Construir Resistência

15 de fevereiro de 2022

Um capitão-do-mato a serviço de outro capitão

Por Virgilio Almansur Meu sobrinho-primo, Carlos Maynard, hoje nas altaneiras, resumiu muito bem as palavras do distópico-mau-caráter Sergio Camargo num tweet da Fundação Palmares. O decrépito secretário, mais uma vez, entende a carne barata — da qual mercadeja — como fruto insofismável de uma violência que acompanha seus ancestrais empurrados que foram para os distantes morros, desde a colina da Carioca, onde serviçais continuaram a emprestar seus corpos para que a Rio Branco se tornasse mais branca num vistoso boulevard. O tweet é impressionante! Carregou elogios da banda podre que elevou um miliciano propagador de assassinos e torturadores. A lavra sintetiza nossa realidade, onde os capitães-do-mato têm ampla desenvoltura e caminham paripasso às invectivas e vitupérios típicos dessa gente malsinada que insiste na degradação. Quase secretário de governo, um desgoverno militar e para-militar da pior safra, repleto de milicianos — muitos dos escritórios criminosos como o de Adriano —, o presidente da fundação, com vistas a apontar as barbaridades desde Palmares (aqui, uma representação cultural), classifica o assassinato brutal de Moïse Kabagambe como a de um vagabundo. Sim.! Textualmente disse: “… vagabundo morto por vagabundos”, onde “a cor da pele nada teve a ver” com a brutalidade apresentada a cores num quiosque à beira mar… O plecaro presidente da fundação compõe uma ode negativista grave. Cumpre roteiro raivoso! Incrementa as palmas que o antigo candidato, seu chefe, recebeu num clube carioca ao descrever seu racismo abjeto ao tomar e tornar suas “vítimas”, pesadas em arroba, como vítimas que Elias Canetti perceberia em Auto-de-Fé, num certo bruxuleio das identidades pré-instalação do nazismo. Essa manifestação de Camargo, prenuncia o desmonte ontogenético, algo estranho ao ser, verdade, que antecipa uma virada estética cujas palavras nos conduzem ao fenecimento da arte, do próprio homem e sua expressão numa camada de desesperos (digo-a, camada, visto que são variados os desesperos num discurso que acena à desesperança — que impõe uma visada ao componente vagabundo entre vagabundos!). Aqui, a ética é desprezada! Nem se vê possibilidades da aplicação filosófica, algo improdutivo num desgoverno sem amigos do saber… Há que se perguntar: chegou já a Lei Áurea? No alvorecer de 2019, fomos percebendo a que atraso chegamos… Loas no Condomínio da Barra Pesadíssima e uma alegria de norte a sul a trazer, consciente ou não, a satisfação de que nossos irmãos devam continuar na senzala. A isso, um contribuinte como Camargo, inicia sua fala delimitando quadrados — que a elite atrasadíssima requer: “… Moïse andava e negociava com pessoas que não prestam…” Impressionante essa delimitação. Camargo entrega de bandeja uma espécie de barbárie, comutada nessa logística aplicada aqui desde os anos 1700 e 1800. Um capitão-do-mato esmerado. Prestador de serviços para honrar o que nos marca desde 2013, com a inclusão penal do instituto da delação fácil. O recado é dado: “… Em tese, foi um vagabundo morto por vagabundos mais fortes”. Impressiona a rasteirice calhorda, marca dessa escumalha militar-civil-empresarial que ora retorna esculpindo capitanias quase hereditárias e a oprimir-nos pela lei das arminhas que sufocam os corruptos marrequeados de um outro escritório do crime: aquele da 13a.VF, recepcionada no mundo das ilegalidades.. Mas o meliante não está sossegado. Também não está só! Precisa adjetivar seu composto substantivo vazio: “… A cor da pele não teve nada a ver com o brutal assassinato”. A intencionalidade que percorre as veias desse ignominioso serviçal, carrega uma angústia. Eu deveria parar por aqui… Mas não cederei às prerrogativas que me silenciam em prol de uma intransitividade que cultuo, também, em prol da profissão que requer meu distanciamento. Mas Camargo quer sua alforria, não como de origem. Ele a quer sob o manto das benesses que viu surgirem pela dedicação a uma causa que, ao negar, o coloca junto aos próceres desse poder podre que ajudamos eleger. Não há exemplo maior — e melhor! — para entrarmos no âmago dessa vertente humana que, em tempos modernos, fizeram do outro o dínamo negreiro a empurrar navios por tantas gerações… “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Esta música composta por Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette, que ganhou espaço na Música Popular Brasileira na voz de Elza Soares, enaltece as qualidades, por muitos ignorada, da população negra na construção deste país. Vale a pena reproduzí-la, deixando aqui minha homenagem a Elza Soares: “A carne mais barata do mercado É a carne negra Tá ligado que não é fácil, né, mano? Se liga aí A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra Só-só cego não vê Que vai de graça pro presídio E para debaixo do plástico E vai de graça pro subemprego E pros hospitais psiquíatricos A carne mais barata do mercado é a carne negra Dizem por aí A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra Que fez e faz história Segurando esse país no braço, meu irmão O cabra que não se sente revoltado Porque o revólver já está engatilhado E o vingador eleito Mas muito bem intencionado E esse país vai deixando todo mundo preto E o cabelo esticado Mas mesmo assim ainda guarda o direito De algum antepassado da cor Brigar sutilmente por respeito Brigar bravamente por respeito Brigar por justiça e por respeito (Pode acreditar) De algum antepassado da cor Brigar, brigar, brigar, brigar, brigar Se liga aí A carne mais barata do mercado é a carne negra Na cara dura, só cego que não vê A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra Na cara dura, só cego que não vê A carne mais barata do mercado é a carne negra Tá, tá ligado que não é fácil, né, né mano Negra, negra Carne negra

