquet fez para a campanha de reeleição de Jair Bolsonaro, em 2022. Como a Justiça Eleitoral limita doações a 10% do patrimônio na época, o magistrado entendeu que em 2021 o ex-piloto tinha um valor mínimo de R$ 5 milhões disponíveis”. Altamiro Borges é jornalista, coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e editor do Blog do Miro          

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