Construir Resistência

4 de junho de 2022

Filho da puta como elogio; filho do Ustra como insulto

Este é um tema polêmico. É daquelas causas que escolho para tomar porrada, da direita e da esquerda. É a síndrome de Verlaine. Mas como detrator não paga salário, vamos lá mais uma vez. Afinal, o sábio Vicente Matheus nos ensinou: quem sai na chuva é para se queimar. Como bom seguidor da Teologia da Libertação, aprendi desde cedo a respeitar todas as pessoas, todas as suas opções de interação social e todos os seus esforços de sobrevivência. São Gonçalo nasceu no Século 12 e até hoje é o padroeiro das prostitutas. Ele era violeiro, promovia danças e as atraía para as boas obras, em favor delas próprias e dos desfavorecidos. Repetia o carpinteiro de Nazaré, que nunca cultivou preconceitos, e via todas e todos como iguais. Esse é o cristianismo raiz, e não o cristianismo modinha, moralista, hipócrita e repressor, de boa parte dos evangélicos. E foi Santo Agostinho quem definiu melhor a condição em seu tempo. Ele não dita apologia da atividade, mas sentencia: “banindo as prostitutas, introduzireis por toda parte a desordem das paixões”. Há uma vasta coleção de contribuições das prostitutas ao rito civilizatório na cidade de São Paulo. Foram elas que ensinaram toscos coronéis e rústicos barões do café a utilizar talheres, a entender um Rousseau, a apreciar a arte de um Rafael, a libertar um escravizado e, sim, a respeitar os direitos das mulheres. Foi o caso das famosas irmãs Colibri, promotoras de refinados eventos culturais no Palais Élégant. Foi o caso da famosa Madame Sanches, muito culta, do Palais de Cristal, retratada como Madame Pommery, na valiosa obra literária de Hilário Tácito. No Maxim’s, a homarada de ideias curtas ia se iluminar com Salvadora Guerrero. O lugar, aliás, é o cenário do romance “O Mistério do Cabaré”, de Amando Caiuby. Sei dessas coisas e de muitas outras porque estudei a saga da noite paulistana desde 1554, em bibliotecas e arquivos históricos. Alguma coisa desse material compilado está em um volume lançado e esgotado em 2004, acerca do qual concedi uma entrevista no extinto Programa do Jô. Em 1993, em O Globo, eu produzira uma série de reportagens de “imersão” na grande cidade. Eram semanas, até um mês, em dedicação à vivência dos dramas ocultos da urbe. Já exibi nas redes sociais minha reportagem sobre o Treme-Treme, na beira do Tamanduateí, onde morei por densos e tensos dias. Agora, relembro as reportagens da especial sobre as prostitutas do paredão da Estação da Luz. Elas eram, na época, as profissionais de Eros em situação mais precária. Ganhavam pouco, tinham que entregar parte do apurado para policiais, sofriam com diversas doenças (não somente DSTs) e ainda eram atormentadas pela reprovação social. Passei uma quinzena ali, conversando de coração aberto com elas, exercitando a empatia, investigando motivos, perscrutando a psiquê do amor pago, imaginando as esperanças possíveis. O profissionalismo não exige renúncia à generosidade. Posso dizer, portanto, que fiz amigas ali. Ouvia as agruras de uma, acompanhava outra até seu cortiço. Tempos depois, ainda comprei uns medicamentos e os entreguei a moça enferma e necessitada. Tomei-me de grande entusiasmo quando, em 2012, o gentil companheiro Jean Wyllys, do PSOL, apresentou no Congresso o Projeto de Lei nº 4.211/2012, apelidado de Lei Gabriela Leite, em homenagem à virtuosa figura que tanto lutou pelo direito das mulheres do bem carinhoso. Vale dizer que Gabriela (1951 – 2013), foi uma intelectual de primeira, socióloga formada pela USP, que, por decisão própria, exerceu por anos o ofício de agente do amor libidinoso, atuando em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. No Rio, em 1992, ela fundou a Ong Davida, organização dedicada a promover a cidadania das prostitutas, eliminar estereótipos, obter o reconhecimento legal da atividade e garantir melhores condições de trabalho para as profissionais. Sua ideia era constituir um debate amplo sobre a função social desse serviço, e não tratar a prostituição apenas como recurso de mulheres e homens em situação de pobreza. Em 2005, Gabi idealizou a grife Daspu, para brincar com a grife Daslu, a então conceituada loja de artigos de luxo. Em 2009, lançou o livro “Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta profissional”, obra que derruba inúmeros mitos sobre a atividade e revela os benefícios da psicologia ativa das artes eróticas. Enfim, Gabriela foi duramente criticada por determinados setores do feminismo brasileiro. E esse ódio militante se estendeu ao próprio parlamentar propositor. Empatia zero. Sensibilidade social nenhuma. Sororidade inexistente. Lacração autoritária máxima. Nesse segmento, brotaram vozes de “esquerda” que clamaram pela captura e encarceramento das mulheres que praticavam a atividade durante a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. Fogo “amigo” a incentivar a opressão por meio das forças fardadas. O PL Gabriela Leite propunha que as profissionais teriam acesso a direitos previdenciários e garantias de segurança e saúde. A ideia era de oficializar uma relação de trabalho, e não de emprego. Não teriam, portanto, carteira assinada, tampouco deveriam obedecer a um superior ou chefe. Era uma forma de coibir o rufianismo, a cafetinagem e o aliciamento, ou seja, todos as sistemas de exploração de outra pessoa para a obtenção de vantagem, benefício ou lucro. Seria um forma de estabelecer o pavimento da lei sob as profissionais vulneráveis, protegendo-as das garras do capital criminoso do varejo. Bombardeado pela esquerda e pela direita, o PL nunca prosperou. Na linha de frente da interdição, a bancada evangélica. Na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o deputado Pastor Eurico (PSB-PE) emitiu parecer que indicava rejeição à demanda. Em janeiro de 2015, o projeto foi arquivado. Jean Wyllys persistiu e conseguiu o desarquivamento, no mês seguinte. Quatro anos depois, no entanto, ainda na mira do farisaísmo militante e parlamentar, ocorreu novo arquivamento, nos termos do Artigo 105 do Regimento Interno. Os debates em torno do assunto, no entanto, foram bastante proveitosos e elucidativos. As militantes sempre deixaram claro que o objetivo não era produzir uma “indústria do sexo”, conforme argumentavam os deputados conservadores, mas justamente coibir a nociva

