Construir Resistência

22 de fevereiro de 2022

Mais do que receitas

Leitor ou leitora, prepare-se para compulsar um livro de culinária fora de esquadro. Se esperar um conjunto só de fichas de receitas, uma atrás da outra como costumam ser os compêndios da especialidade – equivocou-se. Se pensar que vai ler um ensaio de texto corrido com reflexões sobre gastronomia, também errou o alvo. Em compensação, vai tomar contato com um livro para saborear (sem trocadilho), em que as receitas se entrelaçam com a crônica de uma família, com a história do Brasil e com o papel que a alimentação tem nisso tudo. É uma boa surpresa: não é todo dia ou toda hora que a comida se revela como núcleo pulsante de todo um contexto sociopolítico e afetivo. Também não são quaisquer receitas. São apenas aquelas que, provadas e comprovadas, se integraram indissoluvelmente ao tecido dos eventos aqui narrados e das biografias. Só resistiram à usura do tempo quando ganharam um lugar especial na memória conjunta e nos fastos desse coletivo familiar. O leitor certamente se identificará com a maioria das receitas e dos eventos, pois todos festejamos aniversários com bolo e velinhas, assim como oferecemos ao aniversariante as iguarias prediletas. Por outro lado, as receitas propriamente ditas são, em sua maioria, pouco exóticas, não sendo exclusivas dessa casa, mas ao contrário achando-se entronizadas em grande número de lares. Entretanto, têm paralelamente um toque tradicional. Aliás, saudável e nutritivo. Em casa de Zilah Abramo não entrava refrigerante, por exemplo: à sua mesa, mesmo os mirins recebiam suco de frutas e já iam aprendendo o que é bom para a saúde. Os pratos recomendados nunca são complicados. Pois uma mulher com cinco filhos, trabalhando em empregos de dia inteiro a vida toda, e ademais militando em política, não teria tempo, mesmo com o auxílio de empregadas domésticas, para fazer algo mais elaborado. Nessa casa, os filhos às vezes reclamavam que a mãe e o pai, que já passavam o dia inteiro no trabalho, ainda iam a reuniões políticas nas horas vagas, enquanto os pais das outras crianças não iam. Zilah e Perseu retorquiam que era justamente por isso que não poderiam faltar – por eles mesmos e pelos pais que não iam. Mas é possível perceber a atenção de Zilah em atender aos requisitos do gosto alheio, sempre arbitrário, o que todavia encontrava nela esse traço de tolerância que era tão saliente em sua pessoa. Se um filho ou um neto não gostava de frango, Zilah não ia deixá-lo com fome nem castigá-lo, mas servia-lhe um bife, e só para ele. Tampouco vamos encontrar ingredientes caros. Eram contrários ao credo de Zilah o luxo e a despesa exagerada. Com forte consciência social, ela era do básico e do alimentício. Nem por isso as comidas deixam de ser deliciosas, criativas, apetitosas – e a leitura deste livro enfatiza essa qualidade de agradar ao paladar e não temer o prazer. É instrutivo e até didático ver como Zilah ia interessando as quatro filhas (Mário, o único