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A Globo no ar

 Por Coca Trevisan Apesar de a Jovem Pan estar se superando, a Globo não perde suas raízes. Se o canal do senhor Tutinha (Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho) conta com uma equipe formada por Coppola, Constantino, aquele sei lá “Artrites” (foi demitido semana passada por saudar nazistas), e, acreditem, até o ex-ministro da boiada (me digam, isso é jornalismo?), a Globo ainda conta com uma Miriam Leitão, uma Madalena arrependida, vejam só, criticando duramente o governo. Ora, batalhou como soldado no golpe, seu filho comemorou com festas a prisão do Lula quando lançou seu livro, e agora vem… Depois da “traição” de seu presidente, estão pagando por muitas…que já fizeram. Estão sem rumo, e agora acusam o atual governo de tudo, ignorando que foram essenciais no golpe. Lembrei do atual colunista parcial do jornal Gaúcho Zero Hora (no lugar do inesquecível Paulo Santana) que escreveu dezenas de textos alegando que o PT havia acabado. E agora?  Quem poderá ajudar suas teses? Nem Chapolim Colorado… Mas, voltemos a plim-plim, semana dessas, dia 19 de Janeiro para ser mais exato, uma matéria apresentava o seguinte título: “Prefeitura suspende vacinação infantil após criança de 10 anos sofrer infarto em Lençóis Paulista”. O título já definiu a culpa do uso da vacina infantil não é mesmo? Então, os monstros (vejam só, escrevi ministros mas o corretor trocou, e acho que ficou até mais conveniente), da Saúde do governo tinham razão…ora, ora, e acreditam. O professor e doutor em Comunicação, Nilson Lage dizia que 80% das matérias publicadas nas mídias são lançadas sem a comprovação, isto significa que somente depois serão comprovadas a veracidade das notícias. Um escândalo. Ficamos nas mãos (cabeça, pés e tronco) do que eles querem. Vejam a Jovem Pan e vocês vão confirmar o que digo, agora ex-participantes do BBB são comentaristas “especializados”, sempre defendendo o atual governo. Tem de tudo. E o pior são seus seguidores repetindo, repetindo e repetindo frases sem nexos, ou como diz o professor Nilson, sem nenhuma veracidade. Não percebem que fazemos parte da história. Quando vão entender a frase de Marx que diz que somos peças da história mas daquela história já definida. Mas o que irrita são aqueles que dizem “deu na globo”. Esse jargão servia no processo contra a Dilma, mas agora que a Globo acusa os devaneios insanos do governo, os mesmos dizem que a plim-plim é…comunista…tá loko… Como já disse, vangloriaram um caçador de Marajás onde o maior marajá era ele próprio, e agora um mito(sic) na luta contra a corrupção, porém, com caixa 2, rachadinhas, acordos com o Centrão e por aí vai… Porém, no exemplo das vacinas quem ler todo o texto, vai comprovar que a morte não ocorreu devido à vacina, mas o mal já estava disseminado. E piora, pois outros afirmam que a vacina pode nos transformar em…jacarés. Enquanto isso, a Europa ri da “nossa” cloroquina, mas quem não tem um parente que tomou tal medicamento? A fraude vendeu milhões… A mídia comanda o espetáculo e daqui alguns anos surgirão o Mito II entre outras aberrações. O gado é resiliente. Agora a novidade é a internet e suas redes sociais, mas a essência segue normas das culturas industrializadas. Logo estaremos comprando panelas com ar-condicionado. Deu na Globo. A doutrina é antiga, em 1936 George Orwell alertava que Londres estava infestado de cartazes espalhados pela cidade de comidas industrializadas e remédios, induzindo as pessoas a corroerem suas tripas com essa ou aquela forma de lixo sintético. Homens tratados como subprodutos do capital indo em direção às suas sepulturas. Tudo é dinheiro. Há décadas a rádio Globo entra com seu “O Globo no Ar” (ainda existe?) e mesmo que o sociólogo Émile Durkheim tentasse separar o normal do patológico, ou o normal dos medos criados pela mídia e instituições sociais, a saga continua. Cabe ao indivíduo definir seus caminhos, caso contrário vamos continuar seguindo Ratinhos, tirando o chapéu para não sei quem e rezando a cartilha do “deu na Globo” ouvindo as “verdades” do Globo no ar…   Coca Trevisan é jornalista e escritor.

