Construir Resistência

14 de dezembro de 2022

Um futebol diferente

Por Mouzar Benedito no Brasil de Fato  Do Creative Commons   Uma época, perto do fim da ditadura, eu visitava presos políticos do Rio de Janeiro e de São Paulo e fazia matérias sobre eles para o jornal Em Tempo. Assinava com pseudônimo, pois se assinasse com meu nome mesmo ficaria proibido de visitar os presos meus amigos. Era proibido fazer matérias sobre eles. Logo na primeira visita que fiz, no presídio da rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, conheci um preso muito especial, o André Borges. Ele não era preso político inicialmente, foi preso por roubo a cofres de bancos, em 1958, anos antes da ditadura iniciada em 1964. Na cadeia, aprendeu a encadernar livros velhos, colocar capas novas neles, e assumiu a função de dar um jeito nos livros da biblioteca do presídio em que estava. Aproveitou para ler os livros que encadernava e quase todos eles foram deixados por presos da chamada Intentona Comunista. Começou a entender melhor porque tinha se tornado marginal, assim como outros presos colegas dele, e formou um grupo de estudos lá dentro. Virou um grupo de esquerda. O André acabou participando de uma fuga lá por 1969 ou 70 e cerca de dois meses depois foi preso de novo, mas voltou pra cadeia já como preso político. Antes de formar o grupo dentro da cadeia, mas já consciente, o André já tinha sido convidado para uma fuga de presos comuns, não políticos. Ele seria uma pessoa chave nessa história, pois sua função na época era cuidar do vestiário do campo de futebol que havia lá dentro. Não quis fugir, mas assegurou aos presos que não os denunciaria. Eles, então, cavaram um túnel de dentro do vestiário até a rede de esgotos. A fuga foi marcada para um domingo à tarde, no intervalo de um jogo entre dois times de presidiários. Era um dia de comemoração de qualquer coisa, e na plateia, assistindo ao jogo, estavam o diretor do presídio e um monte de autoridades. No intervalo do jogo, os times entraram no vestiário, passaram-se os quinze minutos regulamentares e não voltaram para o campo. Mais um pouquinho de espera e finalmente os agentes penitenciários foram ver o que tinha acontecido. Viram só aquele buraco no chão. Mas a surpresa maior foi numa avenida ali perto. Muitas pessoas viram espantadas uma tampa de bueiro se abrir e saírem dois times de futebol inteiros devidamente uniformizados correndo avenida afora. Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos.  

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“Bonde do Tarcísio”: espaço para direita delirante de Bolsonaro só cresce em São Paulo

