Construir Resistência

21 de fevereiro de 2022

Doria buraco

João Doria: como entender o fracasso de sua candidatura

Por Nelson Marques Uma cena me chamou a atenção, há três semanas atrás, quando aconteceu o afundamento da pista local da Marginal Tietê, junto ao canteiro de obras da futura estação Santa Marina da Linha 6 do Metrô de SP (essa linha é a primeira a ser construída em SP através de uma parceria público privada, conhecida como PPP. A cena é a seguinte: um helicóptero da Polícia Militar pousa no canteiro de obras da estação e a primeira pessoa a desembarcar é uma jovem (provavelmente a assessora de imprensa) com um vestido preto de seda, esvoaçante, e calçando um scarpin com um salto de pelo menos uns 12 cm; atrás dela desembarca, empedernido, João Doria. Ele traja um jeans de grife, bem apertado em seu corpo de bailarino, e o tradicional sapatênis. Ambos cruzam a pista da Marginal Tietê em direção à cratera imensa que se abriu – nessa hora já repleta do esgoto que jorrou de um coletor afetado pelo tatuzão que escavava o túnel da nova linha. Ambos fingem inspecionar o local, pisando na mistura de barro e esgoto que forrava a pista da Marginal, e partem para uma coletiva de imprensa. Não é preciso ser especialista em comunicação para perceber que aquelas figuras ridículas, em meio ao caos, à lama e ao esgoto destoavam completamente do cenário de guerra. Essa cena explica boa parte do fracasso, até o momento, que é a candidatura de Doria à presidência. Ele não consegue passar um mínimo de autenticidade. Tudo o que faz parece sempre ter sido estudado longamente em frente a um espelho. E ele está muito longe de ser um bom ator. Junta-se a isso, a exploração absurda que ele tentou com o desenvolvimento da vacina do Instituto Butantã. Todos os dias, durante meses, Doria estava na mídia para falar, como se fosse ele o criador da Coronavac e a maioria da população percebeu a tentativa mal-sucedida de transformá-lo num super-herói, que iria salvar a todos do coronavírus. Até porque, quem desenvolveu a vacina foi o centenário Instituto Butantã, tão querido da população brasileira, com verbas do governo federal, estadual e da iniciativa privada. O tiro saiu pela culatra e a imagem de “falsiane” grudou em Doria. Enquanto o governador tentava faturar com a vacina do Butantã, as cidades paulistas se enchiam de moradores de rua esfomeados, implorando por ajuda em todos os cantos. Vários canteiros das principais avenidas e praças da cidade de São Paulo se transformaram em acampamentos de sem-teto, despejados de suas casas por falta de dinheiro para o aluguel. Doria, seu vice e candidato ao governo de SP Rodrigo Garcia e o prefeito paulistano Ricardo Nunes fingiram não enxergar essa tragédia e nada fizeram pra minimizar o sofrimento desses paulistas e paulistanos. Agora, colhem os frutos… Nelson Marques é jornalista, editor do Construir Resistência e produtor de vídeos  