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Sinais do golpe: presidente do Bradesco elogia o Exército

Por Cristina Serra – no Facebook Sinais do golpe   A notícia mais grave do dia foi publicada na coluna do Fábio Zanini, na Folha deste sábado. O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, gravou um vídeo em que tece loas ao Exército e lembra seu tempo de serviço militar. No contexto atual, impossível assistir ao vídeo sem fazer relação com o discurso golpista de Bolsonaro. E é óbvio que o executivo de um dos maiores (e piores) bancos do país não pode alegar ingenuidade em relação a isso. Lazari diz que se orgulha do tempo em que se apresentava como “soldado 939 Lazari, ao seu comando”. O comando, no caso, era um certo “capitão Gonçalves” (sim, capitão), que o fazia se sentir “diferente”, “especial”. Diz ainda que aprendeu no Exército que “não se deixa ninguém pelo caminho”, que “o soldado Lazari continua de prontidão” e termina com o infame bordão da infame “tropa de elite”: “Missão dada é missão cumprida”. Lazari faz o vídeo com a logomarca do banco. Trata-se, portanto, de um vídeo institucional e não “pessoal”, como a assessoria do banco alegou ao jornal. Impossível que isso não tenha passado pela avaliação da cúpula do banco. Como sempre, o grande capital sabe escolher seus capatazes. Cristina Serra é jornalista e escritora. É autora do livro  “Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil”. Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense   Ajude a monetizar o Construir Resistência abrindo e percorrendo os anúncios que aparecem nas páginas, pois vale o tempo de engajamento. É a sua maneira de ajudar a remunerar o site de luta              

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Sobre adoções, detrações e linchamentos virtuais