Por Amaro Augusto Dorneles – do Diálogos do Sul Palácio dos Bandeirantes vai abrigar defensor de ditador, ex-integrante da Rota, político acusado de corrupção no melhor estilo da extrema-direita No sincopado embalo da transição do governador carioca Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, tem espaço para figuras como a do deputado que quis homenagear o ditador Augusto Pinochet na Assembleia e insultou o papa Francisco e o arcebispo de Aparecida chamando-os de ‘vagabundos’; a do ex-oficial da Rota na época dos banhos de sangue na periferia e é contra o uso de câmeras no uniforme dos policiais. São Paulo merece isso? Enquanto a nação acompanha pela mídia as escaramuças das hostes bolsonarianas na guerra militar por um terceiro turno – depois de perder a eleição no voto –, na transição para o novo governo de São Paulo, o que vemos é ao contrário, o clima é de paz e amor O PSDB, que largou o osso depois de 28 anos – troca figurinhas com Tarcísio de Freitas, bolsonariano do partido que se diz Republicano. O vice é Felício Ramuth (PSD). Plantado pelo ex-capitão no Palácio Bandeirantes, o carioca da gema saiu melhor do que a encomenda. Passou por cima do milenar preconceito quatrocentão contra nascidos na Guanabara. E por enquanto nada de braçada como se estivesse no Guarujá. Antes de mesmo da posse, ele já aprovou reajuste de 50% para a elite do serviço público. E para ele mesmo: o salário pula de R$ 23 para R$ 34 mil. O governador eleito está saindo melhor do que a encomenda. O Delegado Olim (PP) — relator do orçamento na Alesp — enalteceu o aumento à elite, em prejuízo dos salários baixos: “Estou aberto para discutir os ajustes que ele (governador) quiser”. Tudo no mais clássico estilo bolsonariano: nada para raia miúda. A bancada do PSOL não engoliu essa e ressaltou que o aumento de 50% é só para servidores que ganham o teto! A medida, com a outra mão, tira a possibilidade orçamentária de reajuste futuro para quem justamente ganha menos e mais precisa. Até o governador em exercício de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), vice de João Doria resolveu apoiar o carioca. Desde o começo da campanha, a promessa foi montar um governo técnico e competente — diametralmente oposto ao de Bolsonaro, que se cercou de aproveitadores e nulidades de seu quilate na máquina pública. Freitas se apresentou no pleito como nome capaz de fazer frente às investidas do ex-capitão nos postos de trabalho do serviço público estadual. Em 22 de novembro, Eduardo Bolsonaro (PL) encontrou-se com o dono do Bonde. A missão: negociar-extorquir a participação da “familícia” nesse rico latifúndio. Além de receber o quase diplomata, o novo governador paulista conversou com muita gente da mesma patota: Gil Diniz (PL) e Joaquim Leite, atual ministro do Meio Ambiente — cotado para ocupar o mesmo cargo em São Paulo (preparem-se!) — entre outros amigos, todos em busca de um cargo de secretário estadual, como Cesinha Madureira (PSD-SP), além de “infalíveis” líderes da bancada evangélica. O que não falta é seguidor do presidente de saída querendo mudar de mala e cuia para Sampa (Twitter | Reprodução) Epidemia de Ciúme e Cerejinha Tudo o que editorialistas da mídia hegemônica e quase metade dos paulistas mais temiam se tornou real. Com a porteira aberta, ficou mais fácil a boiada arrombar a festa do capitão Tarcísio. Em 23 de novembro, Afif Domingos, coordenador da transição de Tarcísio, anunciou 105 nomes para a equipe de transição. Mas a “cereja do bolo” estava reservada para dois dias depois, quando Gilberto Kassab, ex-prefeito da capital, presidente do PSD, foi anunciado como Secretário de Governo e que será encarregado de tratar a relação do Palácio Bandeirantes com a Assembleia Legislativa e, principalmente, com o Palácio Alvorada. Há meses ele costura um bom espaço no governo do PT e aliados. Sob sua responsabilidade, fica, igualmente, a área de articulação institucional e política do governo estadual. Como seria de supor, a ascensão de Kassab provocou uma epidemia de ciúme nas fileiras do governo que diz adeus — nunca mais. Inconformados de se verem destronados, a tigrada esperneia. Os mais indóceis pressionam pela revisão da escolha. A partir de 2023, seguidores do ex-presidente vão depender do presidente do PSD para faturar algo no estado. De origem libanesa, ex-ministro de Dilma Rousseff e Michel Temer, o homem forte de Tarcísio de Souza é economista, engenheiro civil, empresário, corretor de imóveis e político de rara habilidade. Casualmente, o último cargo político que exerceu foi o de Secretário da Casa Civil do Estado de São Paulo, em 2019, na gestão João Doria (PSDB). A recordação não é boa. Ele durou apenas três dias no emprego do governo. A edição do Diário Oficial do Estado trouxe decreto em curtas duas linhas autorizando o “afastamento” do secretário para “tratar de assuntos particulares”. Isso porque ele foi acusado de corrupção envolvendo a empresa JBS. Operação da Polícia Federal encontrou R$ 300 mil em sua residência. Em delação, foi acusado de receber propinas entre 2010 e 2016. Homenagem a ditador O que não falta é seguidor do presidente de saída querendo mudar de mala e cuia para Sampa. Tem até os evangélicos com promessa de serem aproveitados em áreas sociais. Nada mais lógico, afinal, eles sabem como induzir fiéis desesperados a fazerem doações para deus – que sabe retribuir como ninguém. Na infraestrutura, o espaço em princípio deve ser ocupado por nomes da confiança de Tarcísio. Pois é, mas mesmo com fama de “técnico”, ele escalou uma ‘joia’ do pensamento bolsonariano: Fernando Dávila, deputado estadual (PSL), e que é cotado para Companhia de Entrepostos e de Armazéns Gerais de SP, CEAGESP. D’Ávila ficou marcado em 2019 ao propor uma solenidade, na Alesp, para homenagear o mais sádico ditador do Novo Mundo, Augusto Pinochet. Que ninguém acuse essa “gema” de falta de coerência. Um ano depois, D’Ávila insultou o papa Francisco e Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, chamando-os de “vagabundos”. Reprodução/Twitter Não deve

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Indisciplina nas Forças Armadas impregna os quartéis brasileiros