filho, refugou) nos afazeres da cozinha desde crianças. Chamava-as para participar e ia-lhes conferindo funções condizentes com a idade e o estágio de desenvolvimento. Assim aprendiam, no avental da mãe, a executar tarefas simples, como peneirar a farinha ou quebrar os ovos, separando cuidadosamente a clara da gema – pois, se o mais ínfimo fiapo de gema invadir a clara, esta não “subirá” quando batida e jamais atingirá o ponto de neve. Se um desastre como esse acontecer, é melhor reservar para outra preparação esses ovos por assim dizer contaminados e recomeçar da estaca zero. Isso se aprende, isso é um saber de ofício. A aprendizagem era premiada com o privilégio de lamber a colher de pau e raspar o fundo da panela, sendo tais privilégios distribuídos de modo a que todos fossem atendidos sem gerar rixas. É assim que vamos vendo e acompanhando a imensa sabedoria dessa, mais que mãe, matriarca. Zilah era democrática até à medula. Sem dizer nada, ia sublinhando em primeiro lugar o respeito ao trabalho manual. As quatro filhas escrevem sobre a experiência, bem como algumas das netas e outras pessoas da parentela. Uma sobrinha é autora das aquarelas que ilustram o livro e que dá gosto contemplar. Com os textos delas, amparados pelas ilustrações, vamos nos inteirando não só do fogão e do forno mas, mais ainda, do agenciamento dos afetos e da pedagogia cotidiana que a comida implicava nesse lar. É uma lição para o leitor, que provavelmente nunca se deu conta de que uma radiografia de sua vida e de seus próximos se destila nos hábitos alimentares da casa. Todas contribuem com suas receitas favoritas, que aprenderam a fazer com Zilah. Recebem lugar especial no livro, lembradas com carinho e gratidão, as empregadas domésticas, fundamentais para o funcionamento da casa e do coletivo, sendo que algumas deixaram receitas que foram integradas ao passadio da família. A última delas, Zenilde, que cuidou de Zilah na parte final de sua vida, contribui com um caloroso depoimento. Mais que tudo, vai-se delineando ao longo do livro a figura extraordinária de Zilah. Sua firmeza, sua integridade, sua bondade, que não reservava só para os seus mas estendia a todo mundo. É no trato com a culinária caseira que vamos encontrar a inimitável combinação que era só dela: uma intransigência de aço nos princípios e nas convicções, que se entremostrava na militância, aliada a uma cortesia, a um calor humano, a um grande coração, que jamais seriam nem poupados nem sonegados. Não é à toa que recrutaram coortes de amigos e admiradores, pois, como ninguém ignora, essa combinação é mais do que rara. Torna-se urgente escrever uma biografia de Zilah – e aguardamos esperançosos os candidatos a essa bela missão. Por mais que ela própria, sincera e autêntica em sua modéstia, tenha-se esquivado em vida a colaborar, o presente livro já é um passo nesse sentido. Como vimos, e como leitores e leitoras verão, este é, com muita honra, um livro de mulheres, a respeito de uma matriarca: e agora, de um verdadeiro