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Hespanha pintor

A chegada de gênios no Céu, apreços, enxadas e Dona Luiza

Por Luiz Hespanha   Cada vez que morre um colunista que era cineasta, que virou escritor, que sonhou ser músico, que acreditou ser ator; que se enxerga poeta, dramaturgo, roteirista, crítico de arte, filósofo, bússola, GPS, farol ou cometa. São Pedro chama Umberto Eco e ordena: vai lá receber o sujeito que eu não tenho mais saco. Entediado, Eco finge obedecer, sai e passa a bola para Gore Vidal. Impaciente, Vidal pega Paulo Francis pelo braço e solta o berro: vai lá você, esse aí é de menos pra mim, agora é sua vez. Será que os russos colheram material genético de Bolsonaro? Se o fizeram, deve ser para algum tipo de controle e isolamento, não para disseminação. Quem livrou o mundo do nazismo, não ia fazer isso com o planeta. A foto de Bolsonaro e Carluxo em Moscou, de autoria do Alan Santos, define o apreço que eles têm pelos militares. Na foto, Zero Zero e Zero 03 figuram soberanos à mesa. Lá atrás, cabisbaixo, além da bandeirinha verde amarela do escanteio, está o general Heleno, o augusto estratega de Cité Soléil e gênio da inteligência militar da Bozolândia. A palavra humilhação tem quantos sinônimos mesmo? E por falar em apreço e abandono, Mário Frias já percebeu que Bolsonaro o deixará a ver navios. Com o trânsito que tem no mundo artístico dos EUA, Frias está sereno. Denzel Washington, Tom Hamks, Morgan Freeman, Di Caprio, De Niro e Anthony Hopkins já lhe tranquilizaram. A performance inesquecível de Frias em Malhação lhe garantiu solidariedade incontestável em Hollywood. Não nos esqueçamos que Regina Duarte recebeu o mesmo apoio de Meryl Streep, Olivia Colman, Sandra Bullock e até da trotskista Vanessa Redgrave. Pergunta que não para de dar voltas em linha reta Terra Plana afora: onde anda, o que faz, o que diz, o que pensa, o que assina e onde orbita o ministro-astronauta-de-travesseiro Marcos Pontes da Ciência e Tecnologia? Paulo Guedes continua na sua jornada de gênio incompreendido na economia e na política. Ninguém dá bola para o que ele fala. Seu poder de Posto Ipiranga de Bolsonaro é hoje é a imagem de uma bomba de gasolina solitária quebrada, marcando R$ 10,01 o litro, num  cemitério de  Fiats 147 e Passats. A estreia de Fernanda Torres no cenário da geopolítica surpreendeu o planeta. O texto “A vingança de Putin está por trás do livre nazismo do Monark e das convicções do tiozão do pavê bolsonarista do churrasco de domingo” publicado na Folha pode garantir a ela uma cadeira de analista da ONU. Se alguém conseguir traduzir o tratado geopolítico-antropofágico de bolsa, digo de bolso, para o secretário Geral, o português Antonio Guterres, não tenha dúvida: perderemos uma atriz. O mundo vai mudar muito depois que Fernandinha entrar na ONU. Sérgio Moro disse num encontro com empresários que “vai até o fim”. Moro exercita uma sinceridade virginiana, não a do signo, mas a do estado da Virgínia, sudeste dos EUA. Ele irá mesmo, podem acreditar Neides and Gentes. O lawfare, os intercâmbios com o Departamento de Justiça dos EUA, os vazamentos seletivos e ilegais, o ministério que ganhou de presente de Bolsonaro e o trabalho árduo na Alvares&Marsal são mais que indícios que o “Di Endi” não será em Maxachuxiss, mas num tribunal brasileiro mesmo.  A irreal família real brasileira, os tais Orleans e Bragança, recebem o laudêmio, o chamado “imposto do príncipe”. E aí começa meu delírio: quando lembro da taxa enxergo claramente D. Bertrand, D. Luiz Gastão, D. Luiz Philippe, D. Pedro Luiz e outros dons, todos com enxadas e pás nas mãos, participando das buscas das vítimas da tragédia em Petrópolis, afinal pás e enxadas são ferramentas da nobreza humana.  Dona Luiza Trajano disse ao UOL que é socialista desde os 10 anos. Estudiosos do socialismo mad in Brazil certamente vão se debruçar sobre a questão. Há muito o que se perguntar a Dona Luiza. É uma tarefa difícil. É mais fácil certificar-se que, nessa idade, Roberto Freire já desenvolvia seu projeto de se tornar um ex-comunista.  Luiz Hespanha é jornalista, autor do “Livro das Verdades Inúteis” e de “Breves Memórias da Terra-do-já-teve” (amazon.com.br), compositor de música popular (#CançõesDeAmorDelírioTesãoInquietudeLutaDeClasseEÓcio); e alguém que acha que as Black Fridays não são centelhas revolucionárias que podem incendiar as pradarias tupiniquins. A foto também é do autor do texto e foi tirada no bairro da Bela Vista.    

