Construir Resistência

18 de setembro de 2021

“Meu pai não morreu. Está mais vivo do que muito vivo”, diz filha de Carlos Lamarca

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena do portal Tutaméia “Meu pai foi um homem com muita valentia, ousado. Não é qualquer homem que rompe com uma carreira segura. Ele estava prestes a ganhar uma nova promoção, era um excelente militar, a quem se confiava o treinamento de bancárias contra assaltantes. Era uma pessoa de muita confiança, muito disciplinado. Ele rompeu com o Exército. Não é para qualquer um. Qualquer um não abre tudo isso: uma carreira em ascensão, com filhos, uma família querida. Ele sabia que poderia morrer. Então precisa de muita coragem. Precisa ter ideal firme. Eles [no Exército] colocam o nome Lamarca como um exemplo a não ser seguido. O espadim dele foi retirado da Academia Militar das Agulhas Negras, o nome foi riscado. Mas, quanto mais tentam tirar, mais o nome aparece. São 50 anos, e não se esqueceu do nome. Matar, assassinar, fazer aquele cerco, com ele já moribundo, com o Zequinha o carregando porque já não tinha mais forças. Não conseguiram apagar. Não foi com a morte. Mataram e não morreu. 50 anos e está aí. Não morreu. Está mais vivo do que muito vivo”. Palavras de Claudia Pavan Lamarca, filha de Carlos Lamarca, ao TUTAMÉIA, no dia 16 de setembro de 2021, véspera da data em que se completam 50 anos do assassinato do líder guerrilheiro contra a ditadura militar. Bióloga, ela fala nesta entrevista das lembranças da vida familiar, de música, danças, conversas e brincadeiras. Lembra do momento de ruptura –quando o pai deixou o Exército e se integrou à luta armada, em 24 janeiro de 1969. Conta sobre o exílio e a volta ao Brasil, quando da Anistia, em 1979 Claudia tinha apenas sete anos quando Lamarca entrou para a luta armada, e a família foi para o exílio em Cuba. “Eu sempre me perguntei o que meu pai sentia quando ele tomou uma decisão tão extrema. Desde pequena eu venho com esse questionamento. Justamente ele vivenciou um golpe militar, quando havia sido eleito um governo democrático. Diante todo esse contexto de hoje, eu entendo muito o que leva uma pessoa a querer defender muito a democracia, a manutenção das liberdades, dos direitos tão ameaçados. Hoje eu entendo muito o posicionamento do meu pai e as decisões do meu pai. Na atual conjuntura mundial, é inadmissível que um povo peça ditadura, é inadmissível que se estraçalhem direitos, é inadmissível que se necessite discutir respeito a instituições, o tema da democracia. Porque isso deveria estar bem sacramentado. Essa linha tão tensa se assemelha muito ao que ocorria 50 anos atrás. Hoje eu me coloco muito no lugar de uma pessoa que era consciente, que era uma pessoa do povo, um militar. Eu entendo muito a revolta que ele devia estar sentindo naquele momento”, afirma Claudia. Ela conta que esse entendimento sobre o pai ficou claro quando da eleição de Bolsonaro em 2018: “Houve aquele discurso de dizimar a oposição, arminha na mão. Eu senti um medo que eu nunca tinha sentido no Brasil. Eu percebi que havia pessoas pedindo ditadura, intervenção militar. Percebi que os direitos trabalhistas estavam sendo estraçalhados, que pessoas não tinham mais vergonha de sair à rua para pedir essas coisas e que a democracia estava bem frágil. Com a iminência de golpe, eu tive essa sensação. Foi quando entendi realmente o que fez o meu pai tomar uma decisão tão séria, com uma ruptura de tudo para apoiar a democracia do Jango”. Apoiou a Constituição, reforça Claudia, rebatendo ataques de militares ao pai: “Eles se sentem traídos, mas, na verdade, a traição foi em 1964, quando se destitui um governo eleito pelo povo. Essa foi a traição. Não de quem reagiu ao golpe militar de 64. Traidores foram aqueles que deram o golpe”. Ela segue: “Não é mais cabível que existam discussões se deve ou não ter democracia. Não é mais cabível que precise ser discutido demarcação de terra indígena. Isso são coisas sacramentadas, que deveriam estar sacramentadas. Quando você vê que essas coisas estão fragilizadas, que são pilares que estão fragilizados, você começa a entender. É aí que você diz: até onde uma pessoa pode ir para defender isso? Esse que é o grande entendimento sobre o meu pai. Porque eu não conseguia dizer: como uma pessoa rompe? Esse sentimento que eu tive de revolta em relação ao fascismo crescendo, a extrema direita tomando corpo e tendo uma voz. Isso realmente dá temor e justifica que existam pessoas que digam não, eu não quero isso. É o entendimento de saber o que é bom para o povo e o que não é mais cabível numa sociedade civilizada. Existem pessoas que tomam decisões em relação a isso para a manutenção de uma democracia. Foi a minha grande experiência de entendimento em relação ao meu pai”. Claudia se recorda do momento em que Lamarca contou para os filhos que ele precisaria se ausentar, e a família iria viajar: “Houve uma conversa prévia. Meu pai conversou com meu irmão e comigo. Eu não tinha a dimensão da situação. Ele explicou que precisaria ficar longe por um tempo, que ele precisava lutar para que outras crianças tivessem a mesma coisa que a gente tinha. Quando a gente ia na rua, meu pai mostrava: ‘Tá vendo, tem uma criança que está na rua pedindo. Você precisa pedir?’. Eu dizia: Não. Ele dizia: ‘Ele precisa pedir, porque ele não tem. Você vai para a escolinha, ele não tem’. Essa conscientização ele já fazia, conversando. Ele mostrava as diferenças quando íamos à rua. Aí ele trouxe isso. ‘Lembra que sempre mostrei para vocês que existem crianças que não têm o que vocês têm? O pai de vocês precisa lutar para que as crianças que não têm tenham as mesmas coisas que vocês têm. Concorda?’ Concordamos, batemos palmas. Mas a gente não tinha a dimensão do que seria isso. Ele disse que a gente precisaria entender, justamente para que ele pudesse lutar. Na minha cabeça, dali semanas, um mês eu estaria de volta com o

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