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A herança maldita de Bolsonaro

Por Paulo Kliass A campanha de Lula precisa contar com apoio popular maciço. O Brasil necessita voltar a mostrar a sua cara Foto: Clauber Cleber Caetano/PR A cada nova divulgação de pesquisa de opinião a respeito das tendências para as eleições de outubro próximo, observam-se movimentos diversos por parte da maioria dos atores e forças políticas em nosso País. O fato inequívoco é a consolidação da candidatura de Lula em primeiro lugar, seguido de Bolsonaro bastante atrás. A possibilidade de viabilização de uma terceira via parece não apresentar mais fôlego eleitoral nem capacidade de articulação partidária para seguir o jogo até o fim. Mas o que mais interessa é o risco de um comportamento do tão famoso quanto perigoso espírito do “já ganhou”, que parece estar tomando conta da direção da campanha do ex presidente. É sempre importante reter algumas máximas dos mais experientes na dinâmica de disputas eleitorais. Uma delas diz que “pesquisa é fotografia e processo eleitoral é filme”. Assim, por mais que uma série longa de fotogramas possa constituir uma ação em movimento, o fato é que não se pode considerar esse difícil jogo como estando já definido por antecipação. Bolsonaro é ainda um animal vivo, com muitas ferramentas a seu dispor para delas fazer uso até o mês de outubro. Vamos lembrar que a condição de Presidente da República lhe oferece a possibilidade de lançar mão do “poder da caneta” para distribuir favores, cargos e verbas em sua busca pela ampliação de sua aceitação no universo político-eleitoral.  A subestimação da capacidade de Bolsonaro eventualmente conseguir recuperar pontos nas próximas sondagens pode provocar surpresas desagradáveis na reta de chegada do pleito, marcado para daqui alguns poucos meses. Lula para mudar Foto: Ricardo Stuckert A única preocupação que parece dominar a agenda do comitê que centraliza a campanha de Lula reside na ampliação de contatos em direção ao centro e à direita do espectro político e partidário. Parece óbvio que articular um candidato a vice-presidente com o perfil de Geraldo Alckmin é uma ação estratégica necessária que deve colaborar para facilitar o trânsito do candidato em setores da elite que não aceitariam tão facilmente votar em Lula desta vez. No entanto, a tática de jogar parado em uma campanha que promete ser bastante tensa – e até mesmo bem violenta – oferece ao adversário a possibilidade de também definir as condições em que se dará a disputa. Bolsonaro promoveu e ainda está promovendo uma terrível destruição do Estado brasileiro. Ao longo de seus mais de três anos de (des)governo, o ex capitão defensor da tortura e da pena de morte também avançou em um impressionante processo de desmonte das políticas públicas. Apesar de Paulo Guedes não ter logrado êxito em sua promessa de entregar um Estado-zero no final de 2022, o fato concreto é que a privatização de empresas em setores estratégicos na área de energia é bastante complicadora para a capacidade de recuperação do necessário protagonismo do setor público em áreas tão sensíveis da economia e da sociedade. Estão aí os casos da Petrobrás e da Eletrobrás para demonstrar que a definição de tarifas de bens e serviços essenciais não pode ser objeto apenas das chamadas “leis de mercado”. Esta é apenas uma das inúmeras facetas da herança maldita a ser deixada por Bolsonaro para um futuro governo que o derrote nas eleições de outubro. Esta bomba de efeito imediato e futuro deve ser desativada o mais rápido possível e a campanha de Lula não pode se omitir a esse respeito. Não basta apenas fazer declarações genéricas a respeito de necessidade de mudanças nas políticas de preços de derivados de petróleo – outro crime contra a economia nacional que vem sendo cometido de forma sistemática, desde a consumação do golpeachment contra Dilma Roussef e a chegada de Michel Temer ao Palácio do Planalto. Aproximar a campanha da população. É fundamental que o novo governo deixe claro à população a necessidade de recuperar a soberania nacional em termos energéticos. Isso significa apontar de forma cristalina a necessidade de reestatização das empresas do setor que foram vendidas ao capital privado, a exemplo da BR Distribuidora e de subsidiárias do grupo Eletrobrás. Além disso, é preciso que seja alterada a orientação atual de que o Brasil continue exportando óleo bruto e importando gasolina e óleo diesel, por exemplo. Com isso, pode-se retomar a condição de autossuficiência na cadeia do petróleo. A exploração das novas reservas permitida pelas descobertas do Pré Sal deve ser articulada com a retomada das condições de refino nas unidades da Petrobrás espalhadas por todo o território nacional. O governo Bolsonaro estabeleceu uma lista de oito refinarias da Petrobrás a serem privatizadas. Deste total, três já tiverem seus processos concluídos e foram repassadas ao capital privado. Trata-se das unidades de refino na Bahia (RLAM), no Amazonas (Reman) e no Paraná (unidade de industrialização do xisto – SIX). A manutenção da capacidade de refino em escala nacional nas mãos do Estado é condição fundamental para a reversão da atual crise na área energética. Atrelar os preços de gasolina, óleo diesel e gás de cozinha praticados nas refinarias às oscilações verificadas no mercado internacional das “commodities” é abrir mão de soberania nacional e praticar uma dependência absolutamente desnecessária em relação à especulação existente nas transações globais do petróleo. Foto: EBC/Arquivo A mudança praticada na institucionalização da independência do Banco Central (BC) também se apresenta como outra explosiva herança maldita do bolsonarismo a ser deixada para um governo que o suceda. A partir da aprovação da Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, as novas regras de funcionamento da autoridade monetária estabelecem a existência de um mandato de 4 anos para os diretores do BC. Assim, o atual presidente da instituição nomeado por Bolsonaro vai ficar no cargo até a metade do próximo mandato do Presidente da República. Além da questão ideológica envolvida na matéria, relacionada à impossibilidade de o chefe do Estado atuar diretamente em um segmento essencial do comando da política econômica, o fato concreto é