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Love? Love always…

Por Virgilio Almansur Love? Love always… Assim termina, na fala de uma das vítimas de “O Golpista do Tinder”, o roteiro para o documentário de uma “psicopatologia”; aquela de um cotidiano capetalista. Isso mesmo: são as fímbrias e brumas de um exercício para o capital, este sim, sequestrado para uma pirâmide que outrora — ainda há — capturava você nas calçadas do Leblon. Se em Goethe, Fausto responde a Wagner quando este diz: “Também já tive outrora ardentes ilusões! Jamais senti porém as tuas aflições. Ando farto de ver florestas, campos, vinhas… Nem invejo do pássaro o se librar na altura. Sinto maior prazer com uma boa leitura… Passar de livro a livro, a sugar tantas linhas, nas noites hibernais amenas e agradáveis. Eflúvio delicioso o corpo contagia. Desdobra um pergaminho, oh que horas suaves! Desce o céu sobre ti, te envolve e te inebria!”, responde-o com certa bravura (a faustiana…): “Falas assim porque só tens uma aflição: não procuras jamais as outras desvendar! No meu corpo há duas almas em competição, anseia cada qual da outra se apartar. Uma rude me arrasta aos prazeres da terra, e se apega a este mundo, anseios redobrados… Outra ascende nos ares; nos espaços erra… Aspira à vida eterna e a seus antepassados”. A sedução ofertada carrega o fetiche na sua integralidade. Em tempo de links, o percurso do dinheiro com rapidez digital, impõe-nos câimbras quando ainda nem saímos de nossa morada analógica. Existe ali, nos relatos, algo que sobrevém pelo impulso, um certo drive em busca de um objeto que se lhe apresenta(m) num mundo virtual. O questionamento que envolve o caráter fetichista do capital, se inicia numa pergunta de Marx: “E a economia moderna que, sobranceira, sorri desdenhosa para aquelas ilusões, não manifesta evidente fetichismo quando trata do capital?” A entrega da vontade e da própria consciência do sujeito capetalista ao capital, personifica o capital. Está ali num inferno dantesco de difícil solução pois, encarnado, “valorizando-se” o valor, personificando um atributo, torna-se processualmente uma figura central, de autonomia ímpar, um sujeito automatizado e rigorosamente autônomo. Fausto tem razão! E o nosso personagem, Simon Leviev carrega, numa realidade fantástica, o que nenhum ator conseguiria. A única concretude está no dinheiro, dentro de uma zona do euro. Quando este se concretiza em papéis, sente-se a distância em que a vítima se encontra. Seu projeto é ser reconhecida, sentir que é querida e pode querer, não importando que tudo se dê sob ruídos techs de péssimo mau gosto e escancaradas figuras do basfond de um leste decadente. Na esperteza do golpista reside um componente serial-killer. Este jamais decairá de seus interesses marcadamente compulsivos. A distância entre ele e a de um batedor de carteiras, é mínima. O gozo implícito traduz a continuidade que a legislação israelense lhe aplicou: 15 meses de reclusão e cumpriu cinco — já tendo voltado ao Tinder e já se vestindo nos trinques versaces e gucci da vida (sem esquecer os rolex falsos). O filmete documentário oferece-nos uma lição de libido, essa energia incontrastável que sempre busca ressignificados. Tudo aquilo que Leviev oferta é o nada, mas um nada mais consequente e aproximado ao belo e túrgido seio dadivoso — mas que também seca! Quando se pensa nessa energia, pensa-se numa referência íntima da sexualidade, esta secção imaginária como forma de satisfação de estímulos desde as mais primitivas necessidades até aos desejos considerados sublimes. Libido é, pois, freudianamente, a energia dirigida aos objetos de nossos desejos. Esse esforço de busca na relação com um objeto, não está definido de pronto. Sua emergência carrega algo sob interesse da própria espécie: a sobrevivência, a qual consideramos como autoconservação. O documentário consegue nos apresentar a teoria da libido na sua vertente mais dinâmica, onde todos os envolvidos estão reféns, ou seja, numa economia dos afetos que pululam sob a vertente prazerosa-desprazerosa e o princípio de uma realidade que se impõe trazendo fissuras e feridas narcísicas desoladoras. Estava num café há pouco e ouvi duas madames inconformadas. O assunto era o documentário no streaming da Netflix: “… Quê nojo!” Mas uma outra se compadece e afirma: “Como somos trouxas!” E há ainda um outsider de outra mesa a assentir com a cabeça revelando tão somente o quanto “a carne é fraca…”, pois ninguém resistiria aos estímulos concentrados num ícone “carregando jatinhos, rollsroyces, ferraris, hotéis sete estrelas, champagnes e caviar…”. Estamos e entramos no universo do documentário, gerando certa antipatia ao golpista, inveja primeva mesclada a um non sense pela caracterização blasé de um sujeito sem qualquer sexappeal, enxovalhado por escamas da moda sob companhia de um armário todo tatuado fazendo crer que ali esteja sua escolha. O sujeito parece ter sobrevivido num saara marroquino qualquer e delimita uma vida aérea sem propósitos; a não ser o de insuflar sua economia narcísica, que quando desafiada repercute-se em ameaças àquelas que não o suprem. Ali está um jogo sui generis, em que o significado econômico começa a denotar. Aparece para nós, na última namorada do golpista, o semblante sadomasoquista em jogo. Ali se concretiza um problema econômico: o problema econômico do masoquismo, origem inconteste da trama banal. Este texto da economia psíquica, freudiano por excelência, comina aspectos interessantes da sexualidade infantil (aqui vejo infantil, que é da ordem sexual, desnecessário, quase uma redundância), com suas rebuscadas perversidades, trazendo-nos a clareza de uma noção cara à psicanálise onde a neurose passa a ser o negativo da perversão. Negativo este em busca de revelação. É nesse contexto que a direção de Felicity Morris se mostra competente. Revela o avesso do avesso, apesar de uma tônica criminal que a tal libido dissolve. Passar-se por magnata do ramo de diamantes, num cenário com pixulecos sub-urbanos, conquistando mulheres (não só, com toda certeza…), “roubando-lhe” milhões, eis que chega a vingança perturbando a vida coesa que o rato e as gatas nos oferecem. Haverá pois um nirvana, princípio este que entendo nas duas prisões cumpridas pelo golpista — e que teve plateia golpista… A libido em jogo requer certa inflexão; energia

