Construir Resistência

5 de junho de 2022

A jovem poética de Garcia Lorca

  Quando muito jovem, me apaixonei pela poética do andaluz Federico Garcia Lorca, que faz aniversário hoje, e segue estranhamente vivo na memória dos melancólicos.   Li Garcia Lorca andando nas praias cinzentas do inverno paulista, sob o vento frio que sobe das geleiras antárticas.   Viveu imensos 38 anos, como artista completo, pintando, compondo, tocando, escrevendo. Impacta o mundo até hoje com suas tragédias.   A última delas – A Casa de Bernarda Alba – tem a atmosfera densa do queijo ou do cimento fresco. Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela. Os nomes já compõem um poema dentro da prosa.   Creio, sem provas, que tenha sido assassinado pelos golpistas, em razão de sua simpatia pela Frente Popular, a coligação progressista da esquerda republicana. Era 1936…   Ao mesmo tempo, considero que foi eliminado por conta de sua orientação sexual, motivo de ódio dos falangistas, com os quais ele não tinha intenção de manter qualquer contenda.   Garcia Lorca é dessas poucas figuras que conquistaram a plena e eterna juventude, mesmo longe da fonte de Ponde de León. Ainda hoje, mergulho na dúvida e me espanto com estes versos:   A rosa não buscava a aurora: quase eterna no ramo buscava outra coisa.   A rosa não buscava ciência nem sombra: confim de carne e sonho, buscava outra coisa.   A rosa não buscava a rosa: imóvel pelo céu buscava outra coisa.   * Para completar, ouça um poema de Garcia Lorca musicado pela grande cantora Vanessa Bumagny, nossa companheira de lutas. https://www.youtube.com/watch?v=XeDlxs91Hv4  

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Fragmentos do perigo no amor fascista