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“A reforma do ensino médio é cruel com os estudantes”

Entrevista com Debora Goulart CONSTRUIR RESISTÊNCIA recomenda a leitura dessa entrevista compartilhada do BLOG LUIZ MÜLLER  Agora que o ano letivo de 2022 está começando, a Reforma do Ensino Médio, aprovada em 2017, terá finalmente que ser implementada. É verdade que haverá exceções – há estados em que o legislativo votou pelo adiamento, em geral com o argumento das dificuldades trazidas pela pandemia – mas essa é apenas uma das muitas diferenças (e desigualdades) que as mudanças promovidas na última etapa da educação básica brasileira promoverão. Trata-se, de acordo com a análise da professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Debora Goulart, da quebra de um pacto de universalização do ensino médio que o país firmou desde a Constituição de 1988. E que responde diretamente às necessidades de uma nova organização das relações de trabalho, cada vez mais precárias, flexíveis e subordinadas. Nesta entrevista, a pesquisadora, que integra a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a Rede Escola Pública e Universidade (Repu), desmistifica a crença de que a reforma valoriza o direito de escolha dos estudantes, avalia o modo como a formação técnica e profissional é abordada no novo ensino médio e comenta os interesses empresariais que atravessam todo esse processo de mudança. Leia a entrevista completa em: https://luizmuller.com/2022/02/14/a-reforma-do-ensino-medio-e-cruel-com-os-estudantes-mostra-educadora-e-pesquisadora-em-entrevista-leia/   Debora Goulart é Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- UNESP e Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp.

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Governo Bolsonaro promove “apagão” nos dados sobre a Educação Brasileira

Por Amanda Moreira  Nos últimos dias sofremos mais uma etapa do golpe na Educação brasileira sob o governo Bolsonaro: o “apagão” de dados do INEP. O Instituto divulgou os dados do Censo Escolar (o raio x da educação brasileira que contém versão bem detalhada de todos os microdados) e adivinhem? Faltou a maior parte das informações! Isso mesmo! Desde a última sexta-feira (18/02) a principal base de dados da Educação brasileira deixa de compor um arquivo de 17 GB e se transforma num de 164MB. A nova forma de divulgação exclui quase todas as informações sobre alunos e professores e dificultará a análise dos impactos da pandemia na Educação. Assim ficará muito mais difícil saber quantas crianças com deficiência estão nas escolas, em quantas escolas trabalham os professores, como são os contratos etc. Isso porque a maior parte dos dados, a partir de agora, não será mais pública ou de acesso facilitado aos estudiosos, gestores e pesquisadores da Educação. Assim, o acesso à informação se tornará cada vez mais difícil e toda formulação de políticas públicas com base na realidade concreta vai pelo ralo. O governo de Jair Bolsonaro está utilizando a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) para dar mais um golpe na transparência. Já fizeram isso para omitir informações públicas outras vezes, agora usam a lei como desculpa para ocultar a realidade da educação, negar a ciência e dar lugar ao negacionismo! O debate sobre privacidade é importante, mas não pode ser usado de forma oportunista em ano de eleição. Estamos em pleno debate de recuperação educacional, os dados precisam ser divulgados com a maior transparência possível para que pensemos em saídas e consigamos reverter o desastre que foi o governo de Jair Bolsonaro para a Educação. Não permitiremos que a realidade seja ocultada por esse governo de hipócritas fundamentalistas que promoveram a destruição da Educação pública. Precisamos de dados completos, fiéis, sem censura, que indiquem o retrato da Educação brasileira e permitam comparações com períodos anteriores. Esse governo quer esconder toda a destruição que promoveu na Educação brasileira. Não aceitaremos! Tirem as mãos dos dados da Educação! #Forabolsonaro #ForaMiltonRibeiro #Emdefesadaeducação Amanda Moreira é Doutora em Educação pela UFRJ e Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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