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Mães Paralelas, novo filme de Almodóvar, é emocionante manifesto contra o fascismo

Longa metragem usa a metáfora das mães para tratar dos cidadãos que vivem o luto interminável das vítimas do franquismo e que foram entrerrados em fossas ainda não localizadas Por Marcelo Hailer  Estreou na última sexta feira (18) na Netflix, o filme “Mães Paralelas”, nova obra de Pedfro Almodóvar que usa a metáfora das mães para tratar dos “desaparecidos” políticos da Guerra Civil Espanhola (1936-39) e da subsequente ditadura de Francisco Franco (1939-1975), que foram enterrados em fossas espalhadas por todo o país. O longa também representa a preocupação política do diretor com a ascensão da extrema direita em seu país e no Ocidente e, de quebra, rendeu à Penélope Cruz a indicação na categoria de Melhor Atriz ao Oscar 2022. Seria injusto com a cinegrafia de Almodóvar afirmar que “Mães Paralelas” é o seu filme mais político, até porque, quem acompanha o trabalho do diretor espanhol sabe que todas as suas obras são políticas, até as comédias tresloucadas o são, pois, em sua longa carreira, o cineasta sempre utilizou as suas lentes para tratar dos corpos e vidas considerados “anormais” pelo pensamento conservador. CONSTRUIR RESISTÊNCIA recomenda a leitura da matéria completa publicada na seção Opinião da Revista FORUM em 19/2/2022. https://revistaforum.com.br/opiniao/2022/2/19/mes-paralelas-novo-filme-de-almodovar-emocionante-manifesto-contra-fascismo-110409.html   Marcelo Hailer é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP).

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Chico, Gil e Djavan processam deputada bolsonarista que vende curso antifeminista

Da revista Fórum   A deputada bolsonarista Ana Caroline Campagnolo, de Santa Catarina, está sendo processada pelos artistas Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e as famílias de Augusto Boal (1931-2009) e Mario Lago (1911-2002). A ação conjunta, segundo o advogado João Tancredo, foi feita porque a parlamentar estaria usando músicas dos cantores em um curso antifeminista. “A mentira é a base de todas as ações daquilo que o bolsonarismo chama de guerra cultural. Dessa vez, mentiram para conseguirem a autorização de uso das obras, falsearam a história num conteúdo antifeminista e omitiram o interesse comercial. Nada disso foi autorizado. O judiciário precisa dar uma resposta dura”, disse João Tancredo. A ação pede a remoção imediata dos materiais e a indenização de R$ 50 mil para cada um dos artistas. Facebook e Google também estão sendo processados. Na descrição do curso, que tem duração de 60 horas e custa R$ 358,00, Campagnolo diz que o interessado “entenderá as raízes e motivações do grupo ideológico mais perigoso das últimas décadas: o feminismo”. “Com um poder de infiltração gigantesco e impressionante organização político-partidária, o feminismo tomou a mente de adultos, jovens e adolescentes através da mídia, das universidades e da propaganda exaustiva sobre a suposta desgraçada condição feminina”, afirma. Através de entrevistas com professores, a deputada traz um contexto histórico deturpado desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e pela Modernidade, “discorrendo sobre casamento, trabalho e educação até a propaganda abortista e a teoria de gênero do século XXI.”

