Construir Resistência

9 de junho de 2022

Dois mundos

Por Virgilio Almansur As taras que envolvem nosso morticínio têm — nessa parcela hedionda da população que somam 30% — uma cumplicidade insanável! Se o apoio ao miliciano-mor continua nessa porcentagem, difícil continuar respirando por aqui. Impossível, ainda, que nos ombreemos a essa gentalha que assiste execuções, câmara de gás e bate palmas aos passeios alucinados de motos carregando figuras desclassificadas num país destroçado pela fome, enchentes e desemprego. Como é que se ri num momento como este? O riso sardônico na imitação daqueles entubados na Covid já dera um sinal: a ausência completa de empatia! Mas muito mais: o sofrimento do outro lhe cai bem! O exemplo, por mais pedagógico que o seja, não compensa a execração. Saber que uma parcela de nossa gente impõe esse apatheid desumano, onde uma cervejinha e um churrasquinho de gato sugerem bem estar, é quase o fim dos tempos. Nesse limiar entre as frações de classe média e o desterro completo, ainda encontramos os componentes fascistóides por excelência. Mas ali estão a ausência da educação, das razoáveis formações e o completo niilismo de existência. Difícil aceitar que na quase totalidade das frações burguesas, ascendinas ou não, permaneçam figuras tão estúpidas de razoáveis a excelentes formações. Estamos sendo co-partícipes e assistindo a tudo com pouca ou nenhuma reação. Nosso masoquismo é visível! É um problema econômico: fazemos economia de afetos tornando-os menos dispendiosos; congelamos e hibernamos nossos sentimentos! Estamos incorrendo em incoerência econômico-psíquica, não permitindo o funcionamento adequado de uma direção de energias que enfrentem o descaso conosco mesmos! Não estamos considerando nada patológico. Trata-se da hipertrofia de uma estrutura de base, voltada a nos poupar, mesmo que sobrevenha a você, eu, nós, uma ameaça. Estamos impondo a nós mesmos uma derivação tanática, destrutiva, mortal! Sim: carregamos um certo reduto de energias desorganizadas que se impõem ao nosso narcisismo impotente! A desvantagem é tanta, que fazemos pronunciar em nós mesmos a destruição! Nenhum narcisismo, enquanto satisfatório, inerente e até salutar, sobrevive ao poderio tanático; ainda mais com o indefectível sentimento inconsciente de culpa. Já não há tanto mistério: estamos buscando dor! Estamos em busca do desprazer por economia psíquica! Estamos assistindo de camarote a mortandade que nos assola. Já não é tão somente uma advertência. É objetivo!!! Estão rindo na cara dura! Quem??? Esses 30% que continuam aplaudindo a morte, a destruição, a venda desse país na bacia das almas. Deixamos há muito de ser espartanos e ficamos atenienses demais. Perdemos a vergonha!   Virgilio Almansur é médico, advogado e escritor.

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Onde estão Bruno e Dom, Bolsonaro?

Por Ruy Castro na Folha de S.Paulo O mundo não demora a lhe fazer esta pergunta   Parabéns, Bolsonaro, você conseguiu. Depois de três anos dedicado a entregar a Amazônia aos barões do desmatamento, garimpo, caça e pesca ilegais; aos invasores de terras, envenenadores de rios, algozes dos indígenas e abusadores de suas mulheres, pistoleiros profissionais e traficantes de ouro, madeira, animais e, agora, cocaína; a desmantelar a fiscalização que impedia a destruição da floresta; e a prostituir os ramos locais do Ibama, da Funai, da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Exército, sua obra atingiu um novo clímax: o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Que, à espera só da confirmação, já podem estar mortos desde domingo. Tudo leva a essa conclusão: seus celulares não conseguem ser rastreados; o barco também desapareceu; e o sumiço se deu numa área limitada e familiar. Some a isso o histórico de ameaças a Pereira e a patada desfechada por você no próprio Phillips, numa entrevista em 2019, lembra-se? “A Amazônia é do Brasil, não é de vocês!”. Mas a Amazônia não é mais do Brasil —Bruno, por exemplo, é brasileiro. Os assassinos de Bruno e Dom, se já estavam certos da impunidade, viram-se ainda mais seguros diante do corpo mole das autoridades e do seu desprezo presidencial pelo caso, ao culpar os dois pela “aventura” e emitir um diagnóstico que nos envergonha como nação: “Eles podem ter sido executados”, disse você, com notável tranquilidade. O apagamento de brasileiros como Bruno Pereira é regra nessa Amazônia sem lei. Mas Dom Phillips é um cidadão britânico, credenciado por organizações internacionais de proteção ao meio ambiente e jornalista ligado a dois veículos poderosos: o inglês The Guardian e o americano The New York Times. Eles não deixarão barato e, de repente, você periga ter de engolir mais do que poderá mastigar. O mundo já quer saber, Bolsonaro: onde estão Bruno e Dom? Ruy Castro jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.  

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Transmissão da covid-19 cresce novamente em São Paulo

    Novo aumento na média diária de casos e internações mostra que vírus continua circulando amplamente na população   Por Herton Escobar – Jornal da USP Os dados da semana epidemiológica mais recente (29 de maio a 4 de junho) revelam um novo aumento na transmissão do vírus da covid-19 no Estado de São Paulo. As médias diárias de novos casos e internações aumentaram 29% e 45%, respectivamente, em relação à semana anterior, o que indica que o vírus continua circulando amplamente na população paulista. O número de pacientes com quadros graves de covid-19 internados em UTI no Estado aumentou de 747 para 1.020 nesse período de sete dias. Já o número de internados em enfermarias (representando casos leves da doença) aumentou de 1.730 para 2.333, segundo dados do Comitê Científico, que acompanha a evolução da pandemia no Estado, e reproduzidos no Boletim Epidemiológico USP-Covid desta semana. A média de mortes por covid-19 caiu de 39 para 29 óbitos/dia no Estado — uma redução de 26% em relação à semana anterior. Segundo especialistas, a queda pode estar relacionada à imunidade conferida pelas vacinas (que protegem principalmente contra quadros graves da doença), mas também a uma instabilidade no sistema de informações sobre a pandemia do Ministério da Saúde, que pode ter causado um atraso no registro das notificações de óbitos na semana passada. A situação em São Paulo reflete uma tendência nacional de aumento na transmissão da covid-19, que especialistas acreditam estar relacionada à flexibilização do uso de máscaras e à retomada das atividades presenciais de uma forma geral, somadas à predominância da subvariante ômicron BA.2 do novo coronavírus, que vem mostrando capacidade de transmissão ainda maior que a subvariante BA.1, responsável pela forte onda dos primeiros meses de 2022. A Comissão Assessora de Saúde da USP informou que tem recebido demandas de diversos dirigentes para reforçar as recomendações de defesa sanitária na universidade. Com base nas informações deste último boletim, a comissão deverá se reunir nesta sexta-feira, 10/6, para elaborar um comunicado a ser divulgado pelo reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior, esclarecendo a situação à comunidade universitária e reforçando a necessidade de manutenção das medidas vigentes. O uso de máscaras é obrigatório em ambientes fechados da universidade. As máscaras também seguem obrigatórias no transporte público e nos serviços de saúde, por determinação do Estado, e voltaram a ser recomendadas em ambientes fechados desde 31 de maio. Em ambientes abertos o uso não é obrigatório, mas também recomendado, sempre que houver aglomeração de pessoas. Cerca de 94% da população paulista acima de 5 anos está com esquema vacinal completo (pelo menos duas doses ou dose única), incluindo 61% das crianças com até 11 anos. Especialistas reforçam, porém, que é preciso aumentar ainda mais essa cobertura, especialmente diante do aumento na transmissão do vírus. A vacinação infantil é essencial para a proteção de crianças e adolescentes, e a dose de reforço é fortemente recomendada para todos os adultos elegíveis. Lembrando também que apenas pessoas vacinadas estão autorizadas a frequentar os campi da USP, e que a comprovação da dose de reforço passará a ser obrigatória para alunos, funcionários e docentes da universidade a partir do segundo semestre deste ano. O Boletim Epidemiológico USP-Covid é publicado toda quarta-feira. Mais informações no site USP Retorno Seguro: https://retornoseguro.usp.br.    

