Construir Resistência

16 de setembro de 2022

Precisaremos de um jipe, um cabo e um soldado para tirar o capitão do Palácio?

Por Fernando Castilho      Saiu a nova pesquisa Datafolha. Mais do mesmo, assim como as demais, Ipec, Quaest, etc. Os votos em Lula, Bolsonaro, Ciro e Tebet estão cristalizados e, por isso, se não houver nenhum fato novo, o petista papará a eleição, quiçá no primeiro turno, o que acredito. Há motivos. Muita gente receia declinar seu voto em Lula, seja nas conversas no trabalho e nas escolas, seja entre parentes e amigos, seja também quando tem que responder a uma das pesquisas de opinião, afinal, os casos de violência por parte de bolsonaristas estão se multiplicando perigosamente. É possível, portanto, que no dia 2 de outubro tenhamos a agradável surpresa de uma lavada do ex-presidente sobre o capitão. Espero, baseado no fato de que ainda há 4% que dizem que votarão em branco e 3% que não opinaram. Além disso, embora Ciro Gomes insista em levar sua candidatura até o fim, já há uma debandada de pedetistas em direção a Lula, já no primeiro turno. Outro fato a destacar neste texto é a blindagem que Bolsonaro adquiriu de seus seguidores. Há um ano escrevi que à medida que falcatruas fossem aparecendo, os cerca de 30% que o capitão tinha acabariam por derreter e só sobraria o núcleo duro do bolsonarismo, aqueles que, contra tudo e contra todos, continuam resolutos em seu apoio ao mito. Ledo engano. Nem as rachadinhas, nem a mansão do Flávio, nem os 107 imóveis, dos quais, 51 adquiridos com dinheiro vivo, abalaram a fé desse povo. Nem o comício custeado com dinheiro público no 7 de setembro, nem o termo “imbrochável” pronunciado num evento cívico no qual se esperava um mínimo de compostura do presidente, chocaram essas pessoas que se dizem patriotas. Nem as mais de 680 mortes por Covid-19, cuja incompetência ficou escancarada e em que não faltaram as imitações grotescas de pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio, produziram alguma indignação nesse grupo. As ameaças de golpe, pelo contrário, soaram bem-vindas a 30% da população que opta pelo fim da democracia, desde que seu mito continue no poder. Por incrível que pareça, nem os preços altíssimos dos alimentos e a volta da fome arranharam a imagem do capitão. Imagine se a corrupção no MEC acontecesse nos governos Lula ou Dilma. Mas como foi no governo do capitão, seus seguidores não deram bola. E agora, a cereja do bolo. Nem a redução de 60% dos medicamentos de distribuição gratuita teve o poder de revoltar principalmente os idosos que vivem à custa de remédios. Segundo o Datafolha, 33% dos eleitores votam em Bolsonaro. Ele não cresce nem diminui. Chegará assim ao dia 2 de outubro. Resta saber se aguardará os próximos dias conformado com seu destino. Se aprontará alguma coisa ou fugirá do país. O choro já começou numa entrevista em que afirmou que se recolheria, caso fosse derrotado. Mas também já acabou. Bolsonaro, embora afirmasse que passaria a faixa presidencial a Lula, jamais o faria, pois não é homem preparado para agir de maneira educada e civilizada. Há até a possibilidade de alguma grosseria, isso sim. Também não acredito que respeitará o resultado das urnas em caso de derrota em primeiro turno. O problema é que, se alegar fraude, todos seus aliados que estariam eleitos a cargos menores terão, forçosamente, que ver suas candidaturas serem também contestadas. O máximo que ele pode fazer é, como Trump, se recusar a levantar da cadeira. Mas aí, é só chamar um jipe, um cabo e um soldado para tirá-lo de lá à força.     Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada. Editor do blog Análise e Opinião.

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José Dumont e as Chuvas de Verão

Simão Zygband     Não existe nada mais triste na vida do que ser pego de surpresa. Se há algo que mexe profundamente com a nossa sensibilidade é presenciar algo impensável de uma pessoa por quem sempre tivemos respeito e admiração. Espero que se trate de um gigantesco equívoco, mas tudo leva a crer que não é. Prefiro não julgar as pessoas, sobretudo aquelas que idolatramos e que temos em bom conceito. Mas caiu como uma bomba na alma de todos os cinéfilos como eu (e também dos telespectadores das novelas globais, que não é o meu caso) a prisão do veterano ator José Dumont acusado de prática de pedofilia e estupro de vulnerável. Ele é acusado também de armazenar imagens de pornografia infantil. Foi preso em flagrante e a investigação segue sob sigilo. Também está sendo investigado por estupro de vulnerável. Ele teria mantido relações com um fã de 12 anos, a quem ajudou financeiramente. Este tristíssimo episódio lembra um brilhante filme brasileiro de 1977, o Chuvas de Verão, do diretor Cacá Diegues, um drama que traz uma icônica cena de amor entre dois personagens idosos, Jofre Soares e Miriam Pires, considerada revolucionária por mostrar o nu, o amor e o sexo na terceira idade. A atriz inclusive relutou em aceitar a personagem pela dificuldade de expor o seu corpo numa idade mais avançada. A obra entrou na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Não bastasse isso, o Chuvas de Verão tem paralelamente a história de um palhaço solitário e já decadente, o Lourenço, morador do subúrbio carioca, encenado pelo ator Rodolfo Arena, que estupra crianças. Em uma entrevista, o ator faz o seguinte relato sobre o seu papel no filme, que talvez tenha alguma semelhança com o caso de José Dumont: “O palhaço realmente adora crianças. Porque ele vive da criança e em geral ele é uma criança. Aliás, nós todos temos qualquer coisa da criança e se não tivéssemos, já teríamos acabado. Pois o Cacá leu nos jornais que em Recife um palhaço havia estuprado uma criança e colocou este fato na fita. Ele achou que eu seria a pessoa para fazer este personagem porque adoro criança. O palhaço Lourenço e o Afonso (Jofre Soares) são dois grandes amigos. E quando chega uma situação em que o Afonso é preso como suspeito do estupro. Ele vai e confessa o crime.” – O que o leva a fazer isto ? – Não sei, talvez pela solidão. Ele é um homem sozinho”. Acho que é isso. Solidão. Os psicanalistas acreditam que Dumont tenha sofrido algum tipo de abuso na infância. Mas nada justifica a pedofilia.