Por Simão Zygband A leniência e, por que não dizer, cumplicidade para  não punir atos de indisciplina dos militares talvez seja um dos maiores desafios  que o governo do presidente eleito e diplomado Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará depois de sua posse, que o transformará novamente no comandante supremo das Forças Armadas. Elas foram totalmente contaminadas e, em alguns casos, beneficiadas pelo governo do capitão reformado (palavra tênue para designar encostado e punido por mau comportamento). Milhares do oficiais foram alçados a cargos na Administração Civil, percebendo polpudas remunerações, muitos deles acumulando vencimentos oriundos da Militar e também da Pública. Se não são consideradas ilegais, pode-se dizer que são imorais, sobretudo quando a nação possui alegada falta de recursos para combater a fome, que atinge a 33 milhões de brasileiros. O Construir Resistência teve acesso a um fato considerado irrelevante pelas autoridades, mas mostra o grau de comprometimento dos militares com o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro. Ele se deu nas eleições de 2018 e a não punição de atos de indisciplina como este se transformou no chamado ovo da serpente do fascismo brasileiro. A chefe da Divisão Médica do Quartel da Força Aérea de São Paulo, tenente-coronel Lorenza Barboza Freitas Zani, utilizou suas redes sociais para fazer campanha aberta em 2018 do capitão reformado Jair Bolsonaro. Ela, que já havia sido denunciada por obrigar os médicos da corporação a fazerem a prescrição de hidroxicloroquina para pacientes com sintomas de Covid durante a pandemia, medicamento sabidamente inócuo e ineficaz, também fez propaganda irregular do governante de extrema-direita. Sua atitude de médica dentro dos quartéis demonstra o desafio à recomendações médicas da OMS e total fidelidade às ideias fracassadas do atual presidente, cujo mandato expira pelo desejo popular no dia 31 de dezembro, responsável direto pela morte de 400 mil brasileiros por retardar a compra das vacinas que poderiam ter salvo milhares de vidas. A imposição da hidroxicloroquina, que o governo havia comprado aos milhões, torrando inutilmente o dinheiro público, serviu apenas para ser descartado na lata do lixo. Um dos crimes lesa pátria do genocida. Lorenza Zani não se deu ao trabalho sequer de apagar as mensagens que faziam campanha eleitoral aberta de Bolsonaro em 2018, contrapondo o decreto 76.322/75, assinado pelo presidente de triste memória, general Ernesto Geisel, que determina o Regulamento Disciplinar da Aeronáutica (RDAER), no Título II, capítulo I, que trata das Transgressões Disciplinares, em seu Art. 8º, a qualificando como “toda ação ou omissão contrária ao dever militar”. A tenente coronel  Lorenza Zani transgrediu ao fazer campanha aberta de Jair  Bolsonaro o artigo 71 (travar polêmica, através dos meios de comunicação sobre assunto militar ou político); e 72 (autorizar, promover, assinar representações, documentos coletivos ou publicações de qualquer tipo, com finalidade política, de reivindicação ou de crítica a autoridades constituídas ou às suas atividades); e 73 (externar-se publicamente a respeito de assuntos políticos) do Regulamento Disciplinar da Aeronáutica (RDAER). E não foi sequer advertida por isso. É importante lembrar que todo este desrespeito à Constituição Brasileira teve origem durante a deposição da presidenta Dilma Rousseff, vítima de um golpe de estado, quando o então deputado federal Jair Bolsonaro fez elogios ao torturador sanguinário, chefe do aparelho repressivo conhecida como OBAN, o coronel Alberto Brilhante Ustra, por ocasião da farsesca votação do impeachment da mandatária, quando deveria ter saído preso do Congresso Nacional, por fazer apologia da tortura, crime previsto no Código Penal. Em alguns casos, ele é inafiançável. Militares como a tenente coronel Lorenza Zani se sentiram assim autorizados a descumprir a lei, característica comum nos governos autoritários de extrema direita como é o de Jair Bolsonaro, um péssimo exemplo de cidadão e de ex-militar, que está ainda agora ajudando a conturbar a ordem contra a posse do presidente Lula em Brasília. É necessário desnazistizar as Forças Armadas e trazê-las de volta à sua finalidade Constitucional que é servir à Pátria e não se Servir dela, como acontece no governo fascista de Bolsonaro. Lula terá muito trabalho pela frente. Abaixo as postagens que se encontram até hoje no Facebook da tenente coronel da FAB, Lorenza Zani     Mensagem passada aos médicos do quartel da FAB em São Paulo pela tenente coronel, a médica Lorenza Zani por ocasião da pandemia  

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