Construir Resistência

15 de janeiro de 2023

The Washington Post: comandante do Exército impediu prisão de invasores em Brasília

Por Fabrício Vera – jornal Opção  Foto: Ten. Ferrentini/ Comando Militar do Leste General Júlio César de Arruda teria dito para o ministro da Justiça Flávio Dino que manifestantes acampados não seriam presos O jornal americano The Washington Post publicou neste sábado, 14, uma reportagem denunciando conluio das forças de segurança com as invasões ocorridas em Brasília. Segundo o veículo de comunicação, militares impediram manifestantes antidemocráticos, acampados em frente ao Quartel-General do Exército, fossem presos. “Você não vai prender as pessoas aqui”, disse o General Júlio César de Arruda para Flávio Dino, ministro da Justiça e Segurança Pública, segundo testemunho de outros dois oficiais. Arruda havia sido escolhido pelo ministro da Defesa José Múcio Monteiro (PTB) para ser o comandante interino do Exército. Segundo as testemunhas ouvidas pelo The Post, a proteção oferecida pelo general deu tempo para centenas de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) escaparem da prisão. O que foi um dos vários indicativos de conluio dos militares com os manifestantes que estão sendo investigados.

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Meus pais foram presos em Brasília. Fiz tudo o que podia para ajudá-los’