Desconheço detalhes, mas passei os olhos por uma série de comentários venenosos e destrutivos para desqualificar a atriz Carol Nakamura no episódio da adoção. De novo, a ausência desse registro definitivo e cartorial, neste momento, nada diz, nem a favor nem contra a ex-bailarina do Faustão, considerados os interesses de cada família envolvida no caso. O Brasil é assim mesmo, por natureza, um lugar de puxadinhos, gambiarras, improvisações, porque a juristocracia nos amarra e porque as demandas do cotidiano são sempre urgentes. Estranho também o linchamento em razão das fotos do garoto com a família. Por este motivo, nem as publiquei aqui. O que queriam que Carol fizesse? Que o escondesse? Aí, certamente, os idiotas da aldeia diriam que tinha vergonha do menino. O Brasil tem raízes remotas de adoção informal. Aos ativistas lacradores, por favor: leiam sobre a “roda do expostos” ou “roda dos enjeitados”, ativa em entidades religiosas até início do Século 20, inclusive nas cidades mais prósperas da nossa Pindorama. Quanta gente não se dedicou de corpo e alma para “criar” uma alma recusada. Em um país de estupros, de exploração sexual dos infantes e de paternidades irresponsáveis, passamos séculos nos virando para oferecer suporte aos filhos dos brancos bandeirantes escravistas. Muitas casas altruístas (e não oportunistas) incorporaram naturalmente a negritude e os genes indígenas. Por este motivo, somos, em grande parte, maravilhosamente pardos. Lembro-me de quando a querida e saudosa companheira Patrícia, jornalista das boas, gateira e cachorreira, cismou de adotar um menino. A burocracia toda era complicada, e ele não podia aguardar a boa vontade de um togado. E assim foi o processo, equilibrado no amor e no esforço. Mas ele carregava praticamente dez anos de uma educação distinta, em que lhe faltara a regra e a obediência, enquanto sobrava desejo de liberdade e desconhecimento sobre o certo e o errado, o legal e o ilegal. Patrícia empenhava o salário curto em adquirir material escolar, levava-o ao colégio, rabiscava as lições com ele, à noite, já exaurida de 10 horas de redação. Carinho total. De repente, não mais que de repente, no entanto, ele tomava a bicicleta de um vizinho e sumia pela cidade. Não retornava à noite. Um, dois, três dias de desaparecimento. E o coraçãozinho enfermo dela, já naquela época, sofria e tropeçava. Aí, num sábado qualquer, ele retornava. E não admitia reprimenda, porque se julgava passarinho, sem chefe, líder ou dono. Ficava pelo que julgava conveniente. Comia muito chocolate, jogava videogame, ganhava um cafuné. E, de repente, tomava outra magrela e escapava pedalando. Francamente, não acompanho a vida de celebridades, mas considero improvável, como estão dizendo por aí, que a bailarina tenha assumido a co-autoria dessa criação por interesse de marketing. Para quê? Ela já tem um filho. O menino nasceu quando ela tinha 16 anos. Agora, a atriz soma 39. Esse garoto cresceu, bem educado, já constituiu uma parceria amorosa bonita. É uma família pluriétnica que não precisa propagandear nada. No caso em foco, foram três anos de esforço para que o menino frequentasse a escola. Dirão: “ah, mas ela chamou o menino de safado”. Ok, mas qual mãe não chamou o filho de safado em razão da desobediência e da fuga do estudo? Entendam o contexto, inquisidores de Internet. A gente rola as redes e tem alguém soltando xingamentos porque supostamente faltaram pobres e negros no casamento de Lula e Janja. Aliás, como se o metalúrgico e a esposa fossem exemplares acabados da mais pura cepa europeia, “wasps” ilhados na Terra Sem Males… E seguem as detrações pelos mais variados motivos, por supostos atos ou supostas omissões. O importante é empunhar tochas e sair por aí, em rondas noturnas, procurando alguém para linchar e pendurar em árvore alta na manhã seguinte. Lamentavelmente, parte desse trabalho de explosão de pontes, de maledicência, de intriga, de calúnia e difamação é liderado por gente que se diz “ativista” e que considera ter conquistado “lugar de fala” para condenar por mera suspeita. Já foi assim em Porto Alegre, quando, sem evidência pericial, resolveram crucificar o futebolista lusitano. Mesmo que a investigação prove sua inocência, o dano está feito. E é irreversível. Os comentaristas do Sportv, da Globo, da ESPN e do UOL já emitiram o veredito que implode a reputação de Rafael Ramos. Pior é ver, na webolândia identitária, frases como “o que essa japa aí está querendo?” Porque, ao que parece, a asiofobia agora ganhou status de licitude, como já tinha ganho o etarismo. Nesta sexta-feira, jovens descolados faziam troça de Kadu Moliterno, que legitimamente, aos 70 anos, pedia uma chance de continuar a atuar. “O que esse velho está querendo; por que não vai cuidar dos netinhos?”, disparou uma internauta. O lance é esse. Muita hipocrisia, muito farisaísmo e MUITO esquecimento do que deveria estar no topo do guarda-chuva, a atualização necessária da LUTA DE CLASSES e a generosidade sem preconceitos que marca qualquer luta progressista.

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