Ontem, 4 de Junho, foi aniversário de Geli Haubal (1908 – 1931), vítima de infausto destino, o que deveria ter rendido um texto. O atraso, porém, não elimina a necessidade de se tratar do tema.   Num dia desses, um internauta otimista alegou que os fascistas também amam. E outro, generoso, emendou que “qualquer forma de amor vale a pena”.   De espírito livre, procurei encontrar a virtude na relação entre o supremo mandatário pindorâmico e sua atual esposa.   De fato, parece haver, no mínimo, cooperação e fidelidade estratégica. Ela desconta cheques do assessor laranja e parece em sintonia com a tradição de operações financeiras de sua família, emulando os saberes do tio delinquente.   Mas deixemos de lado, por enquanto, o habitante do Planalto. Falemos de seus ídolos, especialmente aquele que o inspirou a promover desfiles equestres e motociatas. Benito Mussolini conheceu a bem-nascida Ida Dalser em Trento, no norte da Itália, quando ele ainda não era grande coisa.   Ela era dedicada e até vendeu seu luxuoso salão de beleza para financiar o jornal de seu cara-metade. Uniram-se em 1914 e, no ano seguinte, nasceu Benito Albino Mussolini.   Começou a I Guerra Mundial, Mussolini se alistou e Ida até recebia a pensão de guerra distribuída pelo então Reino de Itália. Ferido, no entanto, o futuro Duce foi para Treviglio e logo se casou com Rachele Guidi, filha de uma amante de Alessandro, seu pai viúvo. Era, portanto, uma espécie de irmã não consanguínea.   Mussolini decidiu, então, abandonar a primeira mulher, e fez tudo que podia para apagar os registros desse período de sua vida. Quando chegou ao poder, no início da década de 1920, Ida Dalser e seu filho caíram sob forte vigilância da polícia.   Ela não se calou. Revelou que o ex-parceiro não era apenas um péssimo pai de família, mas também um traidor da pátria, capaz de aceitar suborno dos franceses com a promessa de trabalhar por um alinhamento da Itália com a Tríplice Entente.   Ida acabou conduzida à força a complexos psiquiátricos, nomeada como louca. Gaslighting da barbárie. Morreu em um desses hospitais, em Veneza, em 1937. Disseram oficialmente que foi vítima de uma hemorragia cerebral.   O jovem herdeiro, Benito Albino Mussolini, foi adotado por um chefe de polícia. Insistindo em se apresentar como filho do supremo líder da nação, foi também recolhido a um hospital psiquiátrico, onde morreu em 1942, aos 26 anos.   Rachele Guidi, mulher de personalidade forte e seguidora da ideologia fascista, fazia-se de boa esposa e tolerava as frequentes puladas de cerca do marido, que se gabava de suas performances sexuais.   Quando o ditador foi capturado pelos partigiani, em 27 de abril de 1945, não viajava com Rachele, mas com a amante Clara Petacci. Pior para os dois. Foram ambos fuzilados em Mezzegra; depois, seus corpos foram pendurados de cabeça para baixo em um posto de gasolina na Piazzale Loreto, em Milão. O povão fez deles bonecos de malhação de Judas.   Os amores de Hitler não foram menos dolorosos para as parceiras. Sua grande paixão foi a já citada Geli Haubal, uma inquieta e alegre sobrinha, filha de sua meia irmã, Angela.   Extremamente controlador e possessivo, o líder alemão a aterrorizou durante anos. Quando iniciaram o affair, ela tinha 17 anos; ele, 36 anos. Sim, mantinham relações íntimas. Ele supostamente adorava quando ela urinava sobre ele.   Em 1931, aos 23 anos de idade, depois de uma série de crises no relacionamento, Geli morreu com um tiro no coração, projétil disparado desde a pistola do próprio tio amado. Oficialmente, foi suicídio. Muita gente acredita, todavia, que tenha sido assassinada.   Três anos antes, em 1928, outra amante de Hitler havia tentado o suicídio. Maria Reiter era 21 anos mais jovem que o líder nazista. Tinha 17 anos quando tentou se enforcar e foi salva, já em agonia, por seu irmão.   A mulher oficial de Hitler, Eva Braun, era 33 anos mais nova do que ele. Morreu em 30 de abril de 1945, ao lado do esposo, 40 horas depois da oficialização do casamento. Suicídio, de novo. Cianureto de cumplicidade.   Para por aí? Não, tem mais. Unity Mitford era uma socialite inglesa meio abobada, filha do controverso Lord Redescale, malvado proprietário de terras e simpatizante do fascismo.   Mesmo ridicularizada por seu ídolo, Unity procurava adulá-lo e servi-lo sexualmente. Um dia, em 1939, Hitler decidiu não encontrá-la mais.   De birra, Unity foi a uma praça de Munique e deu um tiro na própria cabeça. Os passantes lograram acudi-la. Morreria nove anos depois, de uma complicação decorrente dessa tentativa de suicídio.   Não, não acabou. Outra amante ocasional de Hitler foi a bela e talentosa cantora e atriz alemã Renate Müller, que os nazistas sempre quiseram utilizar em suas propagandas.   Em várias ocasiões, teve encontros íntimos com o líder nazista. Como não era dada a guardar segredos, revelou os hábitos sinistros do parceiro eventual. Disse que ele gostava de ficar nu e ser chutado, na posição de escravo sexual. Nos relatos que chegaram até nossos dias, há menções até de coprofagia. Supostamente, Hitler comia merda para se excitar.   Essas revelações custaram caro a Renate, que começou a ser perseguida pelo regime. Em pânico, entregou-se às drogas e ao álcool. Em outubro de 1937, vivia em uma clínica de reabilitação quando recebeu uma visita de agentes da Gestapo. Minutos depois, estava morta, supostamente por ter saltado do alto do prédio. De novo, suicídio ou assassinato?   O vivendeiro segue o padrão. Tampouco deve ser partido seguro. Referindo-se à primeira mulher, declarou publicamente:   – Nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la várias vezes.   Evidentemente, ele também precisa estar no controle para manter suas parcerias afetivas. E assim justificou o rompimento:   – Meu primeiro relacionamento despencou depois que a elegi vereadora, em 1992. Ela era uma dona de casa. Por minha causa, teve sete mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas,

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Repórter é ameaçado de morte após revelar esquema de fake news pró- Bolsonaro

