Construir Resistência

5 de setembro de 2022

O 7 de setembro das milícias palacianas

Por Simão Zygband   Nunca imaginei que a data cívica do 7 de setembro seria um dia apavorante para o país. Nem mesmo nos governos militares, que insistiam em demonstrar o poder das tropas e manter os brasileiros sob uma ditadura sangrenta, causou tanta apreensão como a que deverá ser “comemorada” na próxima quarta-feira. Tudo por que o elemento que ocupa atualmente a cadeira presidencial, um desajustado psiquiátrico, quer apavorar a nação com o fantasma sombrio de um suposto golpe militar. O dito presidente está virtualmente derrotado nas urnas e nem que todos os soldados marchem sobre a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, conseguirá a reeleição. Para isso, conclama párias como ele a apavorar no 7 de setembro. O povo não suporta mais o elemento, que se diz Comandante Supremo das Forças Armadas, mas nem de longe honrou a farda que vestiu quando foi militar, carreira interrompida precocemente por ter sido colocado na reserva por ter pretendido colocar bombas nos quartéis. Para azar do país, enveredou para a política, conseguindo cociente suficiente para se eleger vereador, trilhando uma obscura carreira parlamentar que o levou à presidência da República, com votos e articulação de inconsequentes como ele. Apesar de querer “celebrar” o 7 de setembro, de ter dado cargos com vencimentos polpudos ao oficialato das Forças Armadas, o elemento que ocupa temporariamente a cadeira presidencial tem vínculos mais evidentes com as milícias cariocas do que propriamente com atividades da caserna. Prefere se ligar ao lado podre do Exército, cuja história revelou torturadores sanguinários como o coronel Alberto Brilhante Ustra, a quem o bolsonarismo presta loas. Veja o que escreveu reportagem do portal The Intercept Brasil sobre o vínculo do clã com atividades milicianas: “Orgulhosa de ser militarista, a dinastia Bolsonaro nunca escondeu seu apreço pela milícia, grupos de paramilitares formados por ex-policiais, PMs, bombeiros e agentes penitenciários que torturam, roubam, traficam e dominam economicamente grande parte do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro ( o filho do “presidente”) já propôs inclusive a legalização desses grupos paramilitares. No início de seu segundo mandato na Assembleia Legislativa do Rio, em 2007, ele votou contra a instalação da CPI das Milícias, que entrou em pauta após um grupo de milicianos torturar por horas a fio uma equipe de jornalistas do jornal O Dia. A justificativa? Milícias não eram tão ruins assim e as pessoas são muito felizes em áreas dominadas por paramilitares. Em 27 anos de discursos como deputado na Câmara, Jair Bolsonaro defendeu milicianos “do bem” e grupos de extermínio pelo menos quatro vezes. A primeira, em 2003, ao defender grupos de extermínio: “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas.” Em 2008, ao criticar o relatório final da CPI das Milícias, Bolsonaro disse que “não se pode generalizar” ao falar de milicianos. Na época, a CPI pediu o indiciamento de 266 pessoas, entre elas sete políticos, suspeitas de ligação com grupos paramilitares no Rio. “Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e pior do que os traficantes. Existe miliciano que não tem nada a ver com ‘gatonet’, com venda de gás. Como ele ganha 850 reais por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade. Nada a ver com milícia ou exploração de ‘gatonet’, venda de gás ou transporte alternativo. Então, Sr. Presidente, não podemos generalizar.” Jair Bolsonaro, vale lembrar, foi o único presidenciável a não se manifestar sobre a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes. E Flávio Bolsonaro foi o único deputado que votou contra a vereadora assassinada receber a medalha Tiradentes como uma homenagem póstuma”.

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Por que a arma travou?