Luciana Bugni Colaboração para o TAB, de São Paulo Os pais de Felipe* sempre foram conservadores. Religiosos e servidores públicos, defendiam o que hoje se chama família de bem. “Os comentários preconceituosos sempre aconteceram, mas, como fui criado nesse ambiente, cresci sem perceber. Só comecei a confrontar já adulto”, ele conta. A animosidade começou quando Dilma sofreu impeachment, em 2016. Depois, escalou bastante a partir da campanha de Bolsonaro na presidência. A partir daí, o diálogo ficou complicado, como em tantas famílias. Após a eleição de 2022, os pais de Felipe, que têm mais de 60 anos, passaram a frequentar o quartel da cidade em que moram no Sul, a cerca de 1.500 km de Brasília. Eles seguem grupos bolsonaristas no WhatsApp, Telegram e Facebook. “Passei a me calar nos eventos, tentando ficar neutro — só me manifestava quando era algo muito absurdo”, diz. Quando pessoas próximas tentavam combater fake news com informações verificadas de veículos de imprensa profissionais, os pais usavam argumentos que são comuns entre apoiadores do ex-presidente: “mídia lixo, comprada pelo PT, doutrinação de esquerda”. A relação foi se degastando. O período no acampamento em frente ao quartel, desde novembro, era visto pelos pais de Felipe como uma festa: um grupo de idosos, que passava algumas horas do dia juntos. “Era uma comunidade, falando a mesma língua, dividindo as mesmas ideias. Passaram Natal e Ano Novo naquela calçada. Isso cativou, virou um passatempo e tomou uma proporção que culminou na crença de que iriam até Brasília tomar o Planalto e não aconteceria nada”, ele conta. A família estava preocupada com a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmava, nos poucos encontros, que isso não poderia acontecer porque perderiam o dinheiro que tinham guardado, entre outras fake news. Qualquer argumentação via WhatsApp era ignorada. “A rigidez do núcleo era tanta que fui descobrindo que esses grupos em frente aos quartéis eram financiados pelos integrantes, que ‘pagavam taxas’. Ou seja, minha família estava patrocinando, de certa forma”, relata, inconformado. Felipe não sabia que os pais planejavam ir a Brasília. Descobriu por uma mensagem de texto, quando a família tentou marcar o almoço de domingo (8). Os que souberam dos planos tentaram impedir a viagem, que duraria cerca de 20 horas, de ônibus. A seguir, ele relata o que aconteceu desde que os pais pisaram na Praça dos Três Poderes. Meus pais dizem que chegaram [a Brasília] na madrugada de sábado (7), e que passaram a noite esperando o horário da manifestação. Pensaram em acampar, mas acharam que seria desconfortável demais. Ficaram [acordados] direto, esperando. Participaram da manifestação no domingo à tarde mas, quando se deu a confusão e a polícia finalmente interveio, decidiram ir a um hotel. Até que veio um boato de que se andassem nas ruas seriam presos — por isso, decidiram ficar no QG armado pela organização. Lá, teriam apoio do Exército, segundo diziam os grupos. Passaram mais uma noite lá. Em casa, sem nenhuma informação, eu não conseguia dormir. Soube depois que eles foram escoltados a noite toda nesse local, até que foram encaminhados, na manhã de segunda-feira para os ônibus que o Exército disponibilizou. Diziam que iam para a rodoviária. No trajeto, a Polícia Militar informou que estavam presos. Eles foram encaminhados à triagem da polícia e as informações pararam de chegar, pois os celulares foram confiscados. A última notícia era que meus pais haviam sido separados. Fiquei procurando notícias nos sites durante o trabalho, mas não consegui fazer mais nada. Pensei que minha mãe não sobreviveria a uma noite na cadeia. Enquanto eu procurava um advogado criminal, algo que nunca havia feito antes, pois nenhum conhecido havia cometido crimes, ligava para familiares e tentava unir todo mundo (os de esquerda e os de direita). Tínhamos um problema maior para resolver e não queria ficar acusando os culpados. Passei a madrugada falando com advogados até saber que meus pais haviam sido liberados e ligaram do celular de alguém Eles estavam indo para a rodoviária, pois a recomendação era que pegassem um ônibus de linha. Porém, nesse local, alguém que se identificou como um líder religioso recolheu os idosos num templo. Ali, muita gente se reencontrou com seus grupos e abandonou a ideia de voltar com um ônibus comum. Existia um novo boato de que ônibus fretados chegariam para buscá-los. Daqui, sabíamos pelas notícias que os ônibus estavam retidos, mas nas poucas ligações telefônicas que conseguimos fazer, eles duvidavam de tudo o que dizíamos. Pensei em comprar uma passagem de avião, mas precisava falar com eles para garantir que entrariam no voo a tempo. Conseguimos contato com uma mulher do grupo na madrugada de terça. Pedi para falar com meus pais e eles se negaram a voltar de avião. Meu pai disse que estava passando por tudo isso por minha culpa, porque eu não havia votado na direita A mulher que era dona do celular me impediu de continuar a conversa com eles. Pareceu que ela sentiu que eles podiam ceder se continuassem falando com a família. Eu me exaltei e ela ameaçou: ‘Você baixa a bola, ou não fala mais com sua família’. Tive uma sensação de sequestro. Duas horas depois ligaram de novo, dizendo que voltariam se comprássemos passagens de avião para o grupo todo. Consultei um advogado novamente para saber se isso poderia configurar que eu estava apoiando o golpe, mas só queria trazer meus pais para casa em segurança. Garantiram que não teria problema. Dividimos em vários cartões para dar conta da despesa. Emiti todas as passagens, eram mais de dez. Era minha terceira noite sem dormir. Na quarta (11), eles estavam embarcando de volta. Não falaram comigo. Achei que voltariam arrependidos de tudo que aconteceu, mas voltaram ainda mais convictos dos ideais do grupo Não sei quando e se voltaremos a nos falar, mas pelo menos tenho certeza de que fiz tudo o que podia para ajudá-los. *Nome fictício. Informações como a cidade de origem e as profissões dos citados também foram omitidas para que o entrevistado

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Ainda há tempo de aprender com os erros do passado e corrigi-los?