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Milícias digitais podem definir novo cenário para Lula e Bolsonaro

Por Ricardo Kotscho A sete meses e pouco da eleição, o que pode mudar o cenário das pesquisas que parecia cristalizado até outro dia, com larga vantagem de Lula sobre Bolsonaro, e a chamada “terceira via” fora de combate? Sem nenhum fato novo na política ou na economia, a pesquisa PoderData, do site jornalístico Poder 360, mostrou esta semana as primeiras oscilações na ponta da tabela, ainda dentro da margem de erro: * Lula continua liderando em todos os cenários de primeiro e segundo turno, mas a diferença para Bolsonaro recuou 5 pontos, em relação à pesquisa anterior, de um mês atrás. A vantagem de Lula é agora de apenas 9 pontos (40 X 31). * No mesmo período, o índice de rejeição de Lula subiu 5 pontos e foi para 43%, enquanto o de Bolsonaro caiu 6 pontos, estando agora em 54%. É preciso agora aguardar as próximas pesquisas, para ver se essa tendência se confirma, mas uma coisa é certa: só a intensa mobilização das milícias digitais bolsonaristas, que voltaram a todo vapor nas redes sociais, pode explicar esta dança dos números. Em 2018, a artilharia comandada por Carlos Bolsonaro e seu esquema, levado para o gabinete do ódio no governo, foi decisiva no turno final para aumentar a rejeição ao petista Fernando Haddad, acusado, entre outras coisas, de incentivar a pedofilia com a história da mamadeira de piroca e outras aberrações. Lula é alvo de ataques não só de Bolsonaro, mas também de Moro e Ciro, que brigam pelo terceiro lugar, mas só atiram no líder das pesquisas, poupando o atual presidente. Já se sabia que seria assim, mas não se nota até agora uma reação à altura PT nas mesmas redes, deixando a defesa e o contra-ataque apenas para declarações do próprio candidato, em entrevistas ou tuítes. Enquanto os ministros do Tribunal Superior Eleitoral fazem pomposos discursos em defesa da democracia e ameaçam punir, até com cassação de candidatura e prisão quem usar criminosamente as plataformas digitais, até agora as mentiras e baixarias continuam livres, leves e soltas no submundo da internet. É verdade que a campanha oficial só começa em agosto, mas se esperarem até lá para tomar providências, o assassinato de reputações de adversários políticos já poderá ter feito seu estrago para influir no andamento das pesquisas. Até aqui, pelo menos neste campo, o antipetismo profissionalizado em escala industrial está levando ampla vantagem sobre o antibolsonarismo, que se alastra de forma dispersa e amadora, à medida em que se deterioram as condições de vida da população mais pobre, mas que em grande parte nem tem acesso às redes. “Mesmo os mais confiantes aliados do ex-presidente afirmam que a disputa será bem mais apertada do que o confortável cenário de hoje”, escreve o colega Bruno Boghossian em sua coluna na Folha deste domingo, com o título “Lula em modo `pé no chão´”. O colunista relata que, em conversas recentes, Lula deixou de lado os números das últimas pesquisas para lembrar a aliados que uma eleição difícil os aguarda. Basta ver o volume de fake news divulgadas na última semana sobre a viagem de Bolsonaro à Rússia, dando conta de que o capitão “salvou o mundo de uma nova guerra”, versão que ele mesmo insinuou e foi replicada por filhos, parlamentares e um batalhão de robôs. Saem da mesma fábrica as mil versões das “obras” de Bolsonaro, que governos anteriores fizeram, as ameaças de que “com Lula os vermelhos e os corruptos” vão voltar”, as “conspirações” do TSE contra o presidente, um verdadeiro mundo paralelo para enaltecer o “Mito” e detonar seus adversários, com acusações requentadas já enterradas pela Justiça. Nesta disputa desigual, não sobra espaço para se discutir os reais problemas do povo brasileiro, os projetos e as propostas para tirar o país do buraco, até porque até agora o presidente não apresentou um plano do governo para o pós-pandemia. Há um Brasil subterrâneo que a gente não vê, capaz de garantir a Bolsonaro um eleitorado cativo em torno de 25% dos brasileiros, o suficiente para levá-lo ao segundo turno e então deflagrar a guerra total contra Lula com as mesmas armas ilegais de 2018. O jogo é pesado, sujo, violento, um vale tudo para se manter no poder a qualquer custo neste país destruído, inerme, anestesiado, diante de tantas desgraças. A campanha eleitoral poderia servir, como em outras épocas, para uma renovação de esperanças, mas neste clima fica difícil até sonhar com dias melhores. Se o TSE não agir a tempo, desde já, mais para a frente nada poderá fazer para impedir o esbulho da vontade popular. Basta dar uma olhada nas redes para ver o que já está rolando, antes mesmo da campanha começar para valer.   Nota da Redação: texto publicado para assinantes na Folha de S.Paulo de domingo (20/01). O Construir Resistência não tem o hábito de reproduzir artigos publicados na grande mídia privada, mas abre exceção para os de Ricardo Kotscho e Cristina Serra.  

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