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“Prestar solidariedade à Vera envolve resgatar como viemos parar aqui”

Por Milly Lacombe – Colunista do UOL Vera Magalhães virou alvo da violência Bolsonarista. Não são lobos solitários que investem contra o corpo e a dignidade da jornalista. São agentes bem orientados por um tipo de lógica de morte que há mais de quatro anos controla esse país em todos os níveis. O Bolsonarismo precisa da violência de gênero como um vampiro precisa de sangue. Esse é um dos pilares que estruturam a sociedade que bolsonaristas querem erguer. Bolsonaro tem, mais do que um plano de governo, um plano de sociedade. Nessa sociedade bolsonarista, homens andam armados, mulheres se curvam. Nessa sociedade, florestas viram pó, corrupção tá liberada (chamam rachadinha que é para não assustar), pessoas negras não apitam muito, LGBTQs podem morrer porque não fazem falta. Nessa sociedade, a lógica é miliciana do começo ao fim. Vera Magalhães foi escolhida por essa turma para virar o rosto do inimigo. Vera Magalhães foi, durante os 16 anos de administrações petistas, oposição bastante eloquente. E, ainda assim, seguiu podendo falar abertamente o que pensava de Lula, de Dilma, do PT sem ser agredida. Também dizia o que achava de Sergio Moro, tão veementemente adorado que chegou a ser chamado por ela de enxadrista. A Lava Jato nunca teve um olhar mais atento por parte dela, que deixou de ver o enviesamento tão escancarado da operação. Enquanto Dilma foi alvo da fúria covarde da extrema-direita, Vera calou. Quando Cora Ronai e Miriam Leitão ridicularizaram a roupa e o andar de Dilma na posse, Vera calou. Quando a caravana de Lula foi recebia a pauladas no sul do Brasil, Vera disse que pedradas faziam parte da política. Quando Lula foi ao velório de dona Marisa, Vera debochou e sugeriu que casássemos com alguém que não fosse fazer comício em seu velório. Quando Manuela D’Avila foi 62 vezes interrompida no Roda Viva, Vera disse que era do jogo e que estava acostumada a atuar em ambientes cheios de homens, indicando que Manuela estava fazendo drama ao reclamar da impossibilidade de concluir um pensamento sequer. Quando Boulos foi contratado como colunista da Folha, Vera democraticamente sugeriu que ele fosse desligado dado que, segundo ela, Bolos estava associado ao banditismo. Prestar solidariedade a Vera envolve resgatar como viemos parar aqui. Viemos parar aqui quando naturalizamos a candidatura de um homem como Jair Bolsonaro e, para não eleger mais o PT, fingimos que ele era parte aceitável da política. Viemos dar aqui quando, em 2018, entrevistamos Jair Bolsonaro como se ele fosse um candidato absolutamente normal, apenas mais um na disputa. Viemos dar aqui quando escolhemos pegar tudo o que o deputado Bolsonaro havia dito e feito e classificar como piada. Viemos dar aqui quando elevamos Paulo Guedes à categoria de alguém inteligente e preparado. Viemos dar aqui quando resolvemos dizer que havia uma certa “ala moderada” entre os militares. Viemos parar aqui quando apoiamos o Impeachment absurdo de uma presidente legitimamente eleita. Quando elevamos os chiliques de Aécio Neves ao lugar do aceitável. Quando buscamos de todas as formas legitimar o afastamento de Dilma e fingimos não estar vendo o machismo e a misoginia nos ataques que ela sofria. Vera Magalhães não poderia estar passando pelo que está passando. Sua ideologia, suas simpatias políticas e seus afetos não justificam agressões, ataques, abusos, assédios. Apenas um país que já não mais opera democraticamente tolera esse tipo de violência. Prestar solidariedade a Vera Magalhães exige que refaçamos o caminho até aqui para que ele nunca mais se repita, e para que nenhuma outra mulher tenha que passar pelo que ela está passando. Que Lula seja eleito para que Vera possa, outra vez, fazer oposição sem ser destruída em sua dignidade e no seu direito de opinar. Título original: Prestar solidariedade a Vera Magalhães envolve visitar um passado recente

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