Por Claudio Camargo A frase do filósofo espanhol George Santayana (“aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”), que de tão surrada virou slogan, pode ser entendida como o avesso otimista do ceticismo de Karl Marx no “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte”: “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. País desmemoriado, o Brasil aprende muito pouco, quase nada, com a própria história, com as gerações mortas e com história mundial. Com os últimos acontecimentos de Pindorama, um episódio da Alemanha de Weimar me veio à mente: o Putsch Kapp-Lüttwitz, de 1920. Recém-saída da I Guerra Mundial e de uma revolução que derrubou a monarquia Hohenzollern, a Alemanha levou ao poder uma coalizão moderada liderada pelo Partido Social-Democrata (SPD), que foi obrigada a aceitar as pesadas sanções que a França e a Grã-Bretanha, vencedoras do conflito, impuseram aos herdeiros do Reich por meio do Tratado de Versalhes (1919). Uma delas foi a exigência da eliminação dos Freikorps (grupos paramilitares ligados às Forças Armadas), que inclusive ajudaram o governo do SPD a reprimir insurreições da extrema esquerda em 1918-1919. A dissolução de dois desses grupos, a Marinebrigade Loewenfeld e a Marinebrigade Ehrhardt, provocou uma tentativa de golpe civil-militar. Comandada pelo capitão de corveta Hermann Ehrhardt, a Marinebrigade Ehrhardt havia participado de várias ações de repressão às tentativas de revoluções bolchevistas e se recusou ser dissolvida. Teve a adesão do general Walther von Lüttwitz, comandante da Reichswehr (Exército imperial) em Berlim, a quem diversos Freikorps estavam subordinados. O líder intelectual do golpe, Wolfgang Kapp, era um extremista de direita nacionalista e um dos principais defensores da ideia da “punhalada pelas costas”, que dizia que o Reichsheer não havia perdido a guerra, mas sim que a Alemanha fora traída por políticos social-democratas e judeus, que derrubaram a monarquia e assinaram a rendição aos aliados. Kapp era um deputado monarquista do Reichstag (Parlamento) eleito pelo Deutschnationale Volkspartei (DNVP, Partido Popular Nacional Alemão). O general Lüttwitz exigiu o comando do Exército, a dissolução do governo, novas eleições para o Reichstag, além da revogação das ordens para dissolução dos Freikorps. O governo rejeitou as exigências e, em 13 de março, a Marinebrigade Ehrhardt ocupou prédios governamentais em Berlim. O governo determinou que o Exército resistisse ao golpe, mas os comandantes se recusaram; um deles disse que suas tropas não iriam atirar contra os camaradas com os quais lutaram contra um inimigo comum. A maioria dos comandantes do Exército, o comando da Armada e a polícia reconheceram o governo provisório. Além disso, boa parte do aparato burocrata era reacionário, moldado pela monarquia e por Bismarck, e se alinhou com os golpistas. Parecia que que o putsch tinha sido um sucesso. Acuado, o governo foi obrigado a fugir para Dresden e depois para Sttugart, de onde convocou uma greve geral contra o golpe. Como a base social do SPD eram os sindicados, o movimento atingiu enormes proporções, mobilizando 12 milhões de trabalhadores, interrompendo o fornecimento de gás, água e energia e paralisando o governo golpista. Assim, pela ação dos trabalhadores organizados, os insurretos direitistas foram derrotados, mas o governo de Weimar anistiou os líderes do golpe (Lüttwitz foi aposentado com pensão integral). O novo comandante do Reichswehr, general Hans von Seeckt, era quem havia dito que as tropas alemãs não iriam disparar contra seus camaradas de Freikrops. Durante os julgamentos dos crimes ocorridos no putsch, apenas um réu foi punido nos mais de 700 processos abertos contra os golpistas. Três anos depois, houve o “Putsch da Cervejaria” em Munique. Seu mentor e líder, o ex-cabo austríaco Adolf Hitler, líder do Partido Nazista, ficou menos de um ano na prisão. O resto da história é conhecido. No Brasil, autores de tentativas de golpes (em 1955, 1956, 1959 e 1961) foram anistiados ou sequer levados a julgamento. Golpistas, torturadores e assassinos da ditadura de 1964, idem. Terroristas do Exército que orquestraram o Riocentro (1981) jamais foram julgados. Temos uma chance agora de tornar a democracia segura punindo os terroristas bolsonaristas – principalmente os chefes, não só a arraia miúda. Mas será que daremos esse passo? Claudio Camargo é jornalista, diretor da agência Ex-Libris e ex-editor de Brasil da IstoÉ e da editoria Internacional da Folha de S.Paulo.  

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