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Jaques Wagner

‘PT tem que botar a sandalinha da humildade’, diz Jaques Wagner

Entrevista para os repórteres Julia Lindner e Bruno Góes de O Globo   Pré-candidato ao governo da Bahia e integrante da ala moderada do PT, o senador Jaques Wagner diz que o nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não está pacificado dentro do partido, mas defende que o antigo adversário cumpre um requisito essencial ao posto: “ser complementar ao presidente”. Em meio ao favoritismo indicado pelas pesquisas, o parlamentar afirma que os integrantes do PT devem “botar a sandalinha da humildade” e evitar um clima antecipado de vitória. Para ele, que considera Sergio Moro um adversário mais fácil a ser batido do que o presidente Jair Bolsonaro, em caso de segundo turno, o Centrão, inevitavelmente, será atraído para a base em um eventual governo do PT. O senhor concorda com a análise de que o centro ficou deslocado nesta eleição? Acho que se faz uma análise da polarização, ou anseio da terceira via, muito pela característica do atual presidente. Todas as eleições, à exceção de 1989, que tinha 15 candidatos, foram polarizadas. A diferença entre 2018 e as demais é que, antes, a polarização era entre dois conjuntos que tinham um projeto para o Brasil (PT e PSDB). Gosto de dizer que as duas boas novidades após o regime militar foram PT e PSDB. Essa ânsia de terceira via ocorre pelo deslocamento de um dos projetos políticos e a chegada ao poder de alguém que não tem projeto nenhum, só fanatismo e truculência. É uma anomalia que está nos custando caro. Como vê o papel do PT nas eleições deste ano? O Lula sempre foi um conciliador. Ele nunca atiçou a turma dele a jogar pedra. Mesmo saindo de uma prisão indevida, ele já conversou com Eunício (Oliveira), (José) Sarney, Renan (Calheiros), alguns dos quais fizeram o impeachment da Dilma (Rousseff). Então, ele tem noção de que, no quadro em que nós estamos, institucional e econômico, não dá para sentar alguém (na Presidência) para conflagrar mais ainda o país. A imagem do governo Dilma é apontada como um problema para o PT. Como lidar? Quem vai decidir o local de cada um não sou eu. A Dilma, na minha opinião, está protegida pelo manto da injustiça do impeachment. Não há culpa a colocar, por mais que ela fosse impopular na época e não tivesse uma relação boa com o Congresso. E outros personagens, como Guido Mantega? Ninguém disse que ele será ministro da Fazenda. Não sou eu que vou escolher. O presidente deu sinal de que quer se cercar de pessoas mais jovens, da nova geração. Para a população que vai votar, não é essa a discussão. A discussão será: “Eu vou ter emprego? Vou voltar a ter renda? Vou poder comprar meu carrinho 1.0?” Essa discussão é nossa. O debate vai ser saúde, Covid, a postura do presidente. A busca é de uma luz no final do túnel. A