Por Fernando Castilho    Ainda nos surpreendemos com o que já não deveríamos. Depois do bolsonarista que invadiu a festa de aniversário de um petista e o matou com uma arma de fogo, não seria surpresa que outro apoiador de Jair Bolsonaro ousasse eliminar mais alguém da esquerda, tão odiada pelo seu mito. A escolhida da vez foi a vice-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner que, além de ser parte importante de um governo de esquerda, é mulher. E todos sabemos que o capitão odeia as mulheres, principalmente aquelas que se sobressaem aos homens. Mas a pergunta que não quer calar é: POR QUE A ARMA TRAVOU? Bolsonaro, desde antes do início de seu governo, vem insuflando o ódio entre uma população que parece desejar o retorno aos tempos pré-estado, quando havia uma guerra de todos contra todos. Para isso, extraoficialmente, criou até um gabinete do ódio. A penetração da ideologia das armas nas igrejas evangélicas, instrumentalizada por pastores milionários que não acreditam em Cristo, mas no dinheiro, fez com que um grande número de fiéis esquecesse da máxima que prega oferecer a outra face a quem nos agride. Desta forma, o ódio contra aqueles que são diferentes, contra a esquerda e, mais especificamente, contra Lula e o PT, cria uma legião de lobos solitários que só estão no aguardo de uma ordem ou de uma insinuação de ordem para fazerem o serviço sujo de seu messias. Mas, POR QUE A ARMA NÃO DISPAROU? Bolsonaro adotou o discurso de guerra que diz que há uma luta do bem contra o mal e que ele representa o bem. Portanto, todos os que a ele se opõem, são o mal. Cristina Kirchner, por ser de esquerda e mulher, é a face bem-acabada do mal. Só faltou ser negra e homossexual. Desta vez o instrumento do capitão Messias foi o lobo solitário, Fernando André Sabag Montiel, um bolsonarista convicto que tentou eliminar o mal, segundo seu mito. Então a arma deveria ter disparado, mas POR QUE TRAVOU? Os evangélicos que veem em Bolsonaro um messias, até pelo sobrenome, e que, por isso, acreditam que ele é um enviado de Deus, deveriam fazer essa pergunta. Se Fernando Sabag agiu como instrumento do messias e este age como instrumento de Deus, mais uma vez, POR QUE A ARMA NÃO DISPAROU? POR QUE A ARMA TRAVOU? Fernando Castilho é arquiteto e professor. Criador do blog Análise & Opinião

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Rejeição da nova Constituição chilena mostra fragilidade da esquerda latino-americana

Por Carlos Eduardo Pestana Magalhães   A rejeição da nova constituição chilena por larga margem de votos – 62% a 39% -, mantendo em vigor a constituição elaborada pelos militares durante a ditadura do Pinochet, mostra a fragilidade da esquerda latino americana mais uma vez. O atual governante, o socialista presidente Gabriel Boric, eleito com boa margem de votos, e sua coligação de partidos da esquerda, não conseguiram fazer frente a enxurrada de fake news espalhadas durante o processo eletivo. A direita chilena sempre foi muito forte e capaz, usou e abusou das mentiras. O fato de terem quase total controle da grande mídia do país andino facilitou essa manobra bem característica da direita fascista em todo planeta. Conseguiu reverter as expectativas e convencer o eleitorado que a manutenção da constituição militar, da ditadura, era melhor do que a nova. Perderam os chilenos, de novo. Perderam a chance de terem uma das mais modernas constituições do planeta, de garantirem saúde, educação, aposentaria e outras qualidade de vida garantidas na carta magna, sob administração do governo federal. Ganharam os bancos, o sistema financeiro internacional, as empresas privadas de saúde, educação, aposentadoria etc. O que aconteceu no Chile, poderá acontecer no brazil se houver um segundo turno. A direita fascista do país, detentora dos meios de comunicação, donas da grande mídia, com muito dinheiro para comprar quem quer que seja, não importa em que esfera da sociedade, fará a mesma coisa. A derrota da esquerda chilena, associada a tentativa de matar a vice presidenta argentina Cristina K., é mais um sinal de não há cachorro morto nesta história. Se Lula ganhar no primeiro turno a realidade será uma. No segundo turno, caso ganhe, a possibilidade de levar é bem remota, estará amarrado de todos os lados, mais ainda do que está agora. O genocida num segundo turno tem enormes chances de ganhar, não importa o que se faça para alcançar este objetivo Vale tudo e mais um pouco…   Carlos Eduardo Pestana Magalhães é jornalista e membro da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo

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Ódio de facção da imprensa engatilhou a arma contra Cristina Kirchner