Matéria compartilhada do Congresso em Foco O jornalista Lucas Neiva, do Congresso em Foco, virou alvo de ameaças de morte e teve dados pessoais vazados após a publicação de uma reportagem de sua autoria, nesse sábado (4), em que denuncia a tática de um fórum anônimo para produzir fake news em favor do presidente Jair Bolsonaro. Depois de ameaçar, o grupo também atacou e derrubou o Congresso em Foco nesta madrugada, situação que perdurou até por volta das 9 horas deste domingo (5). “Parece que alguém vai amanhecer morto”, escreveu um dos usuários. “Eu ri do jornalista esfaqueado em Brasília e queria que acontecesse mais”, acrescentou outro no site 1500chan, o mais ativo imageboard brasileiro. Nas mensagens também são tramados ataques à honra do repórter com fake news, em uma espécie de campanha de difamação. LEIA a reportagem completa em https://congressoemfoco.uol.com.br/area/pais/reporter-e-ameacado-de-morte-apos-revelar-esquema-de-fake-news-pro-bolsonaro/?utm_source=pushnews&utm_medium=pushnotification Foto:  Congresso em Foco

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“Fotos são como canções, elas ficam, os autores se vão”

Por Cláudio Rossi   Trinta anos agora. Sábado 13 de julho de 1990, trinta anos atrás, em uma manhã de inverno fria e úmida, eu me deparava com um cenário de uma pequena guerra em uma delegacia na cidade de Guarulhos, envolvida em uma rebelião. Quando pusemos os pés na unidade, eu e a repórter Cristiane Barbieri, uma equipe da tropa de Choque da Policia Militar Paulista, sufocava a rebelião, gritos e barulhos de disparos de bombas de gás lagrimogêneo eram ouvidos. Não tinha muito o que ver/fotografar ali onde estávamos, a ação estava acontecendo no pátio onde ficavam as celas e os presos, foi então que me separei dos demais colegas e comecei a explorar o lugar, uma porta então se abriu e entrei na cena: a tropa de choque, fazendo a contagem dos presos, todos nus de costas para as paredes. A foto foi primeira página do jornal em que eu trabalhava, O Globo. Naquele domingo, 14 de julho, ela ganhou vida própria, entrou no serviço noticioso da agência Globo, correu meio mundo, foi publicada em inúmeros veículos de comunicação, e me foi concedido o então valioso e cobiçado Prêmio Esso de Fotografia. Em 1999, na virada do milênio ela foi escolhida pelo Globo como uma das fotos mais importantes produzidas naquele século do seu acervo de imagens, participando de uma exposição coletiva organizada pela agência francesa France Press (AFP). Fotos são como canções, elas ficam por ai, os autores se vão elas permanecem, congelam um acontecimento, uma fração de uma realidade em movimento. A imagem dos presos rebelados nos conta de um período em que rebeliões em cadeias e até mesmo em penitenciárias eram muito comuns, culminando com a maior delas, a do Carandiru, onde 111 condenados foram abatidos. Essa foto para mim foi um presente, uma passagem para a maioridade profissional de um fotojornalista, que iniciava uma nova etapa em sua vida pessoal e profissional. Cláudio Rossi é fotógrafo profissional com 40 anos de atividade continua, fotojornalista por excelência passou boa parte desses anos trabalhando para jornais e revistas, em 1991 foi contemplado com o Prêmio Esso de Fotografia, quando estava no jornal O Globo.

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No morro da zona Sul carioca, famílias ainda moram em casas de barro