temática da campanha será essa? Nessa linha. E aí nós vemos, por exemplo: qual é o projeto político do Moro? Vai falar de corrupção. As pesquisas mostram que o tema está lá embaixo. A terceira via, quarta via, quinta via, (poderia ter chance) desde que apresentasse projeto consistente para o Brasil. Com alguém que tenha serviço prestado e possa dizer: isso daí eu já fiz e posso fazer de novo. Não é para vender pastel de vento. O único em que vejo consistência é o Ciro. Já foi governador e ministro. Mas ele adotou uma linha que acho que não vai chegar a lugar nenhum. É essa metralhadora giratória. Se bem que ela não gira: quando chega no Lula, ela para e fica atirando uma porção de vezes. Mas não vou deixar de dizer que é um quadro nacional que pensa o Brasil. Críticas ao Moro serão exploradas pelo PT? Prefiro mostrar o que temos para fazer. Mas se me perguntarem: “Qual é o melhor adversário?” O melhor adversário para enfrentar o Lula no segundo turno é o Moro. Porque o Moro é a mentira que cada vez fica maior. E ele não tem um grupo de adeptos como o outro (Bolsonaro) tem. Ele não tem esse exército de seguidores e não tem nada de político. Como eu acho que a última opção do povo por alguém que não era da política não deu muito bom resultado, eu não sei se vão optar de novo. É a velha música do cada macaco no seu galho. Ele não entende muito disso daqui. O outro (Bolsonaro) também chegou dizendo que ia botar a banca e virou isso aí, orçamento secreto… Essa é a nova política que se instituiu pelo neófito da política. É possível Alckmin estar na chapa e ser indicado ao Ministério da Agricultura? Acho que não se deve misturar montagem de governo com montagem de chapa. Se olhar para o histórico do Lula, o vice-presidente dele sempre teve ocupação (José Alencar foi ministro da Defesa). Mas é muito do perfil do vice. Ele (Alckmin) tem tamanho para ser (ministro). Sinceramente, acho que isso não está em discussão, porque é futurologia pura. Alckmin cumpre o que acho que o vice deve ser: complementar ao presidente. O presidente tem um perfil, um lugar de fala, um público preferencial. Ele cumpre, como poderia cumprir a (empresária) Luiza Trajano , como poderia cumprir o (presidente da Fiesp) Josué Alencar, (o ex-ministro) Roberto Rodrigues ou mil outros nomes O nome do Alckmin já foi aceito? Não. Você já viu o PT aquietar? O PT é buliçoso. O nome do Alckmin brotou de um estado importante. É a maior economia do país, a maior população, o maior eleitorado… Lógico que passou pela eventual disputa do governo do estado (em São Paulo), tudo contou. Mas, se você perguntar se está consagrado, não está. Você com certeza vai encontrar gente do PT dizendo: “Ele (Lula) não precisa disso, tem popularidade”. Ainda não começou a campanha… Eleição não é peru de Natal, não morre de véspera. Eleição

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