Por Moisés Mendes   Os mais contundentes textos publicados na Argentina, logo depois do atentado contra Cristina Kirchner, não atacam o agressor que empunhou o revólver. São dirigidos a outros agressores, muito mais poderosos, membros de facções da imprensa e articulados com a política de direita e extrema direita e o Judiciário, mesmo que todos sejam hoje a mesma coisa. O jornalista Víctor Hugo Morales perguntou no jornal Página 12: quem segura a arma apontada para Cristina? E respondeu: Patricia Bullrich, Mauricio Macri e Elisa Carrió. Líderes do que já foi a direita argentina são hoje lideranças do fascismo que orienta promotores e juízes na caçada a Cristina, como fizeram aqui com o lavajatismo que caçou Lula. O outro artigo, do jornalista e escritor Mempo Giardinelli, no mesmo Página 12, aponta os nomes dos agressores que não aparecem segurando a mão do homem que tenta matar Cristina. São jornalistas conhecidos no país como defensores dos interesses dos poderosos, que ele chama apenas pelo sobrenome, porque basta: Leuco, Majul, Rossi, Lanata. Diego Leuco ficou famoso mundialmente, no auge da pandemia, em agosto de 2020. Sem perceber que estava sendo focado pela câmera, o sujeito comemorou ao vivo na TV TN, do grupo Clarín, o aumento de mortes pela Covid na Argentina. Os outros são da mesma turma. Giardinelli escreve sobre os colegas: “Quero expressar meu mais profundo e sincero desprezo pelo seu miserável comportamento jornalístico nos últimos anos, semeando ódio e ressentimento, fabricando mentiras e incitando uma sociedade que só precisava – e ainda precisa – de paz, democracia e serenidade”. Morales e Giardinelli mostram como o poder de transformação da direita empurrou líderes conservadores para a extrema direita e para a violência que se manifesta nas ruas. O atentado é o episódio anunciado pela fascistização da política. Jornalistas alinhados com o que era a oposição ao peronismo hoje são parte do bolsonarismo argentino. São reproduzidas lá e cá, com muitas semelhanças, as reacomodações da grande imprensa, com aumento da radicalização e desprezo pelo que restava de escrúpulos. A grande imprensa argentina fomentou e ajudou a criar o fascismo, com uma diferença em relação ao Brasil, onde levaram sem querer a família Bolsonaro e os milicianos ao poder. Lá, as corporações de imprensa, o poder econômico e poder político de direita e de extrema direita se confundem, enquanto aqui o fascismo ainda evolui à parte da elite que o criou e que ajuda a mantê-lo com o ódio contra Lula. A Gangue do Golpe, formada por jornalistas que ajudaram a derrubar Dilma e a encarcerar Lula, movimenta-se sem perspectivas, diante do fracasso da terceira via, da sobrevida de Bolsonaro e da proximidade de retorno de Lula ao poder. Clarin e Nación, os grupos midiáticos da guerra contra o peronismo e o kirchnerismo, fazem lá o que Folha, Globo e Estadão fazem aqui. Aqui, os três só não são componentes orgânicos da extrema direita, como foram da ditadura e dos torturadores, porque Bolsonaro os rejeitou. As facções que ofereceram munição e acionaram o gatilho da arma apontada para Cristina têm equivalentes no Brasil, com diferenças de detalhes. Na essência, usam as mesmas táticas e têm e mesma índole. São praticantes de um jornalismo miserável e muitas vezes criminoso.   __________________________________________________   O ENTREVISTADO Um dia depois do atentado contra Cristina Kirchner, a correspondente da Folha em Buenos Aires, Sylvia Colombo, entrevista um senador, para saber o que está acontecendo na Argentina. E quem ela foi ouvir? Luis Naidenoff, da Unión Cívica Radical, que faz oposição ao kirchnerismo e ao peronismo. O Senado tem 72 integrantes, e a jornalista foi ouvir exatamente um inimigo político da vítima. E a vítima é a presidente do Senado. __________________________________________________   QUEM MATA PRIMEIRO Dois dias antes do atentado contra sua mãe, o deputado de Frente de Todos Máximo Kirchner disse que o macrismo “recorre à violência” contra as manifestações de apoio a Cristina “porque faltam ideias” e porque “querem obter insígnias de caubói” em resposta a uma reação das ruas. “Estão vendo quem mata o primeiro peronista, quem bate nas crianças, quem tira um distintivo de caubói”.     Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre (RS). É autor do livro de crônicas Todos querem ser Mujica (Editora Diadorim). Foi colunista e editor especial de Zero Hora

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