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O ventou virou: Bolsonaro e Moro fora de combate sem saber para onde correr

Por Ricardo Kotscho – colunista do UOL Imagem: Marcos Corrêa/PR Quando o ano eleitoral começou, Jair Bolsonaro ainda era o todo-poderoso capitão, ameaçando o país com sua reeleição, montado agora no orçamento secreto do Centrão, e no tripé teocrático-militar-empresarial que o levara à vitória em 2018. Estava tudo preparado para repetir a trágica dose, antes que fosse engolido pela inflação galopante e o derretimento do governo. Como outsider desafiador, surgia do nada no cenário o seu ex-aliado Sergio Moro, embalado pelas viúvas da Lava Jato na mídia, mas já sem a aura de “herói nacional”, depois de ser desmascarado pelo STF. Entrou num pequeno partido, trocou de partido, e sumiu do mapa, junto com a chamada “terceira via” No meio do caminho, ambos tropeçaram num inimigo comum, o ex-presidente Lula, que insistia em liderar todas as pesquisas, desde a primeira, exatamente como acontecera na campanha anterior, antes de ser preso por Moro, que deixou o caminho livre para Bolsonaro, de quem virou ministro. Como diria Galvão Bueno, quando o Brasil levou a virada da Holanda na Copa de 2010, na África do Sul, ” o momento já foi mais favorável” para a dupla associada na destruição do país, numa luta insana pelo poder a qualquer custo, que deixou os dois em campos opostos, mas muito próximos. Com o rabo entre as pernas, depois de ser humilhado pela Justiça na terça-feira, por fraudar o domicilio eleitoral em São Paulo, onde queria ser candidato ao Senado, Moro agora volta para o Paraná sem saber o que fazer da vida, garantindo que não vai “desistir do Brasil”. Na verdade, foi o Brasil que desistiu dele. No mesmo dia, Bolsonaro enlouqueceu de vez com a nova derrota sofrida no Supremo Tribunal Federal, que manteve a cassação do seu aliado Fernando Franceschini por divulgar fake news sobre as urnas eletrônicas, o que criou jurisprudência sobre o assunto.. Para defendê-lo, num discurso sem pé nem cabeça, o presidente nem percebeu que se tornou réu confesso do mesmo crime: “Esse deputado não espalhou fake news, porque o que ele falou na live eu também falei para todo mundo: que estava havendo fraude nas eleições de 2018”. E, para não variar, ameaçou a imprensa no Dia Nacional da Liberdade de Imprensa: “Se for para punir por fake news a derrubada de páginas, fecha a imprensa brasileira, que é uma fábrica de fake news, em especial Globo e Folha”. Prestes a explodir de raiva, ainda chamou o ministro Edson Fachin, presidente do TSE, de “marxista-leninista”, provavelmente sem saber o que é isso, e disse que quem ganha eleições no Brasil é “quem é amigo dos ministros do TSE”. Antes de concluir, ainda avisou que não vai mais cumprir as decisões do Supremo. Para completar seu infortúnio, hoje foi divulgada mais uma pesquisa em que Lula pode decidir as eleições já no primeiro turno, como tinha indicado o último Datafolha, com mais intenções de votos do que todos os outros juntos. Na nova rodada da Quaest Consultoria contratada pela Genial Investimentos, Lula tem 52,87% dos votos válidos. Vence Bolsonaro por 46% a 30%, no primeiro turno e, se houver segundo, abriria 22 pontos de vantagem sobre o capitão (54% a 32%). Na pesquisa espontânea, Lula tem 32% contra 20% de Bolsonaro, que só vence na coluna rejeição (60% a 40%). Ciro Gomes mantém-se firme na faixa de 7% e, a seguir, aparece André Janones (2%), com o dobro de Simone Tebet (1%), a candidata que sobrou na falecida terceira via, depois das desistências de Sergio Moro e João Doria. Se ainda quiser garantir o foro privilegiado, só resta a Moro disputar uma vaga de deputado federal pelo União Brasil, no Paraná, onde sempre morou, e de onde saiu para Brasília, sonhando com uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. De lá para cá, só caiu do cavalo. A modéstia e o tirocínio político nunca foram o forte do ex-juiz de primeira instância. O vento virou. Em algum momento desta campanha presidencial, não sei precisar exatamente quando, parece que a maioria do eleitorado acordou para a realidade de um país aonde 33,1 milhões de brasileiros estão passando fome, 14 milhões a mais do que no ano passado. Bolsonaro e Moro provocaram um gravíssimo acidente de percurso na vida brasileira, mas em poucos meses poderão voltar ao anonimato das catacumbas da infâmia de onde nunca deveriam ter saído. Vida que segue.   Nota da redação: este texto foi publicado originalmente na coluna do portal.UOL. O Construir Resistência tem como prática não reproduzir artigos da imprensa privada e golpista, mas abre exceções para textos de jornalistas não alinhados com o golpe.

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