  No Vietnã, localizado a 200 metros de altura, o único acesso é a pé. Região carece de saneamento e algumas famílias cozinham com galhos de árvores. Prefeitura e Governo prometem projetos para o local   Por Bruna Fantti – jornal O Dia Fotos: Reginaldo Pimenta  “Entra, minha preta. Não repara na bagunça. Aqui tá quentinho”. O calor ao qual Maria Eunice Guimarães se referia emanava do fogão improvisado, feito com galhos de árvore, no chão do casebre construído com barro e madeira, do Vietnã: a parte alta e pobre do Pavão-Pavãozinho. A catadora de latinhas mora sozinha em 5m², mas não é a única em uma moradia precária. A vista do skyline da Zona Sul com o mar ao fundo também é emoldurada por paredes de lama socada em outras cinco casas vizinhas. Na região mais rica do Rio, a miséria se fixou a mais de 200 metros de altura, fora do acesso até de mototáxistas. Para ir até o Vietnã é preciso subir cerca de 1h a pé, serpenteando pelos becos e escadas da favela. “O plano inclinado ajudou bastante. Ele tem cinco estações. Mas, depois, tem que ir andando. Quem mora lá em cima, se tiver um compromisso, tem que sair bem cedo de casa”, disse Sheila Rodrigues, ascensorista do transporte, instalado no governo de Leonel Brizola, em 1985. O elevador ocupa o caminho aberto em uma tragédia: um dia após o Natal de 1983, uma imensa caixa d’água despencou, matando 20 pessoas, entre elas, bebês e crianças. E são crianças a maioria dos moradores do Vietnã. Em uma das casas, com uma mãe solteira, moram quatro irmãos. Um deles brincava no chão de terra batida, no mesmo solo em que ratazanas passavam. A casa deles, fechada até o teto, torna os dias quentes insuportáveis. Quando chove, o chão alaga. Na última chuva, perderam o fogão. Na localidade, não há saneamento básico. Típicas do nordeste, as casas de barro são apontadas pelo Ministério da Saúde como moradias inadequadas, já que podem abrigar insetos e transmitir doenças, a mais conhecida como Doença de Chagas, que no ano passado teve três casos no Rio. Em outra casa, mora Maria Aparecida Araújo da Silva, 43, também mãe solteira, e seus quatro filhos, o menor de sete anos. Com um galinheiro no quintal, a casa tem dois beliches que acomodam a todos. No outro cômodo, o fogão divide espaço com o vaso sanitário. Ela contou que construiu a casa sozinha, após ficar desempregada. “Morava de aluguel em uma casa na parte baixa. Mas perdi o emprego em uma academia na pandemia. Agora, faço faxina e ganho por diária”, disse. Maria Aparecida também é mãe de outros cinco filhos, já adultos. Maria Eunice Guimarães, 64 anos, cozinha em fogão improvisado dentro de sua casa, no Vietnã do Pavão-Pavãozinho A casa mais recente é a de Maria Eunice, que perdeu a residência anterior, também de barro, em um deslizamento. Sua história é marcada pelo crack. Filha de uma usuária de drogas, conta que ao nascer caiu dentro de um vaso sanitário. Crescendo nas ruas, também passou a usar a mesma droga; quando jovem teve dois filhos com outros usuários. Ela sabe que a filha está na cracolândia do Jacarezinho; o rapaz, na Central do Brasil. O contato com ambos é esporádico. “Nasci dentro de um vaso, mas escolhi não ser bosta. Larguei a droga, foi muito difícil. E construí essa casinha”, contou, limpando as lágrimas com as mãos sujas dos gravetos queimados para aquecer seu almoço. A vida pobre tornou saber a data de aniversário um luxo. “Não sei quantos anos eu tenho. Você pode ver a minha identidade?”. Após ler o documento, que tinha escrito em vermelho ‘impossibilitado de assinar’, apontando que pertencia a uma analfabeta, a reportagem informou que ela completara 64 anos no dia 24 de abril. No lixo, ela encontrou a decoração para a casa. Reclama que com o fechamento de um ferro-velho, onde conseguia cerca de 50 reais por semana vendendo metal, sua renda caiu. Orgulhosa, mostrou interruptores que conseguiu comprar. “É para colocar na minha casa, quando tiver luz”, disse. Para passar o tempo, gosta de ficar sentada na varanda, olhando o mar de Ipanema, no qual nunca entrou. Ninguém sabe explicar ao certo o motivo do nome Vietnã, país palco de uma guerra contra os Estados  Unidos, durante 20 anos. Assim como na época do conflito, o Vietnã do Pavão-Pavãozinho possui natureza exuberante e famílias necessitadas. A proximidade com o cume do Morro do Cantagalo faz papagaios, sabiás e beija-flores voarem pela localidade.   Texto publicado originalmente no link abaixo do jornal O Dia https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2022/06/6415836-pavao